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ANTONIO MACHADO

21/05/2016 23:58 por Antonio Machado

Temer traz gente tarimbada para a economia. Teste de fogo será o Congresso aprovar as reformas

Revisão da meta fiscal do ano para um déficit de incríveis R$ 170,5 bilhões atesta a ruína de um governo que se diz vítima de golpe. E a ignorância ou má fé dos que o defendem

Obra em construção

Apesar da torcida negativa do PT, da desconfiança das corporações do funcionalismo federal e da má vontade de parte da imprensa, os primeiros dez dias do governo do presidente interino Michel Temer não decepcionaram. E olhe que não faltam cascas de bananas jogadas a seus pés, a maioria por ele próprio, seus ministros e aliados.

A volta ao Palácio do Planalto que não ocupava desde o governo de José Sarney, 26 anos atrás, deslumbrou o time peemedebista, e ainda mais os partidos adesistas que compuseram todas as maiorias nestes últimos anos, mas nunca com a perspectiva real de poder como muitos se veem na administração do PMDB de Temer. Tudo isso tem seu preço.

Ao ex-presidente Lula custou a prisão da cúpula do PT, quase o seu próprio mandato no escândalo do mensalão e o começo de um rumo mais populista que social e desenvolvimentista. Dilma teve menos sorte.

Faltou-lhe competência para refinar o passivo lulista, sobretudo as contas públicas, que já vinham em descompasso, e o delicado elo com sua maciça coalizão parlamentar, implodida pela Operação Lava Jato. Ela desvendou o mensalão 2.0, com o foco agora na Petrobras, bancando a fidelidade de partidos e a ambição de seus patronos.

A presidente foi afastada e tende a ser cassada devido aos truques a fim de ocultar o estrago fiscal já em 2014 para seguir gastando e não ameaçar sua reeleição. Esse acabou sendo o jeito de lhe imputar o crime de responsabilidade sem apensar ao processo a corrupção que se deu sob seu nariz envolvendo também os partidos da base de apoio parlamentar – em regra, os mesmos que vão governar com Temer.

O que está em curso é a mesma arte da dissimulação que há décadas se apresenta em Brasília, mas com uma novidade crucial: a situação de terra arrasada das contas federais, refletidas na maior recessão da história do país e com risco de embicar numa depressão social.

Do PT de Dilma não vieram as soluções, e tempo teve para evitar o pior. Coube a Temer o desafio, depois de se mostrar capaz aos donos do Congresso e ao empresariado para fazer o que for preciso.

Parte já fez, ao recrutar nomes testados em tempos de crise para reformar a economia. O teste de fogo virá de sua sapeca maioria parlamentar, formada em tese sem o apelo a práticas espúrias tipo petrolão. Isso se verá. E é determinante para a saída da crise.

Talento e habilidade  

Quadros talentosos na área econômica, escassos no governo Dilma, excedem na gestão interina de Temer, com destaque ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e aos presidentes do Banco Central, Ilan Goldfajn, e da Petrobras, Pedro Parente, um trio de primeira.

O senador licenciado Romero Jucá e atual ministro do Planejamento, hábil articulador no Senado, será o pivô para obter os dois terços de votos necessários para aprovar as emendas constitucionais das reformas fiscais, em especial da Previdência, no Congresso.

O PT e sua claque de ativistas já começam a tentar desgastar esses nomes, indiferentes aos fatos. Lula quis fazer de Meirelles em 2009 o candidato a vice na chapa de Dilma. Ele não quis, ela também não, e voltou a recusá-lo em 2010, já eleita, e em 2014, reeleita, para ser seu ministro da Fazenda. Parente, por sua vez, foi cogitado no fim de 2014 para dirigir a Petrobras antes de Aldemir Bendine. Mas coerência é algo que há muito não se espera dos petistas.

Burocracia é o entrave

A coincidência dos mesmos nomes circularem entre os governos Lula, Dilma e Temer explica muito da barafunda em que nos enfiaram. Salta à vista a dificuldade em recrutar pessoal qualificado, à exceção de quem passou por Brasília, como Meirelles e Goldfajn, ou começou sua carreira pelo setor público, a situação de Parente.

Isso talvez decorra da baixa expectativa sobre os resultados de um estágio no governo por parte de quem tem a contribuir para melhorar a qualidade da administração pública e a formulação de políticas.

O “espírito público”, entre aspas por já não ter a força simbólica do passado, virou raro num ambiente em que a burocracia se infiltrou nos partidos e camufla seu caráter classista e elitista (não à toa a maior renda per capita média no país está em Brasília), servindo-se de uma retórica supostamente social e progressista.

Quem tentou o ajuste fiscal sofreu, e se frustrou, frente a tais interesses.

Elixir de reputações

A diferença sutil entre PT e PMDB, maior partido dentro do bloco majoritário do Congresso, o tal “centrão” pilotado pelo presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, é que o segundo não reivindica a superioridade moral e ética pretendida pelo PT (e também o PSDB).

Outro diferencial é que tais partidos estão tão sujos quanto o PT na trama armada com grupos econômicos para chuchar o caixa público, embora como coadjuvantes do poder centrado na Presidência. Não deve colar para o pessoal acusado pela Lava Jato, mas dá o discurso para Temer pedir apoio do Congresso ao ajuste fiscal, vendendo-o como um elixir de reputações.

E funciona? Talvez, se a Lava Jato acelerar, Cunha colaborar, Renan não embaçar. Nessa sequência.

Nocaute do saldo fiscal

A revisão do resultado fiscal, de superávit de R$ 24 bilhões antes da mordida dos juros na lei orçamentária de 2016 para um déficit de incríveis (e ainda estimados) R$ 170,5 bilhões (ou de +0,38% do PIB para -2,67%), atesta o colapso do governo de uma presidente que diz ser vítima de golpe. E a ignorância ou má fé dos que a defendem.

Não há o que alegar diante de uma ruína cuja reconstrução exigirá muito sacrifício - 11 milhões já perderam o emprego. Só depois de o Congresso aprovar a revisão do saldo fiscal é que Meirelles e Jucá farão novos bloqueios e vão propor as reformas que cessem o aumento contínuo do gasto à frente da receita, agravado a partir de 2008.

Por algum tempo só haverá noticia ruim. A próxima será dia 1º de junho: o resultado do PIB no 1º trimestre. Prevê-se retração de 6% sobre 2015, e queda acima de 11% do consumo e investimento. Pois é... “Vai ter luta”. Luta brava para a esperança vencer o medo.

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