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19/12/2016 11:44 por Redação

Mais um ano de elevada produção mundial de grãos deve manter inflação de alimentos baixa

No Brasil as safras de milho, soja e feijão devem ser expressivas, recuperando as perdas com o El Niño

Depec-Bradesco*

A produção mundial de grãos tem sido muito elevada desde 2014 e, com isso, os preços internacionais têm se mantido em patamares baixos, contribuindo para inflação comportada em diversos países. No Brasil, especificamente, uma combinação de fatores adversos tem impedido benefício integral desse movimento internacional, com destaque para a depreciação cambial do ano passado e a quebra da safra interna de grãos. Para o ano que vem, a expectativa é de boas condições para as safras de grãos, inclusive no Brasil e no restante da América Latina. Assim esperamos importante desinflação dos preços internos de alimentos.

Nos últimos anos temos observado boas safras de grãos no mundo como um todo. Após as quebras de safra entre 2010 e 2011, prejudicadas por eventos climáticos de forte intensidade (El Niño seguido de La Niña), as safras mundiais têm apresentado poucas quebras em termos agregados. Em média, o crescimento da oferta mundial dos principais grãos foi de 2,5% desde esse período crítico. No mesmo período, a demanda total por esses grãos cresceu 2,3%, levando a um crescimento considerável dos estoques mundiais e mantendo os preços mais baixos.

Com o crescimento da oferta acima da demanda em vários produtos, a inflação de alimentos vem cedendo em diversos países, como Rússia, Colômbia, Chile, EUA, Alemanha e Brasil. Alguns países, incluindo o Brasil, contudo, enfrentaram quebras de safras importantes domesticamente, que limitaram a redução dos preços de alimentos no mercado local. Na China, por exemplo, houve problemas de oferta de produtos in natura (pressionando a inflação, cujo pico chegou a uma alta superior a 30%). No México e na África do Sul, os efeitos do El Niño foram muito intensos, situação semelhante à observada no caso do Brasil, onde parte da aceleração da inflação de alimentos foi limitada pela recessão econômica.

Para a próxima safra, as expectativas continuam sendo muito favoráveis, com estimativas de safra recorde nos EUA e de nova elevação do nível dos estoques mundiais. Quando comparamos com o crescimento da demanda, teremos mais um ano de folga nos mercados dos principais grãos, mantendo os preços bem comportados. Alguma elevação é esperada, até porque as cotações muito deprimidas podem diminuir a intenção de plantio. Mas, dado o nível dos estoques mundiais, não enxergamos espaço para elevações superiores a 5%, salvo em caso de algum problema climático– o que ainda não tem probabilidade elevada de ocorrência segundo modelos climáticos das principais agências de meteorologia. A seguir iremos expor as tendências para o clima e os principais fundamentos dos principais grãos e nossa expectativa para os preços no ano que vem.

Clima: a maior probabilidade é de condições climáticas normais

O clima é sempre protagonista quando pensamos nos preços das commodities agrícolas no ano seguinte. Neste ano, especificamente, tivemos altos e baixos com as previsões climáticas. Desde meados do ano passado, entramos em um período de forte El Niño (quando a temperatura do oceano supera em mais 1,5°C a temperatura normal). No período crítico para a produtividade na América do Sul, entre setembro e março, a temperatura estava com desvio de pelo menos 2°C. Os efeitos foram bastante expressivos, com quebra importante da safra brasileira de milho (de 21% em relação à safra anterior) e feijão (de 17% em relação à safra anterior). Em outros países, como África do Sul, observamos comportamento semelhante, com o El Niño tendo um efeito muito importante sobre a produtividade das safras domésticas.

A safra do hemisfério norte, no entanto, não foi afetada, pois o período crítico para a definição da produtividade se dá entre junho e início de setembro. Para esse período, o receio era a instalação de um evento La Niña, que poderia afetar negativamente a oferta dos EUA e pressionar preços. O evento acabou não se instalando e, pelo contrário, observamos as melhores taxas de produtividade já observadas das safras norte-americanas.

Para o ano que vem, feita a ressalva de que as previsões climáticas são marcadas por grande incerteza, a maior probabilidade é de condições climáticas normais. Dessa forma, não deveríamos esperar quebras importantes de safras quando pensamos na oferta mundial de grãos. Alguns casos isolados sempre acontecem, mas não deveriam ter impacto relevante na formação de preços mundiais.

