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29/06/2018 12:22 por Redação

Ambiente desafiador para a América Latina

Depec-Bradesco*

O ambiente no mercado internacional tornou-se mais desafiador para os países emergentes nos últimos meses. Ao longo do primeiro trimestre, a visão prevalecente era a de crescimento mundial sincronizado e elevação gradual dos juros nas economias desenvolvidas. Desde então, tivemos o aumento do risco de guerra comercial por conta da agenda protecionista do governo Trump, sinais de arrefecimento do crescimento na Europa e na China e evidências de que a economia dos EUA já se encontra no pleno emprego, o que aumenta o risco de pressões inflacionárias, cujo viés já era de alta por conta das medidas protecionistas e do estímulo fiscal associado às mudanças tributárias aprovadas recentemente pelo Congresso norte-americano.

Na prática, consolidaram-se as expectativas de que o Federal Reserve não só elevará sua taxa básica de juros quatro vezes em 2018 (já foram duas), mas que continuará elevando o juro também em 2019, e houve aumento da aversão ao risco e maior seletividade entre os investidores internacionais. Para uma discussão mais detalhada da conjuntura internacional, ver Cenário Mensal DEPEC-Bradesco, de 8 de junho de 2018. Essa maior seletividade entre os investidores resultou em pressão sobre os preços de ativos de diversas economias emergentes, inclusive na América Latina.

Na América Latina, o primeiro país a enfrentar dificuldades foi a Argentina, onde o mercado colocou em cheque o gradualismo da agenda de ajustes e a persistência da combinação de (i) déficits elevados em transações correntes e nas contas fiscais, (ii) inflação elevada e (iii) defesa de uma paridade cambial desde o início do ano como parte da estratégia de combate à inflação. Em um primeiro momento, o Banco Central argentino tentou defender a cotação do peso, mas acabou sendo obrigado a elevar o juro e a buscar um acordo com o FMI para dar credibilidade ao esforço de acelerar o programa de ajuste macroeconômico. Como seria de se esperar, as perspectivas de crescimento econômico pioraram bastante por conta da crise de confiança. Revisamos nossa projeção de expansão do PIB em 2018, de 3% para 1%, além de ajustar o cenário como um todo à crise.

Ativos mexicanos têm enfrentado pressão há algum tempo por conta da incerteza eleitoral e das dificuldades nas negociações para reformar o tratado de livre-comércio com os EUA e o Canada (NAFTA), conforme exigido pelo pelo governo Trump. A demanda doméstica no México tem sido favorecida pelo aumento das remessas de emigrantes nos EUA, impulsionado pelo crescimento da economia norte-americana, o peso mexicano mais depreciado e as incertezas com relação à política migratória dos EUA. Mas o investimento segue retraído por conta das incertezas. Por isso, mantivemos nossa projeção para o crescimento do PIB em 2018 inalterada em 2,3%.

O novo presidente mexicano será eleito em 1º de julho, mas o período de transição é muito longo e o novo governo somente tomará posse em dezembro, o que pode se tornar uma fonte de volatilidade. Também vale ressaltar que o Banco Central do país tem reafirmado que considera o diferencial de juro com os EUA um fator importante para a condução da política monetária. Com a alta da taxa de juros nos EUA, nossa expectativa é a de que o México elevará sua taxa básica de juros (atualmente em 7,75%) para até 8,25% no final do ano.

O novo contexto internacional indica um cenário menos favorável para os preços das commodities metálicas, com implicações negativas para Chile e Peru. No caso do Peru, ajustamos nossa projeção de crescimento levemente para baixo, de 4,0% para 3,7%. Já no caso do Chile, a demanda doméstica tem surpreendido para cima, nos levando a ajustar nossa projeção para cima, de 2,5% para 3,5%.

A Colômbia tem enfrentado o ambiente externo mais desafiador com certa tranquilidade. Foi favorecida pela alta do preço do petróleo e pelas expectativas positivas relacionadas à vitória eleitoral de um candidato comprometido com a continuidade da política econômica. Projetamos crescimento do PIB de 2,8% em 2018 e de 3,5% em 2019. No entanto, a persistência de um déficit elevado em transações correntes é uma vulnerabilidade importante no novo contexto internacional.

Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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