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ANTONIO MACHADO

09/03/2019 22:18 por Antonio Machado

Vidrado em rede social, que Bolsonaro faça melhor uso delas e promova polêmicas de fato relevantes

Num mundo em que velhos paradigmas estão sendo descontruídos, não faz sentido a política econômica ser tratada como dogma. Se ela ao menos fosse eficaz...

Boca no trombone 

O então deputado Jair Bolsonaro tomou gosto por polêmicas, toscas em geral, quando, graças a elas, superou 28 anos de anonimato na Câmara e elegeu-se presidente, com poucos recursos e afastado da campanha no segundo turno, servindo-se da mesma tática nas redes sociais.

O esquema é manjado, baseado no “falem mal, mas falem de mim”, e foi repaginado inicialmente nos EUA pelos ideólogos da chamada “direita alternativa”, alt-right em inglês, ao emular atitude e retórica dos movimentos de esquerda. Algo como bater sempre em inimigos reais ou fabricados, o tal “nós e eles”, visando uma mobilização permanente.

Donald Trump incorporou tal figurino e continua operando o Twitter, como faz Bolsonaro, admirador confesso do presidente dos EUA, para difundir notícias reais, polêmicas e absurdos, uma a duas por dia. Elas pautam a imprensa e colocam os adversários na defensiva. De algum modo, dispensam-se de tratar o que importa.

Foi assim que, depois de criticado pela divulgação de um vídeo com cenas de perversões sexuais num bloco de carnaval em São Paulo, em que pretendia defender a moral, ele apareceu no Facebook explicando o que já lhe tardava: a reforma da previdência. Até que enfim, né?

Em termos. Bolsonaro inseriu um caco na live e anunciou também o fim das lombadas eletrônicas, que nem problema é, mal disfarçando a intenção de dividir as atenções com o tema indigesto da previdência.

O fenômeno das redes sociais é dinâmico e pouco entendido. O fato é que esse espaço livre e sujeito a manipulações sofisticadas deixou de ser cativo de ativistas de esquerda. Nele, o presidente e o seu filho Carlos, vereador no Rio de Janeiro, deitam e rolam.

Quanto mais incomodam, mais se mostram satisfeitos. E logo haverá mais, já que não há político alheio à repercussão nas redes.

Se assim é e será com Bolsonaro, como, aliás, também com os pré-candidatos a disputar com Trump o governo dos EUA nas eleições de 2020, todos se servindo de perfis nas redes sociais, que ao menos ele use tal instrumental ou o libere a seus ministros a fim de introduzir realismo e boas polêmicas na discussão sobre questões de relevo.

O que ensina o passado

Se os problemas brasileiros são complexos e incompreensíveis até aos “especialistas” que têm resposta para tudo, imagine-se para quem nem mesmo comandou um quartel em sua breve passagem pelo Exército, com pouca cultura e encantado com o barulho provocado pelo que posta no Twitter e no Facebook. Talvez lhe faça bem aprender a governança dos governos militares que tanto elogia.

Nos governos dos generais Médici e Figueiredo, ambos também de pouco brilho, eles se informavam sobre a administração e o país em reuniões matinais, às 9, com a pauta conduzida pelo chefe da Casa Civil, então o jurista João Leitão de Abreu, e mais os ministros da Economia e do equivalente ao atual Gabinete de Segurança Institucional. As decisões eram tomadas pelo presidente, depois de ouvir seu time principal.

Decisões colegiadas são comuns em grandes empresas. Visam filtrar a decisão e proteger a organização contra voluntarismos. Dá-se o mesmo em democracias relevantes, ainda mais nestes tempos de informação instantânea e intromissões externas para manipular a opinião pública.

Iniquidades consentidas

O Brasil nunca foi fácil e se complicou com a autonomia conquistada no grito ou por força legal pelas corporações de Estado e usada para criar privilégios, parte dos quais o governo vai tentar cortar com a reforma da previdência.

Ela ficou insustentável com a porteira aberta aos recursos públicos, que é o que explica uma economia estagnada prover sustento a 94 milhões de pessoas, 44% da população, entre salário de funcionários, pensão e ajuda assistencial.

Também é o que explica estatísticas bizarras, sem similar no mundo, como 16 mil sindicatos, 35 partidos e 77 aguardando autorização. Não fossem o imposto sindical (que já caiu) e os fundos (fornidos com verba oficial) partidário e eleitoral, nada disso existiria, não como negócios privados e até com dono.

É de reformas para exterminar tais iniquidades consentidas, várias banidas pelo Congresso, mas recuperadas pelo STF, que o país precisa, não de polêmicas que nada mudam nem enriquecem a discussão política.

Polêmica que vale a pena

Felizmente, há alguns corajosos, como André Lara Resende, principal formulador da reforma monetária que criou o Real. Ele ousou fazer no Brasil a discussão do tema macroeconômico mais quente nos EUA – a “teoria monetária moderna” ou MMT, no acrônimo em inglês.

A tese, que não é nova apesar da sigla, sustenta que países que se endividam na própria moeda e com inflação baixa não precisam prender-se a restrições orçamentárias. O foco que importa é ter taxa de juro do Banco Central sempre abaixo da taxa de crescimento nominal do PIB e tratar com medidas fiscais eventuais pressões sobre a inflação.

Essa, sim, é polêmica das boas. Num mundo em que velhos paradigmas foram ou estão sendo descontruídos pela tecnologia, não faz sentido a política econômica dominante ser tratada como dogma. Se ao menos ela fosse eficaz..., mas, sinceramente, quem defende o que está aí?

De dogmas e anacronismos

Lara Resende faz um alerta pertinente: o risco de que “o apego a um fiscalismo dogmático e a um quantitativismo anacrônico” possa levar os liberais que comandam a economia “a voltar para casa mais cedo do que se imagina”. Travamos tal discussão há bom tempo, com a ênfase, de minha parte, nas disrupções em curso pela tecnologia.

O ministro Paulo Guedes tem em seu entorno técnicos que conhecem o poder das transformações, sobretudo da inteligência artificial, campo em que se opõem EUA e China sob o disfarce de uma guerra comercial.

Não há futuro sem presença relevante nas inovações tecnológicas, que abarcam tudo, das comunicações à agricultura. Mas sem crescimento nem empregos, educação eficiente e setor público governado não há nem por onde começar. Essa ficha caiu na Câmara. Falta o governo despertar.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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