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17/04/2019 15:34 por Redação

O crescimento do crédito à pessoa física em diferentes cenários de PIB

Ariana Zerbinatti*

O mercado de crédito tem mostrado recuperação relevante desde o ano passado, com destaque para a carteira de pessoa física (PF). De fato, em termos reais e dessazonalizados, o nível de estoque de crédito PF já superou o pico pré-crise, em 2014. O crescimento da carteira total só não tem se sido mais intenso por conta da moderação do crédito destinado à pessoa jurídica (PJ), refletindo, em grande medida, a continuidade de queda do crédito direcionado. Merecem destaque a alteração de orientação dos bancos públicos (principalmente BNDES), com redução dos desembolsos, e a expansão do mercado de capitais, que tem sido fonte importante de financiamento das empresas nesse contexto.

Sabe-se que o crédito tem papel fundamental no desempenho da atividade econômica, ao permitir antecipação intertemporal do consumo e investimento, levando a uma alocação mais eficiente de recursos. Ao mesmo tempo, também é diretamente influenciado pelo desempenho da atividade. Por exemplo, se o PIB cresce, há mais emprego e renda, que impulsionam o crédito à pessoa física, o que por sua vez contribui para a expansão do consumo, levando a uma alta do PIB. O mesmo é válido para os investimentos e o crédito à pessoa jurídica. Entretanto, os indicadores recentes de atividade apontam para uma retomada da economia mais gradual do que o esperado anteriormente. Até mesmo o mercado de trabalho, que havia mostrado sinais de melhora, tem perdido tração nos últimos meses. A taxa de desemprego tem subido em termos dessazonalizados, e o ritmo de criação de vagas formais tem desacelerado.

Assim, o desempenho recente do mercado de trabalho e a moderação da atividade podem gerar questionamentos acerca da sustentabilidade da forte elevação do crédito PF ao longo deste ano. Diante disso, realizamos simulações de trajetórias do estoque de crédito PF com recursos livres, considerando três cenários distintos de crescimento do PIB. O primeiro deles consiste no nosso cenário base, com alta de 1,9% neste ano. No segundo, supõe-se que o crescimento seja igual ao do ano passado (1,1%), enquanto que, no terceiro, assume-se um ritmo ainda mais lento de retomada, com alta de apenas 0,5%. Além do PIB, foram consideradas as taxas de desemprego compatíveis com cada cenário, juntamente com o nível de comprometimento de renda e a diferença entre a taxa de juros real e a taxa neutra, como proxy para mensurar o quanto a política monetária está expansionista. Foram considerados os mesmos níveis de comprometimento de renda e de taxa Selic em todos os cenários.

Os resultados sugerem uma desaceleração do crescimento da carteira no cenário de expansão do PIB em 0,5%, ao passo que, para uma elevação de 1,9%, a expansão do crédito seguiria robusta. De fato, o modelo aponta para uma expansão nominal de 9,0% do crédito PF livres caso a recuperação da atividade seja ainda mais gradual do que a observada em 2018. Se o PIB crescer à mesma velocidade registrada no ano passado, a elevação da carteira seria de 11,5%, bastante próxima à alta verificada no período. Por outro lado, considerando o nosso cenário base, o exercício indica uma ampliação de cerca de 13,0% dessa modalidade, o que significaria continuidade de aceleração do crédito PF livres.

Continuamos avaliando que o crédito seguirá como um dos principais motores do crescimento do PIB em 2019. Esperamos que, apesar da recuperação bastante gradual da atividade, o crescimento do crédito à pessoa física com recursos livres continuará na casa dos dois dígitos, como sugerido pelas simulações descritas. Para a pessoa jurídica, acreditamos em aceleração do crescimento da carteira com recursos livres, embora reconheçamos que o mercado de capitais seguirá como origem importante de recursos para as empresas. Projetamos altas de 8,6% da carteira total neste ano e de 12,0% dos recursos livres, sendo 12,5% e 11,5% as elevações de PF e PJ, respectivamente. Por fim, o crédito direcionado deverá seguir moderado ao longo do ano, ainda que deva apresentar alguma melhora ante 2018.

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* Ariana Zerbinatti é economista do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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