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22/11/2017 13:02 por Redação

Cenário favorável para a inflação na América Latina em 2018

Preços devem se manter “comportados”, mas há riscos de um La Niña mais intenso ou uma nova alta do petróleo

Depec-Bradesco*

Ao longo de 2017, observamos uma redução generalizada da inflação na América Latina. Uma exceção foi o caso do México, cuja inflação acelerou, refletindo os efeitos defasados da depreciação cambial após a eleição nos Estados Unidos no final de 2016 e da alta dos preços dos combustíveis ocorrida no início do ano. Para 2018, esperamos que a inflação na região continue bem comportada, o que deve levar os bancos centrais a manterem os juros nos atuais patamares – baixos do ponto de vista histórico, diga-se de passagem. No entanto, vemos alguns riscos para este cenário, tais como a possibilidade de um La Niña mais intenso ou de uma nova alta dos preços do petróleo.

A desaceleração dos preços dos alimentos foi importante para esse movimento. O desempenho favorável desse grupo refletiu o comportamento dos preços internacionais das commodities agrícolas. Tal fenômeno é especialmente relevante dada a elevada participação do grupo na cesta de consumo da região.  Destacamos o caso do Brasil, no qual o grupo Alimentação no domicilio tem peso de 15,9% no índice e registrou queda de 5,1% até outubro, refletindo principalmente a safra recorde de grãos no país. De todo modo, o cenário de queda da inflação de alimentos se materializou em vários países da região.

Na Colômbia, a desaceleração dos preços dos alimentos foi o principal fator para o recuo da inflação. Tais preços chegaram a registrar alta interanual de 15,7% em meados de 2016 e recuaram para 2,5% em outubro, o que contribuiu para uma diminuição de 3,8 p.p. da inflação, dado que os alimentos representam 28,2% do índice. Assim, a inflação ao consumidor que havia registrado um pico de 9,0% em 2016 recuou para 4,0%.  Outro fator importante para a descompressão da inflação nos últimos meses tem sido a desaceleração da demanda doméstica, como reflexo das sucessivas elevações da taxa básica de juros ao longo de 2016.

No caso do Peru, a alta dos preços dos alimentos ocasionada pelas fortes chuvas nos primeiros meses do ano foi rapidamente revertida. As chuvas afetaram a infraestrutura da costa norte, com queda de pontes e bloqueio de estradas por deslizamentos de terra. O efeito das chuvas e a dificuldade de transporte levaram a uma disparada dos preços dos alimentos. No entanto, a reversão desse choque foi bastante rápida, com os preços retornando ao nível prévio nos meses seguintes.

O desempenho das moedas dos países da região, de maneira geral, não gerou pressões inflacionárias relevantes. O cenário internacional de ampla liquidez favoreceu as moedas dos países emergentes, e em especial da América Latina. No caso do Chile e do Peru, as moedas mostraram apreciação ao longo deste ano, refletindo a valorização dos preços de metais, em particular do cobre, que é o principal item da pauta de exportação desses países. Na Argentina, a depreciação nominal foi inferior à inflação do período.

Por outro lado, a inflação no México foi fortemente afetada pela depreciação cambial em função da eleição nos Estados Unidos. O peso mexicano depreciou no segundo semestre de 2016 refletindo a eleição de Donald Trump. Ao longo deste ano, entretanto, conforme as propostas de Trump enfrentaram dificuldades para serem aprovadas e implementadas, o peso mexicano apreciou e voltou para níveis próximos aos anteriores à eleição. Apesar dessa apreciação recente, a inflação do ano foi afetada (para cima), refletindo os efeitos defasados da depreciação.

Além disso, como consequência da piora na percepção do cenário externo, o governo mexicano liberou os reajustes dos preços de gasolina, em janeiro de 2017. Com isso os preços ao consumidor subiram em torno de 20,0% em relação ao mês anterior. A combinação desses dois efeitos fez com que a inflação em 12 meses saltasse de 3,4% para 6,2%.

O cenário para as moedas da região permanece favorável. Apesar de esperamos que o Fed continue a conduzir o processo de normalização da política monetária, promovendo quatro altas nos juros no próximo ano, não projetamos que as taxas de câmbio exerçam pressões inflacionarias relevantes na América Latina em 2018. Os termos de troca da região serão beneficiados por um ritmo mais forte de crescimento da economia global no próximo ano, resultando em maiores preços das commodities.

Chile, Peru e Brasil podem se beneficiar de preços de commodities metálicas mais elevados, enquanto México e Colômbia se beneficiariam da alta dos preços do petróleo. Vale destacar ainda que a maioria dos países da região apresenta uma posição de suas contas externas melhor do que a vista em 2013, quando a expectativa de diminuição do easing monetário norte americano levou a uma depreciação das moedas de emergentes, inclusive dos países da América Latina.

Na Argentina, a dinâmica da inflação vem sendo distinta da dos demais países. Após uma alta de 41,0% em 2016, impulsionada pela retirada dos subsídios às tarifas de energia elétrica, a inflação recuou neste ano refletindo principalmente o menor impacto dessas medidas. Ainda assim, a velocidade dessa queda tem frustrado as expectativas, sendo que de janeiro a outubro a inflação já acumula alta de 19,4%, superando o teto da meta do banco central, de 17,0%.

Os preços do petróleo são uma fonte de risco para 2018. Suas cotações têm se recuperado nos últimos meses, dada a maior demanda, ao mesmo tempo que os incrementos de produção perderam fôlego. Os países membros da Opep têm cumprido as cotas de produção acordadas pela organização, ao mesmo tempo em que a produção norte-americana dá sinais esgotamento de aumentos de produção no curto prazo. Com isso, a cotação do barril do tipo Brent subiu neste segundo semestre para próximo dos US$ 65 dólares o barril, após ter oscilado em torno de US$ 50 e US$ 55 por vários meses.

Caso os preços de petróleo continuassem a subir, a inflação seria impactada principalmente pelo aumento dos preços dos combustíveis. Por outro lado, as moedas dos países exportadores de petróleo, como México e Colômbia, seriam beneficiadas neste cenário, atenuando a alta da inflação. Nossa expectativa, entretanto, é de que tais preços permaneçam ao redor do patamar atual.

Um outro risco relevante é a ocorrência de um La Niña de maior intensidade. No início deste mês, o NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) afirmou que estamos sob o fenômeno climático La Niña, o qual provavelmente deverá persistir ao longo do primeiro trimestre de 2018. Além disso, as indicações são de que o fenômeno será de baixa intensidade. No caso de um La Niña de intensidade forte, os preços dos alimentos poderiam ficar pressionados.

A inflação baixa permitiu uma flexibilização da política monetária na maioria dos países da América Latina neste ano. Países como Brasil, Chile e Peru cortaram a taxa de juros ao longo deste ano, refletindo o cenário favorável para inflação (Tabela 3) e a atividade econômica em ritmo ainda fraco.  Já o Banco Central do México recentemente finalizou um ciclo de alta (levando os juros de 3,0% para 7,0%).

O Banco Central da Argentina, por sua vez, elevou a taxa de juros em 2,5 p.p. nos últimos dois meses, para 28,75%, levando a taxa de juros real para um patamar ao redor de 10,0% ao ano. Essa elevação surpreendeu o mercado, que esperava que o próximo movimento fosse de queda. Considerando o comunicado da última reunião e o nível dos juros, acreditamos que a autoridade monetária não conduzirá novos apertos da política monetária nos próximos meses, e que discutirá um processo de flexibilização apenas após uma queda considerável dos núcleos de inflação.

Dada a perspectiva favorável para a inflação, não esperamos aperto da política monetária na região no próximo ano. Em meio a essa visão, acreditamos que a maioria dos bancos centrais da região deverá manter as taxas de juros nos níveis baixos atuais. Já no caso do México e da Argentina, que estão com as taxas reais elevadas com inflação ainda acima da meta, as autoridades monetárias deverão reduzir os juros ao longo do próximo ano, se nosso prognóstico de queda da inflação nesses países se confirmar.

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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