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27/09/2018 11:29 por Redação

No momento que deveriam ganhar influência no mercado, pesquisas sofrem desgaste

Mercado financeiro e outros segmentos vêm formando seus próprios consensos sem se deixar levar pelas conclusões dos analistas

Sidnei Moura Nehme*

Às vésperas da realização das eleições presidenciais, momento em que as pesquisas eleitorais deveriam acentuar sua influência na formação de consenso no mercado financeiro, ocorre uma estranha reação como que um descrédito relativo em torno dos indicativos, que passaram a ser considerados de forma muito relativa.

Efetivamente, há pesquisas e conclusões dos seus analistas para todas as tendências ideológicas, mas ao pinçar dados mais pontuais em todas e verificar sinergia entre alguns indicadores, o mercado financeiro forma o seu próprio consenso e assim, alivia tensões e temores.

Os indicadores do eixo SP-RJ-MG são muito contundentes a favor do candidato Bolsonaro, o que é um fato extremamente relevante pelo que representa do eleitorado brasileiro, e desta forma fragiliza as conclusões finais das pesquisas, e mais ainda, em relação às tendências apontadas para o 2º turno.

Bolsonaro parece ser a opção do mercado financeiro, na impossibilidade que vem se evidenciando de recuperação do candidato Alckmin. As evidências deste triângulo de Estados com expressiva massa de eleitores acabam por aliviar as pressões que vêm sendo postas pela mídia insinuando desgaste do candidato do PSL, que parece, isto sim, ter consolidado e seguro contingente de seguidores fidelizados.

Então, a percepção que fica é que o mercado financeiro, e não somente este segmento, vem formando o seu próprio consenso utilizando indicativos pontuais das pesquisas, mas não se deixando levar pelas conclusões dos analistas.

Por isso, o aparente mau sentimento que foi insinuado, a partir da pesquisa IBOPE de segunda feira, na dinâmica do mercado financeiro na abertura da terça-feira acabou por não se sustentar, e a B3 e o dólar reverteram o mau humor do início do dia de forma contundente nos seus fechamentos, que foi sustentado na quarta-feira, quando também houve novas pesquisas.

Os investidores na B3 não têm preocupações cambiais, visto que têm seus recursos protegidos adequadamente por “hedge”, enquanto o dólar vem sofrendo desde meados de agosto um impróprio e insustentável movimento especulativo que agora desaponta os que acreditavam que poderiam conduzir o preço da moeda americana a R$ 5,00 ou mais, e que agora denota consistente perda de sustentação e insinua forte viés de baixa.

Como temos destacado, o país tem absoluta tranquilidade na questão cambial, com reservas cambiais elevadíssimos e um discreto déficit em transações correntes em torno de 0,8%, deixando evidente que o Brasil está com suas contas externas absolutamente em situação confortável. É, portanto, um emergente significativamente diferenciado neste quesito em relação aos demais. E mais, tem inflação e juros baixos e controlados.

As preocupações se concentram nas perspectivas em torno da viabilidade de retomada da atividade econômica no novo cenário pós-eleição presidencial, visto que não houve discussão em profundidade dos aspectos programáticos dos candidatos, tendo o debate sido centrado em muitos denuncismos e ataques, e, naturalmente, algumas promessas mirabolantes alheias à realidade do país neste momento.

Como dizia Joelmir Betting, na prática a teoria é outra e esta é a questão presente, há um absoluto ceticismo sobre o que poderá o novo Presidente programar, havendo um consenso, não deles, mas generalizado e preocupante de que sem reformas o país beirará a ingovernabilidade.

Agências de rating, investidores em conta capital e até os investidores na B3 mantém forte foco sobre as linhas programáticas do novo governo para adotarem atitudes efetivas em relação ao Brasil. O desafio para o próximo Presidente é enorme e, naturalmente, dependerá muito também da renovação do Congresso.

Então, afora este enorme desafio interno, o país deverá focar também as consequências dos embates comerciais externos, principalmente entre Estados Unidos e China, que devem causar fortes perturbações nas perspectivas de crescimento da economia e comércio global, e naturalmente poderão afetar os países emergentes, entre os quais o Brasil.

Não menos importante será avaliar os efeitos das diretrizes do FED americano na condução da política monetária americana, no momento em que a economia ainda está em intensa atividade. Ontem, elevou a taxa de juro em 0,25% para o intervalo 2,00-2,25% e sinalizou mais uma alta este ano e pelo menos três em 2019. A taxa do T-Bond de 10 anos superou 3,10% aa, mas, por enquanto, não acreditamos que vá provocar fuga de capitais do Brasil na direção “fly to Quality”, pois já houve um deslocamento substantivo em agosto.

Há considerável preocupação neste momento sobre os desmandos do Presidente Trump no ímpeto do confronto comercial, que pode levar os Estados Unidos a tendência cadente do crescimento do PIB e até mesmo ocorrência de recessão. Mas este é problema para depois das eleições presidenciais brasileiras que neste momento centralizam as atenções.

Na questão cambial, como já salientamos inúmeras vezes, não há risco de crises, seja qual for o candidato eleito Presidente, a situação do país é absolutamente sólida.

O fluxo cambial até o dia 21, divulgado hoje pelo BC, não evidencia nenhum movimento que possa ser configurado como fuga de capitais. Está negativo no mês em US$ 3,403 Bi, consequência de fluxo comercial positivo de US$ 492,0 Mi e fluxo financeiro negativo de US$ 3,895 Bi. Na semana de 17-21, o fluxo comercial foi positivo em US$ 65,0 Mi e financeiro negativo em US$ 1,990 Bi, resultando líquido negativo de US$ 1,925 Bi.

Os bancos detinham na virada do mês US$ 160,0 Mi nas suas posições compradas e mais US$ 2,150 Bi em linhas de financiamento concedidas pelo BC, o que formava um “colchão de liquidez” de US$ 2,310 Bi e que agora está negativo em US$ 1.093,00 Bi, o que pode motivar o BC a realizar leilão de linha de financiamento em moeda estrangeira com recompra, podendo os bancos também utilizar linhas externas diretas com seus banqueiros no exterior.

Não deve ser considerado como atípico se o BC vier a realizar leilão de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra, visando manter o mercado bem líquido.

Por isso, continuamos com a nossa convicção de que, passado este movimento especulativo puramente episódico insustentável e sem fundamentos, mas fruto de uma oportunidade criada pelo excesso de oferta de contratos de swaps cambiais pelo BC que acabaram não vinculados a passivos dolarizados, complexidade de entendimento do mercado de câmbio e um elevado grau de desinformação acerca de dados da situação confortável do país no segmento cambial, o preço da moeda americana retroagirá para o preço de R$ 3,80, ou até menos, de forma contundente.

Como já colocamos, este ajuste pode até ocorrer de forma abrupta (efeito manada), o que não seria surpreendente, mas salientamos, mais uma vez, que há flagrantes riscos para quem ainda mantém posição especulativa.

* Sidnei Moura Nehme, economista, é diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio

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