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DOCES E SALGADOS

06/12/2019 08:11 por Redação

França: forte mobilização contra a reforma da Previdência continua

Cerca de 800 mil pessoas - ou 1,5 milhão segundo a CGT - foram às ruas nesta quinta-feira; transporte público segue paralisado

Tudo indica que a mobilização popular na França contra a reforma da Previdência do governo de Emmanuel Macron será mantida nesta sexta-feira (6). Os sindicatos que organizaram os protestos que tomaram as ruas ontem (5) tinham reunião agora pela manhã para decidir as próximas etapas do movimento.

A RATP, empresa que administra as linhas de ônibus e metrô de Paris, já avisou que o serviço continuará fortemente perturbado até segunda-feira (9). A companhia ferroviária nacional SNCF também informou que 90% dos trens de alta velocidade não vão circular nesta sexta-feira.

No transporte internacional, apenas metade trens do Eurostar, que ligam França e Inglaterra, devem funcionar, enquanto cerca de 30% dos Thalys, que vão para Bélgica e Holanda, foram cancelados. As companhias aéreas Air France, EasyJet, Ryanais e Transavia também cancelaram vários voos hoje, em rotas domésticas e internacionais. Segundo a Air France, os trajetos transatlânticos (como para o Brasil) não devem sofrer alterações, diz a Rádio França Internacional

Turismo - Alguns setores, como o turismo, temem o impacto concreto da greve. Se nesta quinta-feira vários museus e monumentos ficaram fechados, pegando de surpresa os visitantes de passagem pela capital, os representantes do setor hoteleiro já fazem as contas do prejuízo. Segundo um porta-voz do GNI-Synhorcat, entidade que reúne 15 mil estabelecimentos, entre hotéis e restaurantes, as reservas caíram mais de 30% e os cancelamentos dobraram em Paris e redondezas.

Nas ruas

Cerca de 800 mil pessoas, de acordo como Ministério do Interior (número que sobe para 1,5 milhão nos cálculos da Confederação Geral do Trabalho, a poderosa CGT francesa) se manifestaram nesta quinta-feira em todo o país em protesto contra o projeto de reforma previdenciária.

As passeatas foram pontuadas por momentos de tensão e até confrontos em Paris, mas também em outras cidades, como Lyon, Montpellier e Toulouse. Às 18h pelo horário local (14h em Brasília), as autoridades já haviam detido 60 pessoas envolvidas em atos de violência e vandalismo. 

Rumo à capitalização - Apesar de já estar aposentada – e do frio de 2ºC que fazia ontem à tarde em Paris –, a ex-funcionária pública Claudine, 72 anos, fez questão de participar do protesto e entregar folhetos para explicar a reforma. “É um insulto. O governo está nos levando para um regime no qual, no futuro, os jovens vão depender de capitalizações privadas para terem uma aposentadoria digna”, afirma. “Estou aqui para batalhar pelas próximas gerações.”

Greve histórica

“Foi uma forte mobilização, tanto no setor público como privado”, declarou o chefe da CGT, Philippe Martinez. Yves Veyrier, do sindicato FO, também celebrou a paralisação que, segundo ele, foi bem maior que as de 2010 e 1995, quando a França enfrentou greves históricas.

Apesar do entusiasmo dos sindicalistas, o governo não parece disposto a rever seus planos para o contestado projeto de mudança do sistema de aposentadoria. O presidente Emmanuel Macron continua “calmo e determinado a implementar essa reforma”, indicou o Palácio do Eliseu, sede da presidência. Já o primeiro-ministro, Edouard Philippe, que mantém sua posição sobre a necessidade de reestruturar do funcionamento da Previdência, promete “se exprimir no meio da próxima semana sobre a arquitetura geral da reforma”.  

A reforma

A ideia geral do projeto é fornecer um "sistema universal" de pontos para substituir os 42 “regimes especiais” existentes. Segundo o governo, "todo euro contribuído dará os mesmos direitos a todos".No entanto, há controvérsias, assinala a RFI. “Macron está querendo passar por cima da resistência. Vamos ver se ele vai conseguir”, resume o economista Thomas Coutrot.

“Os principais atores dessa greve fazem parte do setor público, que é quem sairá perdendo mais com essa reforma. Os principais atingidos serão os ferroviários e os professores, além dos funcionários do setor da saúde, como enfermeiros e auxiliares, que perderam a garantia de uma aposentadoria fixada em 60% do último salário recebido”, diz o economista.

“Hoje o sistema previdenciário garante uma certa proporção salarial [no momento da aposentadoria], que é normalmente entre 60% e 70%, se você tiver contribuído entre 37 e 42 anos”, explica Coutrot. “Com o sistema de pontos, não existe mais o percentual de salário anterior, mas a sua aposentadoria vai depender do número de pontos que você terá acumulado durante a sua carreira. Os pontos são proporcionais ao número de meses trabalhados durante o ano”, afirma.

A última reforma francesa da Previdência, aprovada no governo do socialista François Hollande (2012-2017), permite que homens e mulheres possam se aposentar a partir da idade mínima legal de 62 anos. Já a idade para se beneficiar da pensão completa é de 67 anos, sobretudo para os trabalhadores do setor privado. No caso dos regimes especiais, principal alvo do projeto de reforma, a idade mínima varia consideravelmente. Os ferroviários da companhia SNCF, por exemplo, podem se aposentar a partir de 50 e 8 meses.

O economista identifica dois objetivos principais na proposta de reforma previdenciária de Macron. “O primeiro, que é explícito e reivindicado pelo governo, é de tornar a aposentadoria mais transparente, porque as regras serão as mesmas para todo mundo. Não haverá mais o sistema de regimes diferentes, os chamados regimes especiais. Essa unificação é apresentada [pelo governo francês] como uma medida de coerência, de transparência e de justiça”, detalha Coutrot.

“O reverso da medalha é que, para muitas categorias, principalmente para os funcionários públicos e do sistema ferroviário, essa reforma vai provocar uma queda bastante acentuada do nível da aposentadoria a que terão direito”.

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