Soja: safra norte-americana deve ser recorde, com o mais elevado patamar de produtividade da série histórica

Depois de um começo de 2016 um pouco mais complicado, quando havia expectativa de queda de produção e do nível de estoques em relação à safra anterior, atualmente as expectativas para esse grão são excelentes. A safra norte-americana deve ser recorde, com o mais elevado patamar de produtividade da série histórica. A produção do país deve subir 11% na safra 2016/2017 na comparação com a safra anterior, que havia ficado praticamente estável em relação à safra de 2014/2015.

A safra norte-americana é o fator mais importante de formação de preços internacionais da soja entre maio e setembro. Assim, essa expectativa de safra excelente já está incorporada nos preços atuais e o mercado tem voltado suas atenções para a safra da América Latina até o próximo ciclo. Sobre o próximo ciclo, que começará a ser acompanhado quando os produtores norte-americanos divulgam quanto de área pretendem dedicar a cada cultura, devemos ter em mente a estrutura de custos de produção daquele país. O principal custo para produtor norte-americano é o custo de oportunidade da terra, isto é, se é mais vantajoso plantar milho ou soja, em linhas gerais.

Assim, a relação entre o preço desses dois grãos segue uma relação fundamental para a decisão de quanto alocar de terra para cada grão e determinará qual o tamanho da oferta do próximo ciclo. Atualmente essa relação está ligeiramente mais vantajosa para a soja e, por isso, a área plantada tende a aumentar, bem como a oferta desse produto, garantindo preços baixos. Assim, até maio esse equilíbrio é tênue, com milho ou soja podendo igualmente ser beneficiados. Mas notamos que essa vantagem tende a ser pequena, dadas as atuais expectativas de clima e da safra sul americana, que não devem sancionar variações abruptas.

No Brasil, um dos maiores players mundiais no mercado de soja, também há expectativa de excelente safra, beneficiada por melhores condições climáticas e investimento em fertilizantes. Assim, essa safra poderá passar da barreira de 100 milhões de toneladas de soja, o que já poderia ter ocorrido no começo desse ano, quando fomos duramente atingidos por um dos eventos El Niño mais fortes dos últimos anos. No caso da Argentina também é esperada uma  safra grande, beneficiada pelo clima.

Com a expectativa positiva para a safra os principais produtores de soja, a safra mundial deverá ser recorde, crescendo novamente acima da demanda mundial. Assim, os níveis de estoques mundiais deve bater novo recorde no ano que vem e a relação estoque sobre consumo mundial segue em patamar muito confortável. Esse comportamento deve manter os preços próximos dos níveis atuais nos mercados internacionais. De fato, esperamos uma elevação de apenas 2% na média 2017 em relação à média deste ano, com o grão encerrando o ano cotado a US$ 10,20/bushel, no mercado de referência.

Milho: produção mundial será recorde, crescendo acima da demanda pela quarta vez consecutiva

Assim como a soja, a cultura do milho também teve um primeiro semestre complicado, com todos os receios de um eventual La Niña forte sobre os EUA justamente no período crítico para a produtividade. No entanto, passado esse momento, os preços vieram consistentemente para baixo, refletindo fundamentos bastante favoráveis para esse grão, ainda mais do que no caso da soja. A produção norte-americana deverá ser recorde, também com maior produtividade já observada historicamente. A expectativa é de aumento de 12% da produção norte-americana, muito acima do aumento esperado do consumo.

Também no caso desse grão, a safra norte-americana é o fator mais importante de formação de preços internacionais entre maio e setembro. Assim, essa expectativa de safra já está incorporada nos preços atuais e o comportamento do mercado tem se pautado na safra da América Latina até o próximo ciclo. Para o produtor de milho, um dos principais custos de produção é o custo de oportunidade da terra, isto é, se é mais vantajoso plantar milho ou soja, em linhas gerais. Assim, novamente, essa relação será fundamental para determinar o tamanho da oferta do próximo ciclo, sendo que, atualmente, o milho teria a perder na alocação de terra. Por isso, entre soja e milho, há algum consenso entre os analistas de que o milho deverá ter preços subindo mais no ano que vem, refletindo crescimento menor da oferta.

