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07/03/2019 12:14 por Redação

As diferentes dinâmicas de indústria e comércio

Rafael Martins Murrer*

Com o avanço de 0,1% no quarto trimestre, a economia brasileira cresceu 1,1% no ano passado.Setorialmente, indústria e comércio apresentam ritmos distintos: a primeira, que representa aproximadamente 20% do PIB, cresceu 0,6% em 2018, enquanto o comércio, cujo peso é próximo a 15%, foi um dos setores mais dinâmicos da economia.

A dinâmica da indústria no ano passado ficou aquém do esperado inicialmente. A Pesquisa Industrial Mensal, por exemplo, apontou expansão de 2,5% em 2017, desacelerando para 1,1% em 2018.Por sua vez, o comércio varejista registrou alta de 5,0% no ano passado, acelerando em relação ao crescimento de 4,0% observado em 2017.

Dadas essas dinâmicas, uma das principais questões, olhando à frente, é se a indústria acelerará e seguirá o ritmo do comércio ou se o comércio perderá tração.Para tal, realizamos o teste de Causalidade de Granger, que consiste em verificar se dados correntes de uma série antecedem os valores de outra. O resultado que obtivemos é que a indústria ajuda a prever o comércio, enquanto a direção contrária não está bem definida. Em outras palavras, a sinalização mais provável é que a atividade industrial antecipa movimentos das vendas ao consumidor final e, nesse caso, o ritmo lento de recuperação do setor manufatureiro pode se refletir em uma moderação do comércio nos próximos meses.

Ainda assim, acreditamos que vetores negativos e positivos estejam balanceados neste início de ano para as vendas no varejo.Analisando os negativos, reconhecemos que a confiança do comércio deixou de avançar, recuando nos dois primeiros meses deste ano, ainda que se encontre em patamar acima do neutro. Além disso, não teremos em 2019 disponibilidade de renda extra para o consumo, como ocorreu nos últimos dois anos com os saques do FGTS e do PIS/Pasep. Por fim, a massa salarial cresce em ritmo moderado, o que restringe uma expansão vigorosa das compras do consumidor. De maneira análoga, observando para os vetores positivos, elencamos: (i) segundo as nossas estimativas, os dados correntes permaneceram fortes em janeiro e fevereiro; (ii) há menor comprometimento de renda das famílias, comparativamente ao observado no período de recessão; (iii) há importante aumento da concessão de crédito para pessoa física, com juros menores ao tomador final e inadimplência em patamares reduzidos; e (iv) a expectativa continua sendo a de aceleração do crescimento da atividade econômica sem grande vazamento externo (importações), o que tende a favorecer a indústria, se o comércio mantiver bom ritmo de crescimento.

Do lado da indústria, a desaceleração da atividade global tem levado a uma menor demanda externa e entendemos que é um vetor que deve permanecer ativo no primeiro semestre deste ano. Por outro lado, há espaço para ampliar a produção manufatureira, já que o nível de utilização da capacidade instalada encontra-se próximo das mínimas históricas, ao mesmo tempo em que os indicadores de confiança, apesar de abaixo do patamar neutro, estão em trajetória ascendente. Adicionalmente, os níveis de estoques estão adequados e não demandam qualquer ajuste abrupto na produção.

Sob esse contexto, é possível que o comércio perca alguma tração neste começo de ano em função do fraco desempenho da indústria. Porém, vale destacar que mesmo com essa moderação esperada, o setor varejista ainda deverá continuar com dinamismo maior do que o da indústria. Já a partir do segundo semestre, os vetores positivos passarão a prevalecer e o ritmo de retomada da atividade econômica se intensificará, favorecendo tanto o comércio quanto a indústria.Esperamos que as melhores condições de crédito para o tomador final, o menor comprometimento de renda e uma maior propensão a consumir das famílias devolvam o bom ritmo de expansão do varejo, ao mesmo tempo em que a atividade manufatureira ganhe tração para atender à aceleração da demanda doméstica.

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* Rafael Martins Murrer é economista do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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