Home > ANTONIO MACHADO > Temer cria as condições para sustar a recessão, recuperar o emprego e não ser refém da Lava Jato

ANTONIO MACHADO

04/02/2017 23:52 por Antonio Machado

Temer cria as condições para sustar a recessão, recuperar o emprego e não ser refém da Lava Jato

É a retração dos juros, refletindo o viés cadente da inflação, que vai induzir no curto prazo o ritmo da volta do crescimento. Já o longo prazo depende de reformas e do ajuste fiscal

Saindo da apatia

Com a pauta da Operação Lava Jato na cabeça e ainda atônita quanto a dar um voto de confiança ao governo, passou desapercebido a muita gente o rodopio de Michel Temer durante o recesso parlamentar para criar as condições de rematar até o fim de 2018 com chave de ouro o mandato que lhe caiu no colo. Tanto para ele como para a vasta base de partidos que o apoia o desafio consiste na retomada do emprego e da percepção de melhoria da renda e do bem-estar social.

É este contexto que levou Temer e seus lugares-tenentes a buscar a reeleição de Rodrigo Maia na Câmara, que rapidamente ocupou o campo até então dirigido com mão de ferro pelo deputado Eduardo Cunha, e a eleição de Eunício de Oliveira para substituir Renan Calheiros no Senado, ambos do PMDB, mas com diferenças. Eunício, do Ceará, é bem mais alinhado a Temer que Renan, de Alagoas, desafeto nas querelas no PMDB e na antiga disputa por espaços nos governos Lula e Dilma.

Tal realinhamento de forças no interior de sua base de apoio levou Temer a aumentar a projeção do PSDB no ministério, instalando-o no coração do governo com a nomeação do deputado Antonio Imbassahy, da Bahia, para a pasta que interage com os partidos. E a representação dos partidos do Centrão, que se move pelo “é dando que se recebe”, também foi contemplada com a ascensão de líderes mais influentes.

Mais sutil foi a promoção do secretário do programa de concessões e parcerias de investimentos, Wellington Moreira Franco, veterano quadro do PMDB afinadíssimo com Temer, à recriada Secretaria-Geral de Governo, com status ministerial, reunindo áreas de comunicação, cerimonial e planejamento estratégico do gabinete presidencial.

À imprensa e a setores do PT e da base aliada com planos de surfar a onda antipolítica presente em todo o mundo, Moreira, citado por delatores da Lava Jato, foi promovido a ministro para ter o tal do foro privilegiado, que submete os indiciados à jurisdição do STF e não aos juízes de primeira instância (leia-se: Sérgio Moro).

O foro especial por prerrogativa de função é inerente a ministros, mas Temer considerou seus próprios interesses. Primeiro, disse a um interlocutor, está acertado que ministro que virar réu tem de sair. O sentido da mudança está no que Moreira mostrou capaz de trazer ao governo: inteligência e visão de longo prazo, sobretudo à economia.

Peça-chave na formulação

Embora tratado como tal, Moreira não era ministro por ter sido no início do governo autor do plano de enxugar o número de ministérios a 20, que chegou a 39 com Dilma, depois reduzido a 32. Temer fechou o organograma do governo com 26 pastas, deixando Moreira de fora, embora ninguém, além de Eliseu Padilha, ministro da Casa Civil, lhe fosse tão próximo. Agora, será também sua peça-chave na formulação.

Muito próximo às iniciativas do empresariado que ainda acredita no país e capaz de decifrar o que importa no debate com a burocracia sobre os rumos da economia, ele deu a Temer as bases para liderar a agenda de reformas, sobretudo da microeconomia (em geral desprezada pelos economistas), como a correção do crédito rotativo do cartão.

Mais recentemente, Temer soube trabalhar com a Fazenda o senso de que a recessão foi severa demais para que se desperdice um de seus efeitos: a queda da inflação e dos juros. Temer quer perenizar tal resultado, função de meta de inflação menor e de desindexação.

Os caminhos da autonomia

É a retração dos juros, refletindo o viés cadente da inflação (que será bem-sucedido quanto maior a disciplina fiscal), que porá fim à recessão no curto prazo, além de induzir o ritmo do crescimento.

Já a tendência de redução do déficit público, levando o governo a deixar de pressionar a economia com mais impostos e o endividamento do Tesouro (causa dos juros recordes no mundo), cria outra condição essencial ao crescimento no longo prazo: a formação de poupança.

Abre-se espaço ao crédito de longo prazo com fontes voluntárias e ao mercado de capitais, além de diminuir a dependência do dinheiro volátil de fora. Trata-se de dar ao Estado brasileiro capacidade de se autofinanciar sem recorrer a dívidas onerosas - e libera funding a custo decente a empresas e famílias. Enfim, falamos de autonomia.

Roteiro de linhas tortas

Por linhas tortas, talvez, é esse o roteiro vislumbrado por Temer. Daí o esforço para cercear a oposição e se fortalecer no Congresso, visando aprovar as reformas já em curso (previdência, tributária, CLT), e outras que virão. Os riscos da Lava Jato neste modelo serão arcados por pessoas, não pelos partidos, se vingar a expectativa de que a recuperação da economia, puxando o emprego e a renda, chegue logo e minimize as chances de candidaturas salvacionistas.

Está tudo armado para que funcione, se o BC tiver convicção de que a desinflação e a disciplina fiscal são tendências confiáveis para relaxar o rigor monetário. O comportamento do Congresso será vital neste processo essencialmente de recuperação da confiança.

'
Enviando