No Brasil, o ano foi extremamente complicado para o milho, cultura muito afetada por um dos eventos El Niño mais fortes dos últimos anos. Assim, a oferta doméstica caiu bruscamente, devendo se recuperar na próxima safra. Com essa queda da produção doméstica, os preços internos subiram e acabaram se descolando dos preços internacionais, o que deve ser corrigido com a entrada da nova safra, no primeiro semestre de 2017.

A oferta mundial, portanto deverá ser recorde, crescendo acima da demanda mundial pela quarta vez consecutiva. Os estoques mundiais também devem atingir um patamar recorde. A relação estoque/consumo, por sua vez, também está acima da média desde 2000, mantendo os preços em patamares baixos ao longo do próximo ano. Com a relação estoque/consumo ainda favorável a preços baixos, mas estável em relação à situação atual, e com a expectativa de redução da área plantada com esse grão, esperamos alta média de 3,4%, atingindo US$ 3,9/bushel no final do ano.

Trigo: os preços ainda não devem sofrer pressão altista no próximo ano

O caso do trigo é um pouco diferente dos anteriores, já que a oferta não chegou a ser tão afetada pelos riscos climáticos. Assim, o preço do grão variou menos ao longo do ano quando comparado aos outros grãos, contando também com a produtividade recorde nos EUA e chegando ao maior nível de produção desde 2008.

No caso do trigo, a produção da União Europeia e dos países da antiga União Soviética é fundamental para os preços internacionais. De fato, a produção das duas regiões cresceu quase 4% entre 2014 e 2016, enquanto a produção mundial ficou perto do 1%. Para a safra 2016/2017, no entanto, a expectativa é de queda de 1,5% da produção desses países, que deverá mais do que ser compensada pelo aumento de produção dos EUA. Com isso, a produção mundial deve crescer 2,1% na próxima safra e a relação entre estoque e consumo mundial segue muito favorável, melhorando em relação à situação presente. Assim, os preços ainda não devem sofrer pressão altista no próximo ano. Esperamos queda dos preços de trigo, de 3,6% na média do ano, atingindo US$ 4,2/bushel no final do ano.

Duas considerações finais sobre a política agrícola nos EUA e a expectativa para a inflação de alimentos

Um último ponto merece destaque em nossa análise é a política agrícola nos EUA, com a vitória de Donald Trump. Apesar de esse não ter sido um grande tema de sua campanha, alguns pontos chegaram a ser abordados, como a simplificação de algumas regras de proteção a espécies ameaçadas, a redução ou eliminação da taxa de emissão de carbono (que diminuiria os custos de transporte) e sua abordagem mais geral de incentivar a produção doméstica.

Em relação ao etanol, o presidente eleito ainda não deu sinais claros de como será sua política, dando sinais de que aceitaria a elevação da mistura de etanol nos combustíveis, mas ao mesmo tempo incentivando a produção norte-americana de petróleo. Enquanto não escolher o secretário de agricultura, posto para o qual ainda há dúvidas, podemos apenas supor que o escolhido deverá seguir essa proposta geral do Trump, de diminuir a regulação e dar mais incentivos para a produção local. Dessa maneira, é razoável trabalhar com cenário de aumento da produção dos EUA nos próximos anos.

Por fim, diante desse quadro ainda muito benigno de oferta de grãos, esperamos, de maneira geral, que a inflação de alimentos siga bem comportada no mundo. A desinflação tende a ser mais intensa do que a observada neste ano, já que o risco climático é menor, diminuindo a probabilidade de fortes quebras de safras em alguns países específicos como vimos no início deste ano. Dessa maneira, as commodities agrícolas não devem ser vetor de pressão inflacionária no ano que vem.

Especificamente para o Brasil, esperamos uma forte desinflação dos preços de alimentos, saindo de uma alta de 8,7% para outra de 4,5%3. As safras domésticas de milho, soja e feijão devem ser grandes, recuperando as perdas com o El Niño e reduzindo de forma significativa os preços domésticos desses itens e da cadeia derivada. Apenas com a redução dessa pressão em alimentação, o IPCA contará com um alívio de 0,72 p.p..

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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