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05/06/2019 10:48 por Redação

Indústria: Sem uma engrenagem de crescimento

Quebra das expectativas diante dos problemas de articulação política do governo atinge tanto empresários como consumidores

Análise IEDI*

Em abril de 2019, a indústria continuou fora dos trilhos da recuperação, segundo dados divulgados do IBGE. A perda de produção chegou a -3,9% frente ao mesmo mês do ano passado, acentuando o retrocesso acumulado nestes quatro meses de 2019. Nem a variação de +0,3% na série com ajuste sazonal retira, por enquanto, a conclusão de que a indústria entrou novamente em recessão.

Assim, um mês após o outro, as quedas vêm se renovando, como resultado de fatores que vão muito além de certas dificuldades, que embora importantes para o recuo mais recente, são de caráter pontual. Entre elas está notadamente os efeitos negativos do desastre de Brumadinho, que provocaram um tombo no ramo extrativo de -16,4% frente a abr/18 e de -24% em relação a mar/19, livre de sazonalidade.

A engrenagem do crescimento industrial está travada por razões muito mais sistêmicas do que isso. A quebra das expectativas favoráveis desde o final do ano passado, diante dos problemas de articulação política para o encaminhamento das reformas estruturais e dos ruídos de comunicação do governo, atingiu tanto empresários como consumidores, prejudicando a demanda de bens duráveis, sejam eles para investimento ou para consumo.

Sem confiança já é difícil sustentar o crescimento da produção de bens de capital e de consumo duráveis, quanto mais em uma situação de financiamento que ainda não foi normalizada, tal como aquela que o país vive. Ao contrário, os sinais dos últimos meses foram de elevação dos juros dos empréstimos, sobretudo para as famílias, e menor expansão das concessões às empresas. 

Resultado: os macrossetores de bens de capital e de bens de consumo duráveis acumulam queda de -3,1% e de -2,2% no quadrimestre jan-abr/19, respectivamente. Como mostram as variações interanuais a seguir, são estes os líderes do atual quadro recessivo, que para a indústria como um todo implica declínio de -2,7%.

• Indústria Geral: +4,4% em jan-abr/18; +0,7% em mai-ago/18; -1,5% em set-dez/18 e -2,7% em jan-abr/19;
• Bens de capital: +14,2%; +5,1%; +3,5% e -3,1%, respectivamente;
• Bens intermediários: +2,4%; +0,4%; -2,0% e -3,1%;
• Bens de consumo duráveis: 21,5%; +7,3%; -2,9% e -2,2%;
• Bens de consumo semiduráveis e não duráveis: -2,1%; -1,6%; -1,2% e -1,3%.

O desemprego, que permanece muito próximo de seus patamares recordes, e o baixo crescimento da massa de rendimentos reais tampouco favorecem os ramos de bens de consumo duráveis, mas são ainda mais negativos para os de bens de consumo semi e não duráveis, cuja evolução depende da renda corrente das famílias. Neste caso, a retração de -1,3% em jan-abr/19, embora não seja muito intensa, se dá sobre resultado de -0,3% no acumulado de 2018 como um todo.

Além destes fatores internos, há ainda um contexto internacional cada vez mais complexo diante da escalada de tensões comerciais, especialmente entre EUA e China, o que em nosso caso é agravado pela crise da economia argentina. Neste contexto, os problemas de competitividade da produção nacional pesam ainda mais e comprometem o recurso à exportação como meio de compensar o baixo dinamismo do mercado doméstico.

Em quantum, as exportações brasileiras de manufaturados acumuladas em jan-abr/19 registram retração de -5,6% frente ao mesmo período do ano anterior. Isso significa uma degradação importante em comparação com desempenho de +14,9% de jan-abr/18, contribuindo para a interrupção da recuperação industrial.

Refletindo a involução industrial como um todo, o macrossetor de bens intermediários, que produz insumos e componentes para os demais, não só registrou o declínio mais acentuado em jan-abr/19 (-3,1%), ao lado de bens de capital, como também tinha caído no 3º quadrimestre de 2019 (-2,0% ante o mesmo período do ano anterior).

Como as causas do retrocesso são de diferentes naturezas, as variações negativas aparecem de modo bastante difundido. Em abril de 2019 frente a abr/18 metade dos ramos acompanhados pelo IBGE ficaram no vermelho (13 dos 26). No acumulado de jan-abr/19, 73% dos ramos (19 dos 26) ficaram no vermelho.

Dentre os casos mais preocupantes pelos sucessivos meses de queda na comparação interanual estão equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (desde jun/18), produtos de madeira (desde out/18), papel e celulose (desde dez/18) e produtos farmacêuticos (desde jan/19). 

Outros ramos com desempenho recente quase sempre negativo incluem alimentos (queda em 11 dos últimos 12 meses), móveis (queda em 8 dos últimos 10 meses), confecção de vestuário e acessórios (queda em 7 dos últimos 9 meses), manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (queda em 7 dos últimos 8 meses) e máquinas e equipamentos elétricos e outros equipamentos de transporte (ambos com queda em 5 dos últimos 6 meses).

Leia a Análise IEDI na íntegra aqui.

* Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial

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