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06/12/2016 11:53 por Redação

Ata do Copom sinaliza que próximo corte da Selic será de 0,50 pp

Entretanto, riscos seguem presentes, especialmente concentrados no ambiente político e na evolução do cenário externo

Depec-Bradesco*

A ata da reunião de política monetária do Banco Central, divulgada hoje, confirmou nossa expectativa de que o próximo corte da Selic será de 0,50 p.p., na reunião de janeiro. Reforçando a sinalização do comunicado na semana passada, o reconhecimento de que a atividade econômica seguiu fraca aumentou a convicção dos membros do Copom de que a intensificação da redução da taxa de juros se coloca como a estratégia mais indicada para a política monetária daqui para frente. Com isso, o balanço de riscos parece ter se voltado mais à atividade, diante da desinflação já em curso.

Ata do Copom: BC cogitou redução maior da Selic na última reunião do ano.

Quanto ao cenário externo, o possível fim do interregno benigno para as economias emergentes traz incertezas, mas impactos para o cenário doméstico tendem a ser pequenos. Essas incertezas foram acentuadas pelas mudanças na condução da política econômica e pela normalização da política monetária dos EUA, que deve ser retomada neste mês. De todo modo, o documento ameniza bastante os possíveis impactos adversos desse ambiente internacional, apontando que os efeitos dever ser “mitigados por movimentos favoráveis nos preços de commodities com relevância para os termos de troca do país, o que teria caráter estabilizador”. E, conforme indicado pelo Copom, “não há, portanto, relação direta entre o cenário externo e a condução da política monetária”.

A reavaliação da atividade econômica colocou-se como o principal vetor para as decisões do Copom. Em seus últimos comunicados, o banco central apontava a frustração com o desempenho da economia como algo temporário. No entanto, nesta ata o Copom reconheceu que aumentou “a probabilidade de que a retomada da atividade econômica seja mais demorada e gradual que a antecipada previamente”. Dessa forma, a despeito dos “sinais de pausa, na margem, do processo de desinflação de alguns componentes do IPCA mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária”, há a expectativa de que o enfraquecimento da economia possa levar a uma desinflação mais intensa do que aquela sugerida pelas expectativas hoje expressas pela pesquisa Focus.

A inflação no curto prazo tem se mostrado mais favorável do que o esperado, refletindo o alívio dos preços de alimentos e os sinais de desinflação mais difundidos. A atualização dos cenários para a inflação reforça a convergência do IPCA para a meta de 4,5% no ano que vem. No cenário de referência (com câmbio de R$/US$ 3,40 e taxa Selic de 14,00% em todo o horizonte de projeção), o Banco Central projeta a inflação ao consumidor medida pelo IPCA de 4,4% em 2017 e de 3,6% em 2018, ambas abaixo do centro da meta. Já no cenário de mercado – com base na projeção mediana para câmbio e taxa Selic de R$/US$ 3,40 e 10,75% ao final de 2017 e de R$/US$ 3,50 e 10,00% em 2018, respectivamente – o Banco Central projeta inflação de 4,7% em 2017 e de 4,6% em 2018. Com isso, os membros do Copom concluem que “a postura recente da política monetária contribuiu para ancoragem das expectativas e para que houvesse mais espaço para o processo de flexibilização da política monetária. A discussão passou, então, para o ritmo dessa flexibilização.”

Com relação ao progresso da agenda fiscal, a ata afirmou que os membros do Copom reconhecem que os avanços na implementação das medidas estruturais propostas têm sido positivos, mesmo apontando que incertezas permanecem presentes. “O Comitê deve acompanhar atentamente esses esforços, uma vez que têm reflexos importantes no processo de desinflação”.

Uma observação final deve ser feita aos debates entre os membros, revelados no documento. Isso porque alguns membros avaliaram que o cenário atual – dado pela combinação da desinflação em curso, da piora da atividade econômica e do avanço positivo da agenda fiscal – já geraria condições para uma intensificação do ritmo de corte da Selic. Por outro lado, as incertezas vindas do cenário externo e os sinais de pausa da desinflação de alguns componentes da inflação mais sensíveis à atividade econômica demandavam mais cautela. Com isso, o consenso foi de que aguardar a reunião de janeiro seria a estratégia mais indicada naquele momento.

Em nossa avaliação, portanto, a ata aponta para um corte de 0,50 p.p. na próxima reunião, mantido o atual cenário de desinflação e de frustração com a atividade econômica. Entretanto, riscos seguem presentes, especialmente concentrados no ambiente político e na evolução do cenário externo. Continuamos acreditando em um ciclo longo de afrouxamento, que levará a Selic para patamar de 10,25% no próximo ano, em resposta às pressões inflacionárias decrescentes em um ambiente de elevada ociosidade da economia.

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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