Home > ARTIGOS > A inclinação da curva de juros no Brasil

ARTIGOS

10/01/2018 13:34 por Redação

A inclinação da curva de juros no Brasil

Depec-Bradesco*

A curva de juros no Brasil tem mantido uma inclinação positiva, isto é, as taxas de prazos mais longos estão mais elevadas do que as taxas de prazos mais curtos. Quando se faz uma simples estatística descritiva desse fenômeno, nota-se que a inclinação está acima da média histórica1 e do nível crítico de dois desvios-padrão. Há quatro explicações possíveis para esse fenômeno: (1) percepção de erro de política monetária, que. ao praticar juros excessivamente baixos eleva o prêmio futuro de inflação; (2) incertezas a respeito da solvência fiscal de médio prazo do país, o que eleva o custo de financiamento de prazos mais longos; (3) resposta padrão da curva à proximidade do fim do ciclo de afrouxamento monetário em um contexto de incerteza quanto ao novo nível de equilíbrio do juro neutro; e (4) influência de fatores globais na curva local.

Dependendo do diagnóstico para tal inclinação, é possível inferir conclusões distintas tanto para a condução futura da política monetária como para os efeitos sobre a atividade econômica dos juros longos estarem mais elevados do que os dos juros curtos.

Uma primeira observação é que, em situações normais, um país deve apresentar uma curva de juros positivamente inclinada. Isso porque é natural esperar que se pague um prêmio ao abrir mão da liquidez e se aplicar em taxas de juros mais longas. Além disso, à medida que o horizonte se alonga, as incertezas, de todas as naturezas (locais e externas), se ampliam e a dispersão das expectativas quanto à taxa futuras de juros aumenta, tornando a curva mais inclinada. No Brasil, isso nem sempre ocorreu, pois o país vem passando por um longo processo de convergência dos juros para patamares mais baixos e, com isso, houve inúmeros períodos de inclinação negativa, situação na qual os juros longos são mais baixos do que os juros curtos. Trata-se de uma exceção. Com a taxa Selic em seu menor nível histórico, cabe investigar qual informação está contida na atual inclinação da taxa de juros.

Em primeiro lugar, a avaliação de que a inclinação possa ser reflexo de um erro de política monetária não encontra respaldo nos dados de expectativa de inflação. Tanto a inflação corrente como as expectativas ou mesmo os modelos do Banco Central indicam que a política monetária apropriada não é diferente da que vem sendo praticada. Até onde se tem expectativas de inflação – e mesmo as dos contratos de inflação implícita do mercado –, estas indicam variações muito próximas das do centro da meta até 2020, sob a hipótese de taxa Selic ao redor de 8,0% no caso do Focus. Quanto à inflação implícita, o que se nota é que o desvio em relação à meta é hoje muito menor do que foi no passado em momentos com inclinação até mesmo menor. Logo, a inclinação não resulta da percepção de imprudência do Banco Central. O tamanho da ociosidade da economia, a inflação dos itens sensíveis à política monetária e a velocidade de recuperação do PIB indicam ser muito improvável vermos uma surpresa inflacionária nos próximos meses.

Os fatores globais também cumprem um papel importante nessa inclinação da taxa de juros local. O que se observa em vários países do mundo é uma expectativa de alta de juros básicos. A inclinação de prazos mais curtos tem se elevado bastante em muitos casos, mas tal movimento é particularmente verdadeiro nos EUA, o que acaba por produzir algum efeito nos demais países.

Se é relativamente simples descartar a primeira hipótese e caracterizar a segunda, é bem mais difícil isolar os demais efeitos sobre a inclinação da curva de juros. Quando se compara a atual inclinação com episódios passados de afrouxamento monetário, conclui-se que o atual nível não é muito diferente3 dos demais para as inclinações mais curtas, e um pouco mais acentuado para as inclinações mais longas. Essa observação é compatível com a tese de um comportamento razoavelmente padrão para o que temos visto. Essa é nossa principal hipótese.

Sempre que o Banco Central estava próximo do final do ciclo de queda dos juros, as taxas mais longas passaram a se inclinar mais fortemente. Mesmo quando comparado com o ciclo de distensão de 2011, quando os agentes apostaram na convergência de juros do Brasil, a atual inclinação não chama particular atenção. Naquela época, os fundamentos fiscais ainda autorizavam a aposta, mas a falta de ociosidade na economia e o PIB potencial em desaceleração mostravam claramente que se tratava de uma estratégia insustentável. A experiência de 2011 provavelmente cobra um prêmio, hoje em dia, em termos da inclinação, ao gerar dúvidas quanto à capacidade do país de sustentar juros em níveis tão baixos por tanto tempo.

