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18/07/2019 09:16 por Redação

Economia chinesa: preocupações deveriam estar mais elevadas neste momento?

Tanto na China como no restante do mundo há a percepção de que um acordo definitivo com os EUA dificilmente será fechado neste ano

Fabiana D’Atri*

As tensões entre EUA e China já completaram um ano e ainda há muitas incertezas acerca do futuro das relações político-econômicas entre os dois países. De concreto até agora, além do declarado confronto entre as duas nações, as tarifas de importação foram elevadas para abranger quase metade da pauta, dos dois lados. Os desdobramentos para o restante do mundo, principalmente no que se refere a tarifas e restrições a mercados, continuam também indefinidos. Cadeias produtivas podem ser afetadas pelo desfecho das negociações, retomadas há algumas semanas no encontro do G-20. Essas dúvidas continuam decisivas para a economia chinesa, que vem desacelerando nesse período. Somado a isso, o espaço restrito para estímulos de curto prazo acentua as assimetrias negativas para o desempenho chinês neste e no próximo ano. A meta de crescimento do PIB, entre 6,0% e 6,5%, corre risco de não ser cumprida e o objetivo, por ora, é garantir a estabilidade do crescimento no segundo semestre.

Tanto na China como no restante do mundo há a percepção de que um acordo definitivo dificilmente será fechado neste ano e que as negociações entre as duas maiores economias mundiais levarão tempo. Há analistas, mais radicais, que ainda preveem uma ruptura definitiva. A despeito dessa leitura não otimista acerca de um desfecho favorável entre os dois países, não há pânico entre os agentes, tanto da economia real como dos mercados financeiros, diferentemente de anos atrás. O crescimento projetado para o PIB deste e do próximo ano assume apenas discreta desaceleração e as preocupações com o nível de endividamento da economia não parecem ter a relevância de outros momentos, mesmo que muitos analistas assumam que uma elevação do endividamento seja preferencial a uma desaceleração mais acentuada.

Dois indicadores, contudo, sugerem que os riscos neste momento merecem ser monitorados: (i) a China passa pelo seu momento mais elevado de incerteza de política econômica (Gráfico 1) e (ii) a produção industrial vem mostrando a menor taxa de crescimento das últimas décadas, mesmo com certa recuperação registrada em junho, em grande medida, explicada pela fraca base de comparação (Gráfico 2). Há, de fato, dissenso entre as lideranças chinesas sobre a condução da política econômica: como equilibrar os estímulos de curto prazo para preservar crescimento e a estabilidade financeira de médio prazo, haja vista o elevado nível de alavancagem da economia. Ainda que a participação do setor de serviços venha crescendo nos últimos anos, o papel da indústria não deve ser desprezado, à medida que ela reflete a temperatura da demanda interna (do lado do consumo, mas principalmente dos investimentos) e externa (lembrando que a China segue como a maior exportadora mundial de manufaturados).

Em relação às tensões entre EUA e China, depois das idas e vindas nos últimos meses, devemos reconhecer a dificuldade em se traçar um cenário para este ano. Entendemos que o cenário mais provável é de não acordo neste ano, sem escalada e sem reversão do que foi implementado até agora. As conversas continuarão avançando, mas sem se chegar a um consenso. Essa nossa visão se baseia na expectativa de que a rodada de estímulos monetários em curso, que será intensificada pelo corte de juros esperado para os EUA no final deste mês, dará suporte à economia mundial. Ou seja, a urgência para um acordo – pensando na preservação do crescimento – será minimizada pelos juros mais baixos com os quais conviveremos na segunda metade deste ano.

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* Fabiana D’Atri é economista do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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