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08/07/2019 11:21 por Redação

Perspectivas sobre economia e emprego sob a ótica do viés político

Boa parte da variância dos indicadores de confiança do consumidor é determinada pelo ciclo econômico, mas também há influências de outras naturezas

Leandro Dias Daumas, Rodolpho Tobler, Viviane Seda Bittencourt*

Desde que as primeiras medidas de confiança do consumidor foram elaboradas na Universidade de Michigan por George Katona no final da década de 1940, as relações entre estes indicadores e os ciclos econômicos têm sido sistematicamente investigadas, criando uma vasta literatura sobre o assunto.

Hoje é quase consensual que boa parte da variância dos indicadores de confiança do consumidor seja determinada pelo ciclo econômico. Mas há também evidências de que choques de outra natureza (desastres naturais, terrorismo ou eventos políticos) possam afetar temporariamente os níveis desses indicadores. Além do efeito no nível agregado, tem se buscado entender também como ocorrem as mudanças das expectativas em nível individual. Um estudo recente do Prof. Richard Curtin, da Universidade de Michigan, ficou conhecido por mostrar que as eleições de Donald Trump, em 2016, teriam provocado um inédito efeito de mudança de opinião do consumidor americano de acordo com o viés político.

Curtin (2017) mostrou que, entre o momento pré-eleitoral (3º Trimestre de 2016) e pós-eleitoral (1º Trimestre de 2017), os entrevistados mudaram sua percepção em relação aos rumos da economia de forma condicionada à sua convicção política. O indicador que mede o otimismo com relação às políticas econômicas governamentais avançou 73 pontos no período para os respondentes que se declararam Republicanos, enquanto para os consumidores de viés político Democrata recuou 46 pontos. Analogamente, o indicador de expectativas com o mercado de trabalho (desemprego) melhorou 79 pontos e piorou 37 pontos, respectivamente.

Para tentar entender se o viés político dos consumidores afeta o seu grau de otimismo com a situação econômica no Brasil durante as últimas eleições presidenciais,  a FGV IBRE incluiu alguns quesitos em sua Sondagem do Consumidor,  visando a identificação de um viés político do respondente da pesquisa. Seguindo a linha de conhecidas pesquisas internacionais sobre tipologia política, como as do Pew Research, nos EUA, as perguntas procuravam entender o posicionamento dos indivíduos quanto a temas como a função distributiva do Estado; e a participação ótima do Estado na economia e a intenção de voto entre os candidatos viáveis naquele momento.

Como forma de medir o viés político do consumidor foram levadas em consideração três respostas do informante, podendo o valor calculado variar de -3 a 3. Foi atribuído -1 ponto para cada alternativa considerada com viés de esquerda: os pobres têm muitas dificuldades porque os benefícios do Governo não asseguram o suficiente para ajudá-los a viver e a opção de resposta aumentar ou manter a participação do Estado na economia.

Além disso, a intenção de voto também foi considerada e as opções de candidatos disponíveis na época da pesquisa foram classificadas como de esquerda ou centro-esquerda. No sentido oposto foi atribuído 1 ponto para cada alternativa com viés de direita: os pobres estão acomodados porque obtêm benefícios do Governo sem fazer nada em troca, a opção de resposta diminuir a participação do Estado na economia e a intenção de voto em candidatos de direita ou centro-direita.

Viés político
• Direita: valor 3
• Centro-direita: 1
• Centro-esquerda: -1
• Esquerda: -3

Dessa forma, para cada consumidor foi atribuído um valor que retratasse um viés político-econômico na época da pesquisa. Os consumidores foram classificados de acordo com sua pontuação nos seguintes critérios de classificação: “Esquerda”, “Centro-Esquerda”, “Centro-Direita” e “Direita”. Após essa identificação, foram analisadas as expectativas dos consumidores em relação à situação econômica e ao mercado de trabalho nos seis meses seguintes.

