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ANTONIO MACHADO

01/05/2016 00:03 por Antonio Machado

Não se admite, mas o PT já largou o osso, ao senti-lo indigesto, e o PMDB saliva com a sua chance

Temer deve expor a sinistra situação fiscal sem medo de contrariar aliados. É no fracasso de um ajuste que já tarda, cuja falta afundou a gestão Dilma, que Lula & Cia. apostam

Intenções reais

Até aqui, véspera da licença compulsória votada pelo Senado antes da decisão final em até 180 dias sobre o impeachment da presidente, está tudo bem para as partes. Muito mal está para a sociedade, com a recessão arruinando negócios e destruindo vidas com o desemprego.

Ajuda à compreensão imaginar que assistimos a um jogo de sombras, em que os vultos não correspondem ao que aparentam suas projeções e que eles farão de tudo para dissimular as verdadeiras intenções.

Dilma Rousseff, por exemplo, deve ficar sem o governo, mas Lula, o PT e mesmo ela, graças à narrativa do “golpe”, e com a boa vontade da imprensa, buscam embaralhar a percepção da sociedade sobre suas responsabilidades na corrupção revelada pela Lava Jato. Mas também nas pedaladas (ou maquilagem) das contas públicas - base do suposto crime de responsabilidade que lastreia o processo de impeachment.

Até se apresentam como vítimas de corruptos do Congresso (segundo Lula), da traição do PMDB do vice-presidente Michel Temer (segundo Dilma) e da mesma imprensa que lhes dá todo espaço (segundo ambos).

E assim evolui o enredo: da negativa das pedaladas à sua admissão, com a desculpa de que teria sido para pagar coisas meritórias como o Bolsa Família (sofisma, já que o Tesouro opera com caixa único). O passo seguinte não colou: caracterizar o impeachment como golpe.

Passou-se, então, a alegar que golpe é o impeachment sem crime de responsabilidade. E o lance da vez: eleições antecipadas, se Dilma cair e Temer subir, algo não previsto na Constituição. E quem liga?

A ideia é criar fumaça e ofuscar as denúncias contra Lula, o PT e Dilma, até pelo fracasso das intrigas para desacreditar a Lava Jato - do juiz Sérgio Moro aos procuradores e delegados federais.

É o que faz os bandidos serem os outros – o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em especial, apesar de só virar vilão ao desconfiar do assédio de Lula e Dilma. Prometiam-lhe proteção, se engavetasse os pedidos de impeachment. Não fosse tal flerte, vetado pelo PT, os aliados de Cunha o teriam levado a renunciar, ainda em 2015, para que um deputado menos enrolado tocasse o processo de impeachment.

Os enigmas da Lava Jato

A contraprova desse roteiro se viu pelo desempenho de deputados de vários partidos, com o PSDB de coadjuvante, na retaguarda do embate parlamentar, agregando apoios nas legendas da base governista, tipo PP, PSD e PR, enquanto Cunha distraía o PT e o governo com manobras na comissão da Câmara que discute a sua cassação por ter negado, na CPI da Petrobras, possuir contas bancárias no exterior.

Tudo pesado, o impeachment avançou pela habilidade parlamentar de Cunha, sem que ele tenha sido o ator principal, como diz Dilma, ao atribuir seu infortúnio a uma vingança do presidente da Câmara. As histórias soam verossímeis quanto mais simples elas sejam.

A ficção do mal contra o bem só não vale para o presidente do Senado, Renan Calheiros, do PMDB como Cunha. Há nove inquéritos no STF contra ele (Cunha tem cinco e está denunciado). São os enigmas da Lava Jato.

Conveniências petistas

Nem um pouco enigmática é a situação sinistra das contas fiscais – realidade cuja solução exige medidas mais inovadoras que amargas, mas muito difíceis para o PT defendê-las junto ao seu núcleo duro, hoje, restrito aos movimentos de sem terra, sem teto e a setores do sindicalismo, sobretudo das corporações de funcionários públicos.

De algum modo, atende melhor às contradições do PT ceder a outros a reconstrução do que foi arruinado com programas distributivistas mal administrados, além de subsídios a grupos econômicos mais para compensar a retração da taxa de lucro que para alçar o investimento produtivo. E libera o petismo a fazer o que faz com gosto: oposição aguerrida, visando recompor os cacos da esquerda já para 2018.

A vitimização do fracasso de Dilma é uma das peças dessa estratégia.

Defesa e ataque de Temer

Temer é para o PT o que Lula foi para o PSDB depois do mensalão. O tucanato apostou que ele estivesse na lona. Lula & Cia. não dão um centavo para Temer. A se confirmarem os nomes dos titulares de seu provável governo e, sobretudo, a vontade de edificar a ponte para o futuro, não por acaso o título do plano de intenções do PMDB, o PT, tal como o PSDB na eleição de 2006, tende a ficar chupando o dedo.

Com o senador Romero Jucá no Planejamento revigorado com o BNDES e Henrique Meirelles na Fazenda tocando de ouvido com o Banco Central do qual foi o dirigente mais longevo, a economia unirá a coerência fiscal e monetária com trânsito político, maior habilidade de Jucá.

Esse meio de campo da economia deverá proteger a retaguarda (juro, inflação, câmbio etc.), enquanto arma as jogadas para os atacantes: Moreira Franco articulando concessões, a única área capaz de atrair capital grosso em prazo curto, e José Serra no Itamaraty reforçado com a gestão do comércio exterior.

É tudo ainda muito efêmero, mas, se o Congresso deixar, pode funcionar.

Riscos à ordem econômica

O maior atentado às contas públicas (que continuam a acentuar seu déficit primário - R$ 136 bilhões em 12 meses até março, inéditos 2,28% do PIB) e à reversão da recessão (o PIB pode recuar 4% este ano, gerando desemprego recorde, já de 10,9% da força de trabalho) está no Congresso e no STF.

Projetos como o aumento do pessoal do Judiciário - uma das categorias mais bem remuneradas - e a mudança para juros simples do saldo da dívida dos estados atentam contra o Tesouro Nacional e a segurança econômica e social do país.

Se chegar à Presidência, Temer terá de expor a situação sem medo e contrariar aliados. O funcionalismo se faz representar em todos os partidos, mas é o custeio da área pública a primeira linha de corte do ajuste que já tarda, cuja falta ajudou a afundar a gestão atual. Com criatividade, resolve-se a dívida dos estados. Com tecnologia e gestão, o custo do governo. E já se prevê o fim da dureza cíclica.

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