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ANTONIO MACHADO

14/05/2016 23:56 por Antonio Machado

Não há opção ao governo Temer. Ou é bem-sucedido ou a casa cai se não se mostrar competente

É grande a responsabilidade do ministro Henrique Meirelles, que, enfim, tem a chance de mostrar o motivo de Lula ter insistido tanto para que Dilma o fizesse czar da economia

Apoio condicionado

Agora é com Michel Temer. E até 31 de dezembro de 2018, se superar o pé atrás da sociedade em relação a um governo do PMDB, se passar pelo filtro da Operação Lava Jato e se o Senado converter em perda de mandato a licença da presidente Dilma Rousseff por até 180 dias.

A decisão deve ser abreviada, dependendo do sucesso da largada do governo interino do vice-presidente reeleito em 2014. Quanto ao PT e Dilma, só voltarão se houver um desastre político ou financeiro.

O PT e seus grupos de pressão estressaram a retórica do golpe, mas não conseguiram agitar o povo, apesar da performance da militância nas ruas. A presidente afastada também denigriu a imagem do país, ao denunciar o suposto golpe à imprensa internacional. Foi risível. Para posar de vítima em Nova York, por exemplo, transferiu, na boa, o governo ao homem que acusa de chefiar a conspiração. Burlesco...

Dilma é página virada mais pela desenfreada corrupção nos governos petistas, como vem revelando a Lava Jato, e pelo estrago das contas públicas. A causa factual do processo de impeachment, baseado na contabilidade criativa (vulgo pedaladas) e em gastos sem anuência prévia do Congresso, é o menor de seus problemas. Eles tendem a se cruzar, de algum modo, aos de Lula, já indiciado na Lava Jato.

Mas os infortúnios petistas não correspondem à possível ventura de Temer, presidente licenciado do PMDB - o maior partido da coalizão fornida desde 2003 à custa do que levou ao mensalão (que culminou com a condenação no STF da então cúpula do PT) e ao petrolão, cuja apuração continua e promete mais escândalos e surpresas adiante.

Esse é um risco para Temer. Alguns ministros recém-nomeados e ele próprio aparecem nas delações. Mas é também um trunfo nas relações com os partidos de sua base parlamentar. São os mesmos que apoiaram Lula e Dilma, tipo PR, PP e PSD. Devido à criminalização do que os piedosos denominam de “governabilidade da presidência de coalizão”, aprovaram o fim das doações de empresas para campanhas eleitorais - e a municipal está logo ai, com o caixa dos partidos na lona.

A engenharia política do novo governo tratou tais constrangimentos com pragmatismo. É isso que precisa ser compreendido, ao se avaliar a viabilidade das reformas (que só serão eficazes se tiverem gosto de fel) e a trajetória política e econômica daqui para frente.

Minueto com os partidos

Sem o dinheiro alegre dos empreiteiros e com o Ministério Público, Polícia Federal, o juiz Sérgio Moro bufando no cangote, não é Temer que cedeu aos partidos, como criticam os tais cientistas políticos e parte da imprensa. Os partidos é que caíram na real.

A peça de convencimento foi o anúncio de um ministério enxuto, que não surgiu de improviso, pois fundamentado na governança em grandes democracias. Identificaram-se, por exemplo, sete ministérios afins em todas (tipo Finanças, Defesa e Saúde). A média é de 15 pastas.

O novo governo enxugou para 23 os 39 ministérios de Lula e que só no fim de 2015 foram reduzidos a 32. Temer fechou o desenho depois de rodopiar um minueto com os partidos. Ministério obeso como o de Dilma indignou a sociedade, levando a tigrada a recolher as garras.

O resultado: um ministério meio enxuto, meio parlamentarista, tido como condição necessária para aprovar as duras medidas fiscais.

Antídotos ao populismo

Nunca se terá a exata compreensão da gestão Temer sem considerar a maestria dos peemedebistas nas relações políticas, o pé fraco do PT e de Lula. Ele achava ter tudo resolvido dando alpiste aos partidos ditos “aliados” para não partilhar as decisões nem a paternidade de prendas eleitorais, como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida.

 Com Lava Jato na cola, Tesouro quebrado, economia em recessão e os eleitores desconfiados, o laxismo fiscal e monetário virou cicuta a presidente com viés populista. A recessão se aprofundará adiando-se o ajuste da previdência, a revisão de programas sociais (que é mais quanto ao número de beneficiários que dos valores transferidos) e coisas assim. Será pior procrastinar tais reformas.

É o que fez o pessoal mais cabeça do PT sentir certo alívio com a saída de Dilma.

Hora e vez de Meirelles

Não quer dizer que a sociedade será mais condescendente com Temer. O apelo da mudança é hoje seu único ativo, mas logo terá de mostrar a que veio. Sua base aliada quer sinais do fim da recessão para as eleições municipais. O prazo é curto.

Amigo de Temer, o consultor Gaudêncio Torquato fala em 30 dias. Não se cogita a volta de Dilma, mas se teme a ação no TSE que pede a cassação da chapa Dilma-Temer.

Não há opção ao governo do PMDB. Ou é bem-sucedido ou a casa vai cair. É grande a responsabilidade do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que, enfim, tem a chance de mostrar o motivo de Lula ter insistido tanto para que Dilma o fizesse czar da economia.

Psiu! CPMF é uma fria...

A excepcionalidade do governo Temer, fruto do infortúnio de Dilma e dependente de reformas duríssimas para ter algum sucesso, lhe cobra apoio do Congresso e compreensão da sociedade. Tais metas demandam que ele determine transparência total à grave situação do Tesouro.

Em sua primeira entrevista, o ministro Meirelles falou de reforma da previdência, pontuando o aumento da idade mínima para aposentar, e manteve o suspense sobre a recriação da CPMF. Serviu a sobremesa, um item supérfluo, antes do prato principal. Aumento de impostos em meio à recessão é purgante para a dieta do crescimento econômico.

E feito para equilibrar as contas do governo, em que o desperdício é regra e o emprego estável conspira contra a eficiência, soa muito mal. Será difícil acertar o descompasso fiscal, mas se fosse fácil Dilma teria feito.

Enfim, é preciso atentar que vai longe o tempo dos planos fechados sem discussão aberta com o empresariado de cujo capital e disposição de bancar risco a economia carece para retomar as concessões, os investimentos, e devolver a paz social.

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