Com 81 milhões de eleitores inadimplentes e 80% endividados, vibe eleitoral não deixa relaxar

7 a 1 o tempo todo

Ao convocar economistas do governo para reclamar da queda de sua popularidade e cobrar solução, o presidente Lula abriu o flanco para uma discussão que se faz necessária e já tarda, inclusive pela oposição, se houvesse gente sagaz ou preparada. Como habitual aos incumbentes, a culpa é dos outros – no caso, dos endividados e inadimplentes, cujos números desanimam qualquer ânimo eleitoral.

A oportunidade era para pôr em causa a exaustão do crescimento da economia à base de crédito, transferências de renda e expansão dos gastos públicos sem correspondência com o aumento orgânico do PIB, o produto do país, especialmente da manufatura mais tecnológica.

Era questão de tempo a corda da sensação de bem-estar esgarçar em resposta ao acúmulo de dívida das famílias, sobretudo com cartão e crédito consignado, espraiando-se pela inadimplência de serviços semi-obrigatórios e mal monitorados como luz, condomínio, as taxas invisíveis no crediário, gastos médicos e com veículos, manutenção do imóvel próprio ou alugado, dados de celular e um vasto etc.

Assim estamos, tornando o drama político e eleitoral, apesar de a política se mostrar distante, em geral por absoluto despreparo.

Lula atribui ao endividamento recorde dos brasileiros, assim como à inadimplência (dívidas vencidas e não pagas acima de 90 dias), a razão do desempenho fraco ou estagnado de indicadores como a taxa de aprovação de 45,9% no último AtlasIntel, contra 53,5% dos que o desaprovam, 49,5% de avaliação ruim/péssimo do governo, rejeição de 53,5% (em alta desde janeiro). No recorte de 16 a 24 anos, sua rejeição atingiu 58,6%. Noutras pesquisas, os dados se assemelham.

Faz sentido apontar o sufoco financeiro das pessoas como uma das razões, talvez a maior, do sentimento de que desse modo não se vai longe. É 7 a 1 o tempo todo. Os números impressionam, mas, apesar disso, um raro consenso entre os próximos a Lula é que as dívidas devem ser aliviadas para voltar a ativar o crédito ao consumo.

Mas como fazer isso, se o endividamento chegou a 80% da população adulta em fevereiro, o maior nível da série histórica iniciada em 2010, 81,3 milhões de pessoas estão com contas atrasadas há mais de 90 dias, o pagamento de dívidas absorve 29% da renda mensal?

PIB gordo e bolso magro

O relativo sucesso do desempenho econômico