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28/05/2019 09:42 por Redação

O Twitter do presidente foi às ruas

Bolsonaro está isolado em sua rede social e conseguiu botar a bolha da direita radical nas ruas. Não sou eu que digo, são eles

Mara Telles*

lEscudeiros fiéis do Presidente Bolsonaro. Foi o que se viu ontem nas ruas de Belo Horizonte. Diferente do público que participou das manifestações pró-impeachment, ontem os homens tomaram conta do pedaço. Notou-se a redução da participação das mulheres, dos brancos e dos indivíduos de curso superior, uma presença maior dos evangélicos pentecostais e da escolarização média, quando comparado às mobilizações pró-impeachment, bem como a concentração ideológica na extrema direita. É importante observar que se diferem dos impicheiros de 2015, onde a esmagadora maioria era de pessoas brancas, de nível superior, com pouca presença de evangélicos e com preferência pelo PSDB, entre os que tinham identidade partidária. Ontem o PSDB saiu de cena muito mal avaliado e o PSL predominou na preferência daqueles que se manifestavam em apoio às políticas do governo.

Quase 100% deles votaram em Bolsonaro e repetiriam seu voto, caso as eleições fossem hoje. Foram às ruas motivados pelas reformas em geral, pela reforma da previdência e para apoiar o presidente Bolsonaro e, muito embora acreditem que a reforma da previdência melhorará a economia e atrairá dinheiro, não apontam a crise econômica como o principal problema do país, que continua a ser a corrupção, mesmo que no momento estejam o filho Flávio e seu assessor e ministros do governo envolvidos em esquemas nada éticos.

Coletam suas informações sobre os movimentos de direita pelas redes sociais, sobretudo no Facebook, sustentam fortemente o pacote Anticrime, a Reforma da Previdência, a redução dos ministérios, a CPI da Lava Toga, a aprovação do projeto Escola sem Partido e querem a devolução do COAF para o Ministério de Moro.

Não confiam nos canais de TV, acreditam que a Rede Globo faz Oposição ao Presidente e se informam sobre política nas mídias sociais. Testamos ainda alguns dos conteúdos que foram compartilhados pelos principais perfis on line que mobilizaram os manifestantes. Sim, em sua maioria eles concordam com a afirmativa de que “Bolsonaro quase morreu por nós” e que ele é “enviado de Deus para governar o Brasil”. Não é surpreendente, pois eles foram expostos às Fake News como “as urnas são fraudadas”, "kit Gay", Pedofilia e etc. Segundo divulgado pela FGV, estas foram compartilhadas aos milhões e a maioria dos manifestantes recebeu estas notícias falsas, como apuramos.

O segundo problema mais urgente do Brasil, segundo eles, são a educação e a segurança. Contudo, a avaliação da maioria é a de que os professores em geral “mais doutrinam que ensinam”, as universidades públicas federais são uma “bagunça" e as cotas para negros deveriam acabar, pois são um erro. Talvez, uma balbúrdia, já que ampla maioria considera que o Presidente pode intervir nas universidades públicas federais e também nos sindicatos.

Eles afirmam que a democracia é a melhor forma de governo e querem a manutenção das eleições, mas, pelo jeito, desde que as eleições sejam feitas só com partidos da direita, pois muitos pensam que os partidos de esquerda e comunistas devem ser extintos. A democracia eleitoral do partido único, porque a maioria não tem identidade com partidos, mas quem tem preferência por alguma legenda segue o PSL. Quem sabe com Sergio Moro disputando, já que eles pensam que ele seria um bom Presidente para o país e dizem que Olavo de Carvalho se aproxima da maneira deles de pensar?

A economia anda ruim e péssima, dizem eles, mas o governo parece não ser o bode expiatório desta situação, pois Bolsonaro continua a ser Mito e faz um governo bom ou ótimo. É provável que os responsáveis pela bagunça econômica sejam o Centrão e Rodrigo Maia, considerados pela ampla maioria, junto com Lula, como verdadeiros malfeitores.

Esta turma que foi às ruas representa o brasileiro médio? Ela é muito mais radical e ideologicamente posicionada nos extremos ideológicos, mas faz um barulho danado para tentar persuadir a opinião pública de que eles representam os 57 milhões de votos em Bolsonaro. Eles são parte de uma direita radical que cresceu bastante, mas que ainda é um nicho incapaz de reeleger Bolsonaro, caso ele não aprenda a governar. E, como sabemos, a sua capacidade de governar é nula, sua capacidade de criar conflitos é alta e suas chances de ser retirado do cargo aumentam após uma manifestação que ataca os representantes da “velha política”.

Bolsonaro está isolado em seu Twitter e conseguiu botar a bolha da direita radical nas ruas. Não sou eu quem digo, são eles: a maioria esmagadora se autodeclarou como de direita e extrema direita. A continuar falando somente para esta minoria ruidosa, desabonando os políticos profissionais e sem sair do lugar com as reformas desejadas pelo mercado, só lhe restará o parlamentarismo branco, o impeachment e a fujimorização, hipótese esta pouco provável, porque o apoio ao Presidente está cada vez mais escasso.

Desacreditam das instituições e seguem o populismo de direita. Ao fim e ao cabo, diz a maioria, os militares podem ser chamados a tomar o poder, em caso de crise. Bom, estamos numa crise política e econômica. Seria a hora de Mourão ser tentado a assumir para botar “ordem” na casa?

* Com base em dados coletados pelo Grupo de Pesquisa Opinião Pública (UFMG) e Agência Press. Belo Horizonte, 26 de maio de 2019.

* Mara Telles é cientista política e professora no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.

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