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02/03/2017 12:54 por Redação

Ritmo de cortes na Selic está condicionado ao desempenho da atividade e das expectativas de inflação

Na próxima reunião do Copom, em abril, poderá haver nova redução de 0,75 pp na taxa básica de juros

Depec-Bradesco*

A ata da reunião de política monetária do Banco Central (BC), divulgada hoje, aumentou a probabilidade de intensificação do ritmo de flexibilização monetária, ao condicionar a velocidade dos cortes e a extensão do ciclo às questões estruturais e à evolução cíclica da economia, das expectativas de inflação e dos fatores de risco. Dessa forma, as próximas decisões do BC serão pautadas, principalmente, pelo desempenho da atividade econômica e das expectativas de inflação, em particular para 2018. Apesar dessa possibilidade aberta pela autoridade monetária, mantemos nossa expectativa de que o ritmo de corte de 0,75 p.p. será mantido na próxima reunião, diante da perspectiva de retomada gradual da atividade. Ou seja, na ausência de surpresas, o cenário mais provável é de não alterar o ritmo de 0,75 p.p. para 1,00 p.p.

Leia: Copom indica que pode intensificar corte na taxa Selic.

Assim, atenção deve ser dada à reavaliação sobre o desempenho da atividade econômica, que tem apresentado sinais mistos, compatíveis com a estabilização da economia no curto prazo. Segundo o BC, as informações são compatíveis com uma recuperação gradual da atividade ao longo deste ano. Ainda assim, a economia continua mostrando ociosidade elevada, principalmente no mercado de trabalho. Vale lembrar que, na decisão anterior, o BC havia destacado que o desempenho da atividade estava aquém do esperado anteriormente. Nesse sentido, a ata sugere que há, nesse momento, menor senso de urgência de aceleração da redução da Selic por conta do desempenho da economia.

A inflação seguiu mais favorável, com sinais mais espraiados de desinflação, inclusive nos componentes mais sensíveis à política monetária e ao ciclo econômico. Ademais, os preços de alimentação continuam arrefecendo, em virtude do choque de oferta favorável. O BC coloca que este choque de oferta de alimentos pode eventualmente se transmitir para demais preços. Diante disso, as expectativas para o IPCA para 2017 recuaram desde a reunião de política monetária anterior e permaneceram ancoradas em torno de 4,5% para horizonte temporal mais extenso.

Os cenários para a inflação reforçam a expectativa de que a variação do IPCA fique abaixo da meta de 4,5% neste ano. No cenário de mercado, com base nas projeções medianas de taxa de câmbio de R$/US$ 3,30 para este ano e de R$/US$ 3,40 para o próximo, e de taxa Selic de 9,50% e de 9,00% nos mesmos períodos, o Banco Central projeta inflação em torno de 4,2% e próxima de 4,5% para 2017 e para 2018, respectivamente. Cabe destacar que o movimento foi puxado pela melhora da inflação corrente, das expectativas e pela apreciação do câmbio, visto que as projeções do mercado para o crescimento do PIB se mantiveram inalteradas. Já o cenário de referência, que não fora mencionado no comunicado da decisão, apontou para inflação bastante abaixo da meta de 4,5% neste ano e no próximo. Considerando o câmbio de R$/US$ 3,10 e Selic em 13,00% em todo o horizonte projetado, o BC estima a alta do IPCA de cerca de 3,8% em 2017 e de 3,3% em 2018.

Em relação ao cenário fiscal, o BC manteve sua visão de importância da aprovação e implementação de reformas, em especial da reforma da Previdência, que contribuem para a desinflação e para a diminuição da taxa de juros estrutural. Já o cenário internacional permaneceu incerto, diante das possíveis alterações das políticas econômicas nos EUA e na China. A despeito disso, a economia global segue crescendo em ritmo sustentado e a alta dos preços de commodities no mercado internacional tem amenizado os possíveis efeitos negativos dessas mudanças.

O destaque da ata ficou com as discussões acerca da extensão do ciclo e do ritmo de flexibilização da política monetária, já trazidas no comunicado. Em relação ao primeiro ponto, dois aspectos devem ser considerados. O primeiro deles está ligado à a taxa de juros estrutural da economia, que depende de fatores como produtividade da economia, ambiente de negócios, andamento da política fiscal e alocação dos recursos. A segunda dimensão diz respeito à conjuntura econômica, ou seja, ao desempenho da atividade econômica, aos elementos de risco do cenário e às expectativas de inflação. Sobre a alteração da velocidade de corte de juros, o BC afirmou que uma intensificação do ritmo é compatível com um maior grau de antecipação do ciclo.

Como já dissemos anteriormente, mantemos nossa expectativa de redução de 0,75 p.p. na próxima reunião de política monetária, mantido o cenário atual. A melhora, ainda que lenta, da atividade econômica deverá reduzir a necessidade de intensificação do ritmo de cortes. Contudo, ponderamos que, caso haja alguma frustração com o desempenho da economia nos próximos meses, juntamente com maior desaceleração da inflação, a velocidade de queda da taxa de juros poderá se acelerar.

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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