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ANTONIO MACHADO

21/01/2017 23:04 por Antonio Machado

A política e seus sortilégios ofuscam o que se passa na economia no Brasil e vai passar nos EUA

Percepção, no mundo, é que ou a política muda ou os políticos serão mudados. Ativismo da classe média no Brasil reflete esse viés reformista que o PT ignorou e o PMDB abraçou

Além do horizonte

A política e seus sortilégios ofuscam a compreensão sobre o que se passa na economia no Brasil tanto quanto nos EUA as provocações sem limites disparadas pelo presidente Donald Trump em frases curtas no twitter mais atordoam que aclaram a chacoalhada que deverá promover nas fundações do capitalismo global, com efeitos imprevisíveis.

Entre ambas as economias, talvez a brasileira corra menos risco em prazo curto, já que a produção e o consumo afundaram em apenas três anos como chumbo lançado ao mar e insinuam uma reversão, enquanto o legado econômico do ex-presidente Barak Obama, apesar de criticado, teve muitos méritos: evitou a depressão após a grande crise de 2008 e baixou o desemprego a 4,7%, o menor entre os países mais ricos.

Mas tanto lá, como aqui, os governos foram impotentes para superar problemas centrais, como a crescente disparidade de renda sem sinal de reversão, também aguda na Europa, o deslocamento do emprego para a Ásia, a internacionalização das empresas nativas, o descasamento entre o alcance das políticas de bem estar e as receitas fiscais, o avanço da tecnologia poupadora de mão-de-obra, ondas migratórias.

O eleitor típico no mundo desenvolvido está temeroso, irritado com os líderes políticos, e exige mudanças à esquerda e à direita.

É assim que, contrariando as previsões, o eleitor inglês aprovou o desligamento da Grã Bretanha da União Europeia, no evento apelidado de Brexit, os americanos elegeram Trump, e regiões tradicionalmente caras aos partidos de esquerda na Europa vêm apoiando políticos com discurso reformista de cunho nacionalista, nativista e populista.

De algum modo tais sentimentos também estão aqui, com diferenciais de ênfase. Por exemplo, desde a reforma monetária de 1994 se busca melhorar a economia pela ótica privada e social, mas não da gestão do setor público. Deu-se mais atenção ao saldo geral do orçamento público que à qualidade da receita (tributação) e da despesa.

Com razão, a sociedade reclama que paga caro e recebe serviços ruins na saúde, na educação - e colhe tragédias, como na segurança pública.

A percepção para onde se olhe, no mundo, é que ou a política muda ou os políticos serão mudados e até regimes econômicos (retórica de Trump) ou institucionais (Brexit, o euroceticismo de Marine le Pen, na França, etc.). O ativismo da classe média no Brasil reflete esse viés reformista que o PT ignorou e o PMDB de Michel Temer abraçou.

A história como guia

A verdade que intelectuais independentes começam a admitir é que o progresso não inclusivo é tão nefasto quanto a estagnação percebida como regressão social. É o que se lê nos informes mais recentes de gente insuspeita, tais como o Nobel Joseph Stiglitz, o biógrafo de Keynes Robert Skidelsky e o professor desenvolvimentista de Harvard Dani Rodrik. Eles veem pontos relevantes nas diretrizes econômicas de Trump, a despeito de sua demagogia protecionista e antimigração.

Se a história funciona como guia, grandes transformações se seguem a grandes colapsos após cinco anos ou mais, diz Anatole Kaletsky, influente analista internacional. O imperialismo veio na sequência das revoluções dos anos 1840; o keynesianismo seguiu-se à depressão dos anos 1930; o fundamentalismo de mercado de Thatcher-Reagan foi a reação à grande inflação da década de 1970.

“Poderia o trumpismo, entendido como resposta defasada à crise de 2008, anunciar um novo regime capitalista?”, questiona Kaletsky. Essa é a discussão.

Uma nova elite voraz

As soluções vêm de questionamentos profundos, carentes nos debates de fundo sobre o fim de linha do modelo nacional e dirigista que de tempos em tempos nos assombra no Brasil. É culpa do modelo, como os liberais de mercado sentenciam, ou aqui ele acabou corrompido?

Dessa resposta depende o sucesso das reformas que Temer e sua base parlamentar se dizem dispostos a avançar, mas também a recomposição da esquerda. Ela foi enlaçada pelas corporações do funcionalismo e lobbies ditos sociais, que formam uma nova elite voraz.

O próprio governo evitou essa briga ao dar aumentos à nata do funcionalismo, arruinando o primeiro ano da PEC do Teto, além do mau exemplo tanto ao ajuste que cobra dos estados como para a reforma da previdência.

Discutindo a relação

A administração das demandas constitucionais se assenta num cipoal de instâncias federais, estaduais e municipais que subvertem tanto o senso de autonomia orçamentaria e política dos entes federativos, como as regras de boa governança. Há muita gente em funções meio, e pouca, e despreparada, na ponta (professores, médicos, policiais).

Várias categorias funcionais passaram nos anos petistas a receber o triplo do que recebem em média os assalariados sem estabilidade, sem falar dos salários e aposentadorias abusivas de magistrados e procuradores. As desonerações também são um sorvedouro de dinheiros sociais a exigir solução, assim como o peso de juros.

Menos mal que tais temas estejam em evidência. E sem vodus para enfrentá-los.

Sucesso ou fracasso

Nada é fácil se a economia recuou quase oito pontos percentuais do PIB em três anos, como diz o economista Fernando Montero, perdeu dois Paraguai de receitas e carrega uma bateria de gastos públicos indexados e com crescimento rígido, estrutural e vegetativo.

Vergou ao menos a taxa de inflação, que tende à meta central de 4,5% este ano e até abaixo de 4% na virada do semestre. É a oportunidade para desinflar a gosto a taxa Selic, e também para faxinar a indexação.

Menos juros e alguma reforma financeira liberam crédito, base para a volta do crescimento, e a desindexação (ou indexação só pela meta oficial) abrevia o resultado fiscal positivo. Trata-se de fazer com que a recessão tenha maior consequência.

Tal agenda, com a revisão da previdência, dos impostos indiretos (ICMS, IPI, Cofins, PIS) – e com discussões rolando ainda neste semestre -, pode armar o Brasil para enfrentar o furacão Trump - seu sucesso ou um fracasso épico, ambos resultados desestabilizadores para quem estiver despreparado.

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