Home > ANTONIO MACHADO > Cenários do BC contam que inflação e juros podem estar com os dias de recordes pertos do fim

ANTONIO MACHADO

25/02/2017 23:49 por Antonio Machado

Cenários do BC contam que inflação e juros podem estar com os dias de recordes pertos do fim

Temos que falar mais de juro, rever a indexação (vetando aumentos pelo índice passado), acabar com a farra dos altos salários no setor público. E as reformas não podem parar

Algo novo no ar 

Tratados como males econômicos típicos do Brasil, com os quais só nos resta conviver, o motivo da indexação, por exemplo, a inflação e os juros podem estar com os seus dias de recordes mundiais, um de resistência, outro de tamanho, próximos do fim. Depende de nós.

Tal como a Operação Lava Jato, que sem o apoio maciço da sociedade não estaria chegando ao terceiro ano com centenas de condenações em segunda instância de empresários, doleiros e políticos sem mandato, além de devassar a intimidade criminosa de governantes, burocratas e partidos, as duas grandes chagas da economia têm motivos técnicos na superfície e razões sórdidas em seu interior para refluírem.

Das causas técnicas tratam os economistas; das distorções cuidam a Polícia Federal, o Ministério Público e alguns poucos juízes, todos amparados mais na indignação popular que apenas na força da lei.

O dinheiro público, antes de atender razões sociais e um modelo de desenvolvimento assentado em investimentos meritórios, sempre foi canalizado, preferencialmente, para custeio da máquina burocrática e de partidos, além do enriquecimento privado - e não só de grupos econômicos e uma teia de corruptores, mas, sobretudo, funcionários da elite do Estado, entre os quais o Judiciário, e parlamentares.

É isso o que a Lava Jato vem expondo - as vísceras desse cancro.

Estanquem-se, ao menos parcialmente, os vazamentos da arrecadação tributária e os financiamentos gravosos de bancos e fundos estatais e se imunizarão as causas gerais das perversões da macroeconomia - a inflação (sempre um sintoma e não a doença) e os juros de exceção (consequência de o giro dos títulos de emissão do Tesouro Nacional, por sua vez devidos aos desperdícios e aos déficits orçamentários, sugar mais de 70% do caixa livre de bancos, empresas e famílias).

O ataque à inépcia e à folia com tais dinheiros leva o codinome de “responsabilidade fiscal”, o princípio de lei homônima de 2000, que se mostrou impotente, obrigando o atual governo a aprovar por dez anos, no mínimo, a inflação como teto constitucional à expansão das despesas da Lei Orçamentária Anual, além de encaminhar ao Congresso outra proposta visando endurecer as regras da previdência.

Aposta na normalidade

A inflação em queda ainda reflete a recessão e desemprego devidos ao caos criado para reeleger Dilma Rousseff, mas o desinchaço dos juros tem mais a ver com a expectativa de purificação da política e de maior competência e probidade na gestão do setor público.

Não fosse essa perspectiva de normalidade política e das finanças públicas, que na fotografia exibem a situação falimentar da União e dos entes regionais, e os cenários da inflação para este ano e os próximos vistos na consulta semanal do Banco Central (e divulgados no boletim Focus) não estariam mostrando um Brasil mais ajeitado.

Nele, a inflação para todos os anos até 2021, que é até onde vai a pesquisa, fica abaixo da meta anual de 4,5%. Este ano, entre março e agosto, ela ficaria menor que 4% em 12 meses. E o piso dos juros, vulgo Selic, definido pelo BC? Vem atrás, e há muito para cortar.

Muito juro para cortar

Na última quarta-feira, o BC baixou a Selic de 13% para 12,25% ao ano, o que, considerando a inflação implícita nos títulos públicos para os próximos 12 meses de 4,35%, ainda representa uma taxa real estupidamente elevada - 7,57%.

Com a economia em recessão, embora perdendo força, inflação cadente e desemprego de 12,6% da força de trabalho, o BC pode ampliar a distensão monetária, inclusive com ações que influenciem a ponta do crédito, hoje virtualmente parado.

Qualquer crescimento daqui para frente será decisivo, ao ajudar a recompor a arrecadação tributária federal e dos estados. É isso que indica a realidade dos números, mas não as projeções. Como observa o economista Fernando Montero, o mercado corrigiu as estimativas de inflação nos últimos oito meses em 1,63 ponto percentual mas baixou apenas em 0,25 ponto a taxa projetado nos oito meses seguintes.

“As expectativas estão mais reagindo que antecipando a melhora da inflação”, diz Montero. É sinal de receios não sanados pelo BC.

Diminutivos e licenciosos

Menos mal que o BC tenha acenado com um aumento do ritmo de corte da Selic na nota sobre o último Copom. Só que tem de fazer mais, já que há sinais de que o mercado começa a aceitar taxas abaixo do que o BC apontou para o fim do ano (9% a 9,5%). Há simulações pondo os juros de mercado em 8% antes da votação da reforma da previdência.

É onde a macroeconomia depende da sociedade, assim como a reforma monetária de 1994 só se enraizou ao ser adotada como valor nacional (afrontado no governo Dilma). A força da Lava Jato também vem daí.

Tem que se falar mais de juro, rever a indexação (vetando aumentos pelo índice passado, que dificultam, sem recessão, o ajuste fino da inflação), acabar com a farra dos altos salários no setor público.

E Temer com isso? Não precisa fazer mais, se mantiver as reformas e por no eixo os deputados diminutivos e os senadores licenciosos.

Ardis que não colam mais

Com os escândalos cotidianos da política provocando distrações, é difícil intuir as tendências em formação. Uma das mais fortes está na percepção de que a sociedade começa a sacar a falação em defesa do social como ardis de lobbies estatais para manter privilégios.

O empresariado mais bem preparado também já se desligou da pressão por subsídios, que subsiste em setores atrasados. Mas continua sem explicação o que leva economistas ditos progressistas a defender o laxismo fiscal, sem distinguir o gasto de baixo retorno social do gasto com investimento, que amplia o produto, cria emprego e pode tornar o país autônomo e competitivo. São keynesianistas de ouvido.

Mas há progressos, já que tais assuntos estavam interditados e nem se concebia discuti-los, quanto mais criticá-los. É outra evidência de que há algo novo no ar. As eleições em 2018 deverão surpreender.

'
Enviando