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ANTONIO MACHADO

07/04/2019 13:21 por Antonio Machado

Ou Bolsonaro joga conforme as regras ou continua tuitando para “causar” e a vida ficará mais difícil

Sem o voto dos partidos do centro, o governo é um conjunto vazio de propostas. Não há nem “nova” nem “velha” política, mas apenas a política comme il faut

Funk sem milongas 

Tem algo bastante errado. As discussões estão acirradas na imprensa e nas redes sociais, mas há muito mais espuma que substância.

Nos salões do poder, falam de reforma da previdência e de medidas para elevar a produtividade da economia, e também se discute se em 1964 houve golpe, se o nazismo é de esquerda ou de direita.

Já nas ruas da economia estagnada, com desemprego em massa, jovens sem expectativas, educação que deseduca e saúde enferma, burocracia voltada ao próprio interesse pecuniário sob o disfarce de políticas sociais e do combate à corrupção, vê-se um país em decadência.

A diáspora de brasileiros que migram em busca de oportunidades de prosperar no exterior é a prova cabal de um país de joelhos. O fluxo é crescente, conforme dados do formulário de declaração definitiva de saída, uma exigência da Receita Federal para quem vai morar fora.

Foram 100 mil em quatro anos até 2018, segundo o portal G1, mais que o dobro da média nos quatro anos anteriores. Em 2018, 22,4 mil pessoas fizeram tal declaração. Elas formam a emigração legal. Muitos outros partem só com o visto de estudante ou de turista.

Fogem de cenas como as flagradas por celulares na quarta-feira à luz do dia, em Copacabana, no Rio - o linchamento de um homem em meio a uma briga de torcedores, sob a vista de um PM apalermado, com arma na mão. Chegou outro PM empunhando um revólver e os rufiões nem ligaram.

Nada é normal: linchamento, policial com arma na mão à toa (comum também em São Paulo em comandos rotineiros de bafômetro), indicando o despreparo e a tensão latente da força pública.

Ninguém respeita ninguém, como se viu com a provocação do deputado Zeca Dirceu, do PT, durante sabatina do ministro Paulo Guedes na Câmara, ao acusá-lo de “tigrão” com os idosos e “tchutchuca” com os privilegiados. Mostrou-se grosseiro, além de expor a ausência de compromisso com a sociedade de parte da oposição. E não só ela.

Guedes foi à Câmara para falar de previdência. Entre os primeiros a sabatiná-lo estavam 17 deputados da oposição. Os “governistas” não deram as caras. Guedes caiu numa arapuca, ao se apresentar sem a “escolta” de uma tropa de choque de parlamentares que nunca faltou a governo algum. Nem a Collor em sua queda. E o país vai afundando...

Guedes foi boi de piranha

Ainda se avalia que a maioria dos 513 deputados está mais propensa a aprovar novas regras para a previdência, exceto uns poucos itens, que a rebarbá-la, como fez em 2017 com a reforma de Michel Temer depois do escândalo da gravação por Joesley Batista, da JBS.

O problema no Congresso é mais com o presidente Jair Bolsonaro e as “caneladas”, conforme ele mesmo disse, nos deputados. Não há dúvida entre os líderes de partidos e do STF de que, sem um tranco na origem, Bolsonaro e seus radicais de internet vão tentar impor uma agenda autoritária à custa da desmoralização das instituições.

Neste contexto, Guedes também serviu de boi de piranha. Sua solidão na Câmara realçou a importância dos partidos do antigo centrão para a estabilidade do governo. A oposição, com uns 140 deputados, podendo chegar a 170 na votação de certos temas, dominou a sabatina como coadjuvante desta grande articulação – encenação, pode-se dizer.

A política comme il faut

A somatória destes eventos leva à conclusão de que, sem os 270 votos dos partidos do centro político, o governo Bolsonaro é um conjunto vazio de propostas. Não à toa, ele chegou da viagem a Israel e, sem demora, começou a receber, todo amistoso, os líderes de partidos.

Foi dado o recado de que não há nem “nova” nem “velha” política, mas apenas a política comme il faut. Se Bolsonaro não resistir, a reforma da previdência seguirá seu calendário, com os desfalques já previstos - sem mudanças no BPC e na aposentadoria rural.

Não é nada com que se preocupar. E o novo regime de capitalização? Guedes terá de ser mais convincente, o que ainda não conseguiu.

Mito da fada da confiança

Ficou assim: ou Bolsonaro joga conforme as regras, recebendo apoio político e do STF para aprovar as reformas, ou terá vida difícil, se se apegar aos filhos e continuar tuitando para “causar”.

Aí, seu risco, e nosso, é que presida uma República de funkeiros tchutchucas.

E se descarte também o quanto antes a ideia de que, uma vez votada a reforma da previdência, é só correr para o abraço. Crescimento a gosto, investimento graúdo e emprego a rodo viriam em seguida.

Celebrada em textos do pessoal do tal mercado, a “fada da confiança” é tinhosa. Todos os índices de confiança tiveram altas fortes depois do impeachment e nem assim a economia recuperou as perdas acumuladas, segundo pesquisa do professor Ricardo Barboza, da Coppead.

As reformas são essenciais, mas o crescimento econômico da ordem de 2,5% ao ano no curto prazo se faz indispensável. A perda do PIB potencial nos últimos quatro anos equivale ao que o governo espera economizar com a nova previdência em uma década. E quanto mais passa o tempo mais sofrido será o cenário, e difícil recuperar o atraso.

A ideologia da ignorância

Por onde começar? De início, pelo abandono da ideia de que não há chance de o país ter algum protagonismo tecnológico, sobretudo em setores movidos por inteligência artificial e indústria 4.0. Não é o que se vê na África, onde em países como Quênia, Tanzânia e Gana os meios de pagamentos e o crédito são mais avançados que nos EUA.

Quando o atraso é gritante, não se recomeça por onde o país parou, mas pelo que há de mais avançado nas finanças, na educação, na gestão pública e das empresas, na saúde.

O governo tem em suas camadas mais técnicas pessoal apto a liderar tal processo. E no setor privado há muito mais, sobretudo se houver incentivos para repatriar os bilhões de dólares de talentos que foram tentar a sorte no exterior.

Quem diz que isso é impossível revela atraso intelectual ou temor do que desconhece, como sugerem os economistas que tratam com desdém a discussão sobre a nova macroeconomia proposta por André Lara Resende.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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