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24/04/2017 13:15 por Redação

Itaú eleva de 0,5% para 1,4% a projeção do PIB no primeiro trimestre

Cenário otimista é baseado em forte contribuição da produção agropecuária

Artur Manoel Passos *

A partir dos dados do PIB mensal Itaú Unibanco e de outros indicadores de atividade econômica, elevamos a projeção do PIB do Brasil no primeiro trimestre de 2017 de 0,5% para 1,4%, após ajuste sazonal. O PIB do quarto trimestre deve ser revisado de -0,9% para -0,6%.

O resultado decorre principalmente da contribuição positiva do PIB agropecuário, beneficiado por altas projetadas de 16% da safra de soja e de 46% da safra de milho em relação a 2016. Estimamos que a maior parte da contribuição positiva seja no 1T17, dada a metodologia usada pelo IBGE para distribuir a produção de cada safra entre os trimestres.

O PIB da indústria também deve contribuir positivamente no 1T17. Apesar da estagnação observada nos dois primeiros meses do ano (queda de 0,2% e alta de 0,1%, respectivamente, após ajustes sazonais) e de nossa projeção para março (queda de 0,7%), a forte alta observada em dezembro de 2016 garante um carrego estatístico positivo que afeta o 1T17.

Finalmente, projetamos contribuição próxima de zero do setor de serviços, com estabilização da receita real de serviços.

Mudanças metodológicas são pouco relevantes para o crescimento do trimestre

O que aconteceu?

O IBGE atualizou a metodologia das séries das pesquisas mensais do comércio (PMC) e de serviços (PMS) a partir de 2017. A estratégia adotada envolveu o encadeamento da série anterior na nova série, definindo o nível de ambas a partir de comparações com o ano de 2014.

A evolução da amostra é importante para manter as séries representativas das condições agregadas da economia. No entanto, o encadeamento das séries pode, em teoria, alocar a diferença de trajetória acumulada desde o período base em apenas um mês (do último mês da série antiga para o primeiro mês da série nova). Por exemplo, caso a série tenha apresentado uma queda de x% desde 2014 pela amostra antiga e de y% pela amostra nova, os x-y pp de diferença acumulada ao longo de dois anos serão integralmente computados no primeiro mês da série estimada pela amostra nova.

A primeira divulgação com a nova metodologia, referente ao mês de janeiro de 2017, levou a resultados abaixo das expectativas, tanto nas vendas do varejo quanto na receita real de serviços. As vendas no varejo (conceito restrito) recuaram 7% na comparação anual, ao passo que a mediana das expectativas era um recuo de 4,3%. Já a receita real de serviços recuou 7,3% na comparação anual, muito abaixo da mediana das expectativas (queda de 4,5%).

Com os dados de fevereiro, o IBGE verificou a necessidade de recalcular o ano-base da pesquisa (2014), o que levou a revisões para cima nos resultados de janeiro. O resultado bruto das vendas do varejo (conceito restrito) foi elevado em 6,2 pp e o da receita real de serviços foi elevado em 4,1 pp (ver tabela).

O resultado aproximou as séries das expectativas para a primeira divulgação. De qualquer modo, a mudança da base mantém alguma incerteza sobre o quanto do resultado é causado pelo encadeamento e quanto representa a
dinâmica efetiva do mês de janeiro.

Quanto a nova metodologia pode afetar o PIB?

Para avaliar se o resultado do PIB seria muito afetado por eventuais variações associadas ao encadeamento, usamos duas estratégias diferentes. A primeira consiste em limitar as altas das aberturas das vendas no varejo e da receita real de serviços em dois desvios-padrão, e estimar o PIB no trimestre com as séries ajustadas. A segunda reduz de janeiro em diante as séries que vieram acima do projetado por modelos (baseados em indicadores coincidentes que não passaram pela mudança metodológica). Para mais detalhes, ver o anexo.

Estratégia 1:

O ajuste atinge dois componentes das vendas no varejo (supermercados e tecidos), levando a queda de 3.4% do varejo ampliado. e dois componentes da pesquisa mensal de serviços que usamos nos modelos (“informação e comunicação”, e “armazenagem e correio”). A projeção de PIB com as séries corrigidas fica 0,3 pp abaixo da obtida com as séries originais.

Estratégia 2: 

Reduzimos o nível do varejo ampliado em 4 pp. Entre os componentes da PMS, reduzimos transporte e armazenagem em 2,2pp e o de serviços de informação em 5,3 pp. O impacto na projeção seria de aproximadamente 0,4 pp.

É importante notar que as duas estratégias são conservadoras, dado que ajustam apenas as variáveis que por algum critério deveriam ser revisadas para baixo. Um ajuste simétrico, isto é, que limite/corrija também as séries que caíram além do sugerido pelo mesmo critério, reduziria o impacto aproximadamente pela metade.

Cenário para 2017 mantido em 1,0%, apesar da revisão no primeiro trimestre

Projetamos que o carrego estatístico do PIB para 2017 vai pular de -1,1% para 0,5%. Além do crescimento positivo no 1T17, a divulgação deve levar a uma revisão do ajuste sazonal do trimestre anterior. A revisão deve eleva o crescimento trimestral dessazonalizado do 4T16 de -0,9% para aproximadamente -0,6%.

Ainda assim, mantemos o cenário para 2017 em 1,0%. A justificativa é que as condições que levam a um pico de crescimento no primeiro trimestre não voltam a ocorrer no trimestre seguinte. Primeiro, a contribuição do PIB agropecuário vai ser menor (negativa no crescimento trimestral dessazonalizado, menos positiva na comparação anual). Segundo, ao contrário do 1T17, o carrego da produção industrial deve ser desfavorável - nossas projeções preliminares da produção industrial de março e abril são -0,7% e -0,8%, respectivamente.

Em suma, aguardamos sinais de uma recuperação mais disseminada para que o PIB do segundo trimestre também seja positivo e que o crescimento projetado para o ano fique acima de nosso cenário atual. O avanço das reformas será fundamental para levar a esse cenário.

* Artur Manoel Passos e analista econômico do Itaú BBA.

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