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ANTONIO MACHADO

28/01/2017 23:24 por Antonio Machado

Dos bichos que ilustram a iconografia das mazelas econômicas, até o leão da Receita anda quieto

Inflação anual deve vir abaixo de 4% até agosto, dando ao BC segurança para navalhar os juros e tirar de cena a figura do dragão cuspindo fogo que a simbolizava

As feras domadas 

Imprensado entre a esquerda desnorteada desde que entrou na canoa furada de Dilma Rousseff e a direita descontente apesar da desdita do PT, o governo de Michel Temer acumula acertos na economia sem conseguir convertê-los em satisfação nem superar a desconfiança e o mau humor, generalizados pela corrupção devassada pela Lava Jato.

Dos três grandes riscos a que estava exposta a economia, apenas a ordem fiscal continua com trajetória incerta, embora enquadrada em tese pelo teto de expansão do gasto público federal à inflação. Foi um avanço relevante sobre a anarquia fiscal dos desgovernos, apesar de obtido só depois de atendidas as pressões salariais da elite do funcionalismo enquanto o desemprego campeia em todo o país.

As outras ameaças que historicamente levavam o país à bancarrota e a se vexar junto aos credores internacionais, contudo, estão muito bem encaminhadas. Não há sinal de crise externa, aquela que matava entre as décadas de 1980 e 2000, e a inflação, que aleijava, tende a tirar de cena a figura do dragão cuspindo fogo que a simbolizava.

Dos bichos que ilustram a iconografia das mazelas econômicas, até o leão da Receita anda quieto. É como se o zoológico de agruras da economia perdesse o interesse para os escândalos da escatologia política e do patrimonialismo nacional, ambos potencializados por quem se dizia detentor de uma moral superior. Mas não há muito que comemorar, se tais resultados se devem, em boa parte, à recessão.

Desemprego, inadimplência, renda em queda, crédito caro e escasso foram os meios acionados já no início do quarto governo do PT para frear, primeiro, a emergência dos déficits das contas externas. De 4,2% do PIB em 2014, caiu para 1,2% em 2016. E com reservas de US$ 378 bilhões a fortaleza cambial está protegida.

O dado destoante era a inflação, levando até vetustos economistas ortodoxos a duvidar do efeito da recessão. A poucos ocorreu que a indexação segue firme, retardando a queda do nível dos preços mesmo com os juros reais no espaço. A desinflação custou (literalmente) a acontecer. A inflação caiu de 10,7% em 2015 para 6,29% em 2016, e, segundo o boletim semanal do Banco Central, tende a 4,7% este ano.

Mas antes IPCA e INPC vão vir, respectivamente, a 3,8% e 3,6% até agosto, diz o economista Fernando Montero, dando ao BC a segurança para cortar fundo a Selic. E por que não uma desindexação geral?

O pior está passando

A economia organizada, ainda que a duras penas (e onde ou quando houve reversão de tal grandeza sem recessão?) e dependente de um rol de reformas apenas encaminhadas, como a da previdência, da CLT e dos impostos, desenha cenários mais promissores para o país, com os frutos ansiados pela sociedade e a sua representação política.

Os sinais apontam para o abrandamento do ajuste recessivo, como os números da arrecadação tributária federal em dezembro antecipam. A retração real de 2,9% no ano foi o pior resultado desde 2000, mas a arrecadação de dezembro (1,2% inferior, tirando a inflação, à de um ano atrás) indicou diminuição do ritmo de queda.

Espera-se do Banco Central atenção a tais indicadores tanto quanto aos da inflação, de modo a calibrar e, sobretudo, antecipar o desbaste dos juros reais.

Problemas e solução

As decisões na economia não são balizadas apenas por senso técnico desprovido de alguma aposta ou ousadia, chamem como quiser. Estamos no limiar de uma transição para a volta do crescimento, que será ou lenta ou rápida, dependendo da confiança que o governo transmitir.

Como diz Montero, “temos dois problemas, demanda anêmica e juros astronômicos. Juntos, eles formam a solução”. A queda da inflação, que resulta dos dois eventos, abre o ciclo virtuoso. Para o cenário imediato, a redução do custo do dinheiro ajuda a sairmos do miserê. E se o crédito seguir entupido, diz, que se corte mais os juros.

Já para o cenário de médio prazo o caminho é o das reformas. E não só das sempre faladas, como da previdência e do sistema tributário.

É tempo de mover as travas fiscais e regulatórias do financiamento de longo prazo com fontes voluntárias para ocupar o espaço que foi do BNDES no apoio à indústria e à infraestrutura - e continua sendo da CEF na construção civil e do Banco do Brasil no crédito rural.

Fórmula do progresso

Tal roteiro para a saída do buraco em que o governo passado enfiou o país parece claro à equipe de Michel Temer. Mas falta assumir sem receio a diretriz do que vai impulsionar o desenvolvimento daqui em diante: o nível de formação de capital, vulgo taxa de investimento.

É o nível de investimento que consolidou o crescimento sustentado nos EUA, na Europa, no Japão e, sobretudo, na China, com tudo mais, como o badalado conceito da produtividade, em papeis coadjuvantes. Ao ignorar tais exemplos, os formuladores ditos desenvolvimentistas se deixaram iludir pelo consumo à moda de Keynes, desprezaram Adam Smith e Marx, e fracassaram. O progresso reúne mercado e indução.

O ano da arrancada?

A dois anos das eleições gerais, o tempo é curto a Michel Temer, e é a economia que pode esfriar o caldeirão da política. Não só a paz social está em questão. A saúde das instituições também está sob o escrutínio da sociedade. Os governantes vão estar pressionados todo o tempo e há pouco para fazer à luz da ruína das contas nacionais.

Em relação ao PIB, a taxa de investimentos em 12 meses recuou em quatro anos de 21,8% para meros 15,6%, e a poupança nacional bruta ruiu de 18,6% para 13,9%. É o que explica a urgência das reformas visando amainar o ritmo fiscal. As críticas a elas têm substância rala, pois expressam mais o temor da burocracia em perder poder que uma visão alternativa e progressista à volta do desenvolvimento.

O governo deve ter coragem para afrontar os lobbies nutridos pelo Tesouro, além de cobrar criatividade de quem o cerca. Foi assim que corrigiu a distorção do crédito rotativo, e com a ajuda da própria banca. Se multiplicar tais eventos, 2017 será o ano da arrancada.

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