Temos aqui, portanto, uma contradição: se não há dúvidas quanto à condução da política monetária pelo Banco Central, uma vez que as expectativas estão ancoradas, como pode existir incerteza em relação ao juro neutro de médio prazo? A resposta intuitiva é que de fato há muita incerteza a respeito do nível do juro neutro e a experiência brasileira mostra que os modelos, incluindo os do Banco Central, tendem a subestimar a inflação e, portanto, o juro necessário para fazê-la convergir para a meta.

De fato, as incertezas fiscais e sobre o PIB potencial são, hoje, maiores do que no passado. Esses fatores certamente cumprem um papel importante para a manutenção da curva bastante inclinada. Mesmo com um Banco Central comprometido com a meta, com modelos semelhantes aos do mercado, que indicam juros neutros nominais ao redor de 8,0%, se as reformas fiscais não avançarem, não será possível manter a inflação baixa por um período longo, até mesmo porque a taxa de investimento da economia – e o PIB potencial, consequentemente – não irão se elevar.

Por isso, é muito provável que essa incerteza persista por mais tempo do que o normal, enquanto não houver grande convicção em relação à solvência fiscal de médio prazo. A perda do grau de investimento e a menor participação de estrangeiros na dívida pública também cumprem um papel nessa inclinação de juros. Caso se descubra, com o tempo, que os juros estruturais cederam e as hipóteses de juro, hoje, para convergência da inflação à meta se mostrarem verdadeiras, a inclinação certamente diminuirá, mas esse tende a ser um processo de descoberta com o tempo.

Uma forma mais rigorosa de ilustrar o que estamos descrevendo é observar que os modelos que explicam a inclinação da curva de juros estão subestimando-a por conta de fatores não tradicionais. Quando se controla a inclinação dos juros a partir de uma certa expectativa de juro neutro, do risco país, dos juros globais e das expectativas de inflação, nota-se um razoável grau de acurácia da projeção, exceto para o período mais recente. Isso é um indício de que a inclinação, hoje, está respondendo muito mais às incertezas quanto à continuidade da agenda de reformas fiscais que viabilizem a solvência de médio prazo do que propriamente aos fatores aqui controlados e à operação do regime de metas de inflação.

Se uma razão importante para a inclinação da curva de juros é a incerteza fiscal, qual deve então ser a resposta da política monetária? Nossa avaliação é de que essa situação não prescreve uma política monetária mais conservadora. Enquanto as expectativas de inflação estiverem ancoradas, provavelmente haverá espaço para cortes de juros adicionais. A incerteza quanto à solvência da dívida deve entrar nos modelos do BC de maneira exógena, ou seja, como um dado. Se essa incerteza crescer, os preços de ativos irão se alterar e, com eles, as expectativas, e então a autoridade monetária terá que reagir.

Entretanto, reagir preventivamente a esse cenário para evitar o dano caso ele ocorra não parece razoável neste momento, dado o tamanho da ociosidade da economia. Com uma eventual política fiscal expansionista, ou incerteza fiscal de médio prazo, será inevitável elevar os juros. Mas essa prescrição deve se dar quando a incerteza se materializar, como sugere a boa prática de reação de política monetária, e não de forma preventiva, como nos casos em que se antecipam pressões inflacionárias. Em outras palavras, a incerteza fiscal é um evento binário e, caso venha a se materializar, seus efeitos tendem a se assemelhar muito mais a um choque de oferta, na ótica da resposta da política monetária, do que resultar da imprudência, ex-ante, com a condução da taxa de juros.

Por fim, entendemos que o efeito dessa inclinação sobre a recuperação da atividade é inequivocamente negativo. Nesse quadro, o BC pode aguardar os desdobramentos da agenda fiscal ou intensificar o corte para tentar transmitir, para a curva longa, os juros curtos mais baixos, desde que não seja percebido como imprudente, sob o risco de agravar a inclinação de juros por um prêmio de inflação. O que irá governar a resposta do BC será justamente a reação dos preços de mercado, notadamente do câmbio, e das expectativas de inflação.

O fato é que, por enquanto, a situação macroeconômica brasileira prescreve uma política monetária acomodatícia, de forma similar ao que ocorreu em outros países que tiveram dificuldades em transmitir a queda de juros curtos para a curva longa após a crise global de 2008, engendrando naqueles casos, inclusive, ações não convencionais como um afrouxamento quantitativo, caso que certamente não se aplica ao Brasil. No nosso caso, a redução das incertezas fiscais é o fator chave para a queda da inclinação de juros.

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

'
Enviando