De um total de 1.817 entrevistados, 75% responderam a todas as perguntas referentes ao Viés Político: 53,8% foram considerados “de direita” (com viés Direita ou Centro-Direita) enquanto 46,2% foram considerados “de esquerda” (com viés Esquerda ou Centro-Esquerda). 

Na edição da Sondagem feita em setembro de 2018, anterior às eleições, os consumidores com um viés político de direita se mostraram ligeiramente mais otimistas quanto à situação da economia nos seis meses seguintes do que os de esquerda. O indicador que mede o otimismo sobre a situação econômica futura registrou 108,7 pontos contra 107,8 pontos dos consumidores com viés mais esquerda.  Após as eleições, os consumidores de direita se tornaram mais otimistas, e o indicador subiu 51,4 pontos atingindo 160,1 pontos. Enquanto os com perfil de esquerda, apesar de seguirem na mesma direção, tiveram um movimento foi menos intenso, aumentando apenas 22,9 pontos. O mesmo ocorreu nas expectativas sobre o mercado de trabalho, cujo indicador avançou 46,2 pontos, entre setembro de 2018 e janeiro de 2019, para os consumidores com perfil de direita e 23,8 pontos para os de esquerda.

Houve, portanto, neste período, uma melhora dos indicadores de consumidores de todo viés político, diferindo apenas em intensidade. É um resultado diferente do que ocorreu nos EUA, país em que o viés político determinou uma guinada radical nas expectativas individuais.

Por outro lado, os resultados brasileiros estão em linha com as pesquisas de opinião divulgadas pelo Datafolha e pela CNI/Ibope, em dezembro do ano passado, sobre as expectativas dos brasileiros no que diz respeito ao governo do, até então, recém-eleito presidente Jair Bolsonaro.

Seguindo no tempo, entre os meses de janeiro e junho deste ano houve uma mudança desse comportamento. As parcelas de respondentes otimistas (leia-se: apostando na melhora da economia) diminuíram e as proporções de consumidores indiferentes, ou seja, que não achavam que haveria melhora ou piora na economia, aumentaram de forma similar em termos absolutos.

O indicador que mede o otimismo dos consumidores em relação à economia nos próximos seis meses diminuiu 28,9 pontos para os consumidores de direita e 21,2 pontos para os de esquerda. Em nível agregado, o indicador recuou 25,6 pontos no período.

Nesse segundo período, houve, portanto, uma revisão mais acentuada dos consumidores com perfil de direita em relação ao otimismo observado no período de Lua de Mel com o novo governo. Ainda assim, esses consumidores continuam otimistas e com perspectivas melhores do que os demais.

Indicadores de Situação Econômica Futura e Emprego Local Futuro

FGV VIES POLITICO

Conclusão

Entre os meses de setembro de 2018 e janeiro de 2019, os indicadores de expectativas em relação à economia aumentaram de maneira mais expressiva para os consumidores considerados de direita do que para os consumidores com viés político de esquerda, provavelmente por conta de um excesso de otimismo gerado pela eleição de um presidente cujo viés político é considerado de direita. Apesar disso, as expectativas também avançaram para os consumidores de esquerda, algo possivelmente relacionado a uma percepção de que a economia estaria travada no governo Temer e ao “efeito lua-de-mel”, já observado em outras eleições.

Já para o intervalo de tempo entre os meses de janeiro e junho deste ano, houve uma frustação das expectativas. Tanto os indicadores de expectativas em relação à economia quanto ao emprego caíram mais para os consumidores considerados de direita do que para os de esquerda, mas ambos estão mais cautelosos aguardando resultados mais expressivos dos números de atividade e definições das reformas a serem realizadas pelo novo Governo para a retomada do crescimento econômico do país e a consequente geração de novos empregos.

* Leandro Dias Daumas, Rodolpho Tobler e Viviane Seda Bittencourt são economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (IBRE-FGV)

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