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23/01/2019 11:46 por Redação

Desaceleração mundial esperada em 2019 não justifica petróleo abaixo de US$ 55

Myriã Bast*

Os preços de petróleo caíram cerca de 30% nos últimos três meses, com as cotações voltando para níveis mais próximos do final de 2017, quando os preços oscilaram ao redor de US$ 601 por vários meses. As recentes dúvidas em relação ao tamanho da desaceleração do crescimento mundial têm afetado os preços de petróleo mais do que os de outras commodities, especialmente porque é um mercado com bastante liquidez e com excesso de oferta nos últimos anos, reflexo, entre outros fatores, do aumento da produção de óleo de xisto nos EUA.

Um exercício interessante neste momento é estimar qual PIB mundial justificaria uma queda tão intensa dos preços. Em nossos modelos, para justificar preços em US$ 50, como observado há algumas semanas, o crescimento mundial deveria ter desacelerado cerca de 1.5 p.p., chegando mais próximo de uma expansão de 3,0%. Em nosso cenário, contemplamos desaceleração do crescimento mundial, mas em menor magnitude, de 4,1% em meados de 2018 para 3,4% ao final de 2019. A correção dos preços nos últimos dias, voltando ao patamar de US$ 60, já reflete desaceleração nessa magnitude.

Em geral, usamos dados de atividade global e expectativa de estoques mundiais de petróleo para estimar o preço de petróleo sugerido pelos fundamentos. Esse modelo utiliza como variável explicativa o PMI global e a expectativa do EIA (Energy Information Administration, o órgão de energia dos EUA) para os estoques mundiais um ano à frente. Assim, no quarto trimestre de 2017, o preço sugerido para o petróleo era de US$ 66, enquanto o dado efetivo ficou em US$ 61 – dentro do erro médio do modelo de previsão, de US$ 5.

Podemos utilizar essa mesma modelagem para fazer o exercício inverso e estimar qual ritmo de crescimento mundial implícito no atual patamar do petróleo. Como já estamos controlando no modelo as mudanças nos estoques esperados para o próximo ano e os efeitos sazonais, a diferença de cotação deveria ser explicada por uma mudança no ritmo de crescimento corrente – ou por uma mudança na expectativa de crescimento. Estimamos que para justificar preço em US$ 75, o PIB implícito era de 4,5% - muito semelhante ao efetivamente observado em meados de 2018. No entanto, para justificar um preço de US$ 50, o PIB deveria ser de 3,0%. Ou seja, a queda expressiva do petróleo nos últimos meses teria implícita uma revisão baixista de 1.5 p.p. do PIB mundial.

Os preços das outras commodities também caíram, mas não tão intensamente quanto no caso do petróleo. Entre os produtos agrícolas, os fundamentos de oferta são muito relevantes para a formação de preços, enquanto a demanda é menos sensível à revisão do crescimento mundial (elasticidade preço da demanda é menor). Já no caso das metálicas, houve queda de quase 20% desde meados de 2018, quando o PIB mundial começou a desacelerar e aumentaram as dúvidas em relação ao ritmo de deterioração da economia global.

Essa queda dos preços das commodities traz um alívio de inflação no mundo e para a inflação doméstica, com possíveis implicações sobre a política monetária mundial em 2019. No Brasil, uma variação de 10% dos preços do petróleo em reais teria um efeito de aproximadamente 30b.p. no IPCA. Assim, preços ao redor de US$ 50 trariam um benefício adicional para o IPCA esperado para 2019, de 4,0%. No entanto, não esperamos uma desaceleração tão intensa da economia global, mas admitimos que o grau de incerteza tem se elevado. Com um crescimento mundial desacelerando do pico de 4,1% no meio de 2018 para 3,4% no final deste ano, os preços do petróleo deveriam permanecer ligeiramente abaixo de US$ 60. Nesse caso, nosso cenário de inflação já estaria bem calibrado.

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* Myriã Bast é economista do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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