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14/12/2016 10:50 por Redação

Recuperação do mercado de trabalho deverá ser mais lenta em 2017

Devem ser criados 150 mil postos de trabalho no próximo ano; população ocupada ficará estável, com a taxa de desemprego média de 12,9%

Depec-Bradesco*

Após a divulgação de mais um resultado negativo do PIB, diversos analistas reduziram suas expectativas para o desempenho da economia brasileira em 2017. Os dados recentes têm apontado para continuidade da contração da atividade no quarto trimestre, ao mesmo tempo em que a melhora dos índices de confiança tem perdido fôlego recentemente.

Diante disso, e lembrando que o mercado de trabalho reage de forma defasada à economia, esperamos menor geração de postos de trabalho formal no próximo ano em relação ao que prevíamos anteriormente. Além disso, acreditamos que a taxa de desemprego seguirá em alta até o primeiro semestre de 2017 e permanecerá em patamar elevado ao longo dos últimos seis meses do ano.

Como destacado anteriormente, a melhora da confiança tem perdido força nos últimos meses, sugerindo desempenho mais modesto da atividade à frente. Vale lembrar que, com exceção da pesquisa da indústria, os indicadores de confiança exibem um descolamento grande entre a situação atual e as expectativas.

Embora a maior parte do movimento de arrefecimento da confiança tenha se dado pela retração dos indicadores de expectativa, os de situação atual começaram a cair antes mesmo de atingirem um patamar suficientemente acima do observado no ano passado. Isso é evidente nas séries das Sondagens da FGV que trazem informações acerca do mercado de trabalho.

Como exemplo, os indicadores da Sondagem do Consumidor apresentam uma discrepância muito significativa entre o emprego hoje e o esperado para seis meses à frente. Enquanto o indicador de expectativas avançou durante praticamente durante todo o ano, o índice de situação atual recuou até atingir o menor nível da série histórica em novembro, refletindo a frustração com o desempenho do mercado de trabalho e da atividade neste ano. Por conta disso, alguns índices, como o Indicador antecedente de emprego (IAEmp) da FGV, também se descolaram de indicadores coincidentes.

A continuidade da queda da atividade também se vê refletida nos últimos dados do mercado de trabalho divulgados, referentes a outubro. Embora já tenhamos passado pelo pior momento de contração das vagas formais, atingido em agosto do ano passado, estamos praticamente no mesmo patamar desde junho deste ano, com média trimestral de demissões líquidas de 103 mil pessoas.

Além disso, também houve frustração com o desempenho da população ocupada nos últimos meses. Ao contrário do que esperávamos, o ritmo de queda da ocupação foi acentuado, ao apresentar recuo interanual de 2,6%. Os empregos por conta própria e informal, que haviam crescido no primeiro semestre e evitado uma retração maior da ocupação no período, reverteram esse movimento, explicando essa piora no número de pessoas empregadas.

Apesar dessa reversão, a proporção de trabalhadores formais tem se mantido constante em 38,0% desde março de 2012 (início da Pnad Contínua), ao mesmo tempo em que a razão de empregados por conta própria e informais também estão relativamente constantes, em 25,0% e 11,0%, respectivamente.

Somado a isso, ressaltamos que diversos setores da economia ainda não fizeram todo o ajuste de mão de obra. Quando calculada a relação entre o emprego e o produto de cada setor, é possível notar que o setor de serviços e, principalmente, o de comércio, foram os segmentos que menos ajustaram seus estoques de emprego, considerando o patamar pré-crise. Até mesmo a indústria de transformação não concluiu o ajuste (estimamos ser necessária uma redução de cerca de até 200 mil postos para que isso ocorra).

Já as medidas disponíveis para o setor de construção civil apresentaram corte de mão de obra além do necessário para recuperar o nível observado antes da recessão. Utilizando como referência o desempenho dos insumos típicos da construção civil (ITCC) e do PIB do setor, chegamos a um excedente de demissões entre 300 mil e 500 mil trabalhadores. Levando em conta a expectativa de recuperação da atividade de cada segmento, estimamos a variação do estoque de trabalhadores necessária para que voltemos ao nível de dezembro de 2014.

Dessa forma, dada a recuperação mais lenta da atividade econômica e, consequentemente, do mercado de trabalho, projetamos criação líquida de 150 mil postos de trabalho formais em 2017. Estimamos que a população ocupada ficará estável no período, compatível com a taxa de desemprego média de 12,9% no final do próximo ano. Essa estimativa contempla um crescimento médio de 1,2% da População Economicamente Ativa (PEA) no período, que deverá, portanto, acelerar em relação às últimas leituras.

Acreditamos que a variação positiva do PIB levará a população a procurar mais emprego, o que se refletirá no avanço da ocupação a partir do segundo trimestre de 2017, pressionando a PEA para cima. Apesar de projetarmos algum crescimento da população ocupada a partir do segundo trimestre, a taxa de desemprego deverá recuar apenas na passagem do terceiro para o quarto, visto que, antes disso, o crescimento da PEA é mais intenso que a queda do número de desempregados. Isso ocorre porque o emprego reage de forma defasada à atividade econômica. Já o rendimento médio real deverá crescer 1,0%, beneficiado pela inflação cadente no período, após cair 2,5% em 2016.

Assim, a despeito da relativa moderação dos ganhos salariais observados na Pnad Contínua neste ano, o ajuste remanescente do mercado de trabalho seguirá ocorrendo, majoritariamente, via quantidade de trabalhadores.

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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