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24/04/2019 12:51 por Redação

Choques recentes não alteram o cenário benigno dos núcleos de inflação

Leandro Negrão*

Alguns choques pressionaram a inflação ao consumidor nos últimos meses. Em sua maioria, foram eventos ligados a problemas de oferta, impactando preços de alimentos e combustíveis. Esses vetores elevaram o IPCA do primeiro trimestre, que registrou a variação mais forte desde 2016, de 1,5%. Como a inflação brasileira possui elevada persistência, isto é, forte influência da inflação passada sobre a futura, é possível que surja o questionamento se esses números mais elevados – mesmo que inflados por choques temporários – não poderiam gerar algum efeito secundário, impactando também os núcleos.

Não acreditamos que essa contaminação ocorrerá. Um exercício estatístico simples indica que o índice cheio costuma antecipar a direção dos núcleos de inflação com uma defasagem entre 2 e 3 meses. Porém, desde 2005 observam-se alguns sinais falsos, quando o índice cheio sugeriu alguma aceleração dos núcleos, mas isso não se concretizou. Destacamos o ocorrido em dois episódios recentes: i) segundo semestre de 2017 e ii) segundo semestre de 2018. Nesses dois casos, há vetores comuns tanto na origem dos choques (alimentação e combustíveis) quanto nas condições de contorno da economia (ociosidade elevada e expectativas ancoradas). Esses vetores continuam presentes neste momento. Nos períodos de aceleração mais contundente dos núcleos de inflação, a atividade apresentava baixa ociosidade e as expectativas de inflação estavam desancoradas.

O risco principal para esse cenário de inflação seria uma desorganização da economia. Ou seja, mesmo em um ambiente de elevada ociosidade, poderíamos observar alguma desancoragem das expectativas. Essa combinação poderia surgir em uma situação de não aprovação de reformas fiscais. Isso tornaria mais difícil o endereçamento de um dos principais problemas do país, o elevado déficit público. Como consequência, a confiança dos empresários seria comprometida, levando à postergação de projetos de investimento e em ritmo de crescimento mais baixo. Esse quadro resultaria, potencialmente, em uma dinâmica insustentável da relação dívida/PIB e na perda de valor da moeda brasileira (efeito do cenário macroeconômico menos favorável).

Atualmente, atribuímos probabilidade bastante reduzida para esse tipo de cenário. O debate sobre a necessidade de correção do déficit das contas públicas brasileira nos parece mais maduro nesse momento, o que favorece a aprovação de uma agenda de reformas positiva, com destaque para a previdência. Apesar de uma tramitação um pouco mais lenta do que o esperado, ainda acreditamos na aprovação de uma reforma suficiente para garantir a manutenção do teto dos gastos nos próximos anos, o que também garantiria a estabilização da relação dívida/PIB em patamar mais confortável. Nesse cenário, enxergamos uma redução dos riscos associados à economia brasileira, facilitando a recuperação dos investimentos e criando um ambiente de crescimento sustentável do país no longo prazo.

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* Leandro Negrão é economista do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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