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27/05/2019 08:15 por Redação

Incertezas têm pressionado a taxa de câmbio

Mariana Freitas*

Uma série de fatores tem pressionado a taxa de câmbio nos últimos meses. Por um lado, o cenário externo se tornou mais desafiador para as moedas dos países emergentes, com uma assimetria de crescimento favorável aos Estados Unidos, o que tende a fortalecer a moeda norte-americana. Vimos também um aumento significativo das tensões entre EUA e China, com consequente ampliação da aversão ao risco. Por sua vez, no cenário doméstico, pesam as incertezas relacionadas ao avanço da agenda de reformas e a consolidação de um cenário de crescimento modesto, que pode levar o Banco Central a reduzir a taxa Selic e manter o juro baixo por mais tempo.

Alguns elementos explicam o fortalecimento da moeda norte-americana nos últimos meses. Primeiro, enquanto o resto do mundo mostra sinais de desaceleração ou de retomada tímida, os EUA mantêm um ritmo de crescimento forte; o mercado de trabalho permanece apertado, com desemprego em queda, e o crescimento do PIB do primeiro trimestre surpreendeu as expectativas, que já eram otimistas. Outro vetor importante é o aumento da aversão ao risco no âmbito global. Além do temor de uma desaceleração mais intensa da economia mundial, diante dos sinais mais fracos vindos da Europa e da China, tivemos nova ampliação das tensões entre Estados Unidos e China. Isso não apenas influencia a confiança – com riscos baixistas para a atividade econômica – mas também tende a afetar os fluxos de capitais aos países emergentes.

Diante de um cenário de aumento da aversão ao risco, as economias com fragilidades em seus fundamentos macroeconômicos tendem a ser as mais impactadas. Déficits externos elevados, dificuldades fiscais ou incertezas sobre a condução da política monetária fizeram com que o peso argentino e a lira turca fossem as mais afetadas em 2018. Por sua vez, os ativos brasileiros mostraram alguma resiliência, por conta de fundamentos sólidos no balanço de pagamentos e da inflação baixa. Porém, permanecem sujeitos à volatilidade decorrentes das incertezas em relação à implementação da agenda de reformas e às contas públicas, impactadas adversamente pelo menor crescimento.

As incertezas em relação à agenda de reformas podem continuar mantendo o câmbio pressionado no curto prazo. No entanto, o espaço para uma piora significativa é limitado dada a elevada solidez das contas externas. O Brasil apresenta saldo em conta corrente próximo do equilíbrio (pouco comum para países emergentes) e baixa necessidade de divisas externas de curto prazo. Além disso, o BC tem espaço e ferramentas para intervir se julgar necessário – como tem feito nesta semana com a rolagem dos leilões de linha cujo vencimento estava programado para o início de junho.

Com a aprovação da reforma da previdência, esperamos uma apreciação da moeda brasileira, que viria através da redução do risco país. Porém, o espaço para uma apreciação mais significativa parece ter diminuído mais recentemente, diante dos novos elementos do cenário externo e do menor dinamismo da economia doméstica. Por esses motivos, revisamos recentemente nossa projeção para o câmbio no final deste ano, para uma taxa de R$/US$ 3,80.

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* Mariana Freitas é economista do Departamento de Estudos e Análises Econômicas do Bradesco.

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