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ANTONIO MACHADO

26/10/2019 22:56 por Antonio Machado

Canário de mina. Dias de fúria no Chile são alertas sobre a precariedade social

Maioria invisível, ignorada pelos grupos organizados, é que elege presidente. Aqui, no Chile, EUA. Os surtos de raiva eclodem quando a indiferença se torna gritante

Canário de mina 

A onda de protestos violentos no Chile, vitrine das virtudes de políticas econômicas liberais numa região infestada de populismos, chocou o mundo. Vista como análoga às assombrosas manifestações de junho de 2013 no Brasil não previstas por ninguém, o tom tanto lá, como antes fora aqui, combina surpresa, tensão e improviso.

Desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet, o Chile tem sido exemplo de democracia plena, de liberdade econômica com bons resultados (os melhores da região) e avanços sociais. Como poderia o povo ir às ruas com tamanha raiva e ressentimento em todo o país diante desse sucesso, questiona a “intelligentsia” internacional?

Ainda agora a perplexidade é ampla de uma ponta a outra do arco ideológico. É o que deixa margem a teorias conspiratórias em tempos de fake news, especialmente comum entre os governantes sequiosos em afastar para longe de si quaisquer responsabilidades pelo que possa prejudicá-lo, tal como o vazamento de óleo no litoral do Nordeste.

Descartem-se, em benefício da compreensão, as especulações sobre o envolvimento de agentes e dinheiro de Venezuela e Cuba na origem dos protestos. Se houvesse tais indícios, o presidente Sebastian Piñera, empresário e político experiente, não teria pedido “perdão” aos chilenos nem revogado o aumento de 3% da tarifa do metrô de Santiago, que agiu como estopim da insatisfação (similar ao aumento de R$ 0,20, ou 10%, da passagem de ônibus em São Paulo em 2013).

Nem teria anunciado várias medidas sociais e prometido outras mais, depois de intensa repressão e a multidão continuar nas ruas, alheia, inclusive, ao toque de recolher no país.

Não é simples entender o que aconteceu, até porque pouco estudado pelos economistas e politicólogos de formação liberal e distante da rotina dos políticos. Estes governam, em regra, para seus eleitores organizados. Aqueles geralmente tratam a realidade das pessoas como abstração estatística e influenciam decisões com base numa suposta superioridade em relação à política.

É isso que faz água no mundo, como sequela de políticas econômicas insensíveis aos mais frágeis.

Sentimento de abandono

Curioso é que a agitação no Chile levou muitos no Brasil a negar a racionalidade dos protestos, sugerindo a necessidade de justificar a política econômica atual - semelhante, quanto à intenção, às reformas liberais de Pinochet, mantidas por todos os governos seguintes de centro-esquerda e de centro-direita, como a coalizão de Piñera.

Na verdade, há três níveis de discussão. O primeiro é que parte do povo chileno se julga largado pelos governantes. Aqui vem de longe o mesmo sentimento, razão de o eleitor ter respondido positivamente à reforma monetária de 1994 e votado duas vezes no PSDB.

Frustrado com o segundo mandato, deu chance ao PT, reelegeu-o mais três vezes e se omitiu no processo de impeachment, contrariado com as denúncias de corrupção nas gestões petistas e os sinais de reversão da distensão social logo após a reeleição de Dilma. E outra vez deu um cavalo de pau ao resolver experimentar Bolsonaro, uma espécie de anticandidato, que fez campanha desancando o meio de onde veio.

Classe média depauperada

A seu jeito, o eleitor há muito tempo diz o que anseia dos governos. Os surtos de raiva eclodem quando a indiferença se torna gritante. Em 2013, ouviram-se dois bordões. “Queremos hospitais padrão FIFA”, em referência ao desperdício com as arenas para a Copa. Outro: “Sem partido!”, gritado quando o PT tentou aderir.

O segundo nível de discussão remete à constatação de que as ondas de protestos (aqui em 2013; hoje no Chile, ontem no Equador; os coletes amarelos na França; no Líbano; Brexit; eleição de Trump) começam pela classe média depauperada pela crise de 2008. E se agravam pela insegurança frente às tendências culturais e tecnológicas – evolução muito mal compreendida em toda parte.

A perda de renda e o medo de que amanhã será pior, sensível entre os menos afortunados, são os itens que estão virando o mundo do avesso. Quem fala à alma, por exemplo, dos mais de 70% da população com renda de até cinco SM, mal atendidos pelos serviços públicos, cercados pelo crime? E olhe que no Chile o panorama social é bem menos grave.

Alertas chegaram ao FMI

É a maioria invisível, ignorada pelos grupos organizados, que elege presidente, governador, prefeito. Aqui, no Chile, nos EUA. Mas quase nunca é ouvida. Chama a atenção só na desgraça – o prédio sem alvará que desaba, as chacinas habituais, as balas perdidas. Se a esperança esvanece, qualquer coisa vira motivo para fúria sem aviso prévio.

É o que se assiste com frequência cada vez maior no mundo.

Prudência é a postura correta, como advertiu Mervyn King, ex-chefe do Banco da Inglaterra, numa concorrida palestra durante a assembleia anual do FMI em Washington. “Outra crise econômica e financeira será devastadora para a legitimidade do sistema de democracia de mercado”, disse ele.

Nos EUA, 181 chefes de grandes corporações, do JP Morgan à Amazon e GM, divulgaram documento em que renegam o conceito de que a missão principal das empresas é apenas gerar lucro aos acionistas.

Tais transformações põem em causa pilares da ortodoxia monetária e fiscal e, implícita às novas visões, a ideia de que tudo estará mais bem cuidado quanto mais tecnocráticas forem as decisões. Mais sábio dar ouvidos a quem importa e a seus sinais. Isso não é terrorismo.

Como prevenir as rupturas

O que fazer para não deixar ninguém para trás e se antecipar ao que o inglês Mervyn King definiu como “ondulações na superfície”, que os ventos da ruptura vêm fazendo ganhar força?

Em termos práticos, dar centralidade às pessoas na concepção da política econômica. E ver as reformas fiscais como necessárias para coibir iniquidades e desvios de função, não para minar o Estado, crucial para coordenar as ações.

Não se trata bem de austeridade levada ao extremo do austericídio, mas de cortar desperdícios, pôr a burocracia a serviço do país, dar força à livre iniciativa, à educação. Isso é liberalismo com pegada social, ou socialdemocracia, se quiserem.

Como disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, esta semana numa palestra: “Pessoas e meio ambiente são nossos grandes ativos”. É hora de valorizá-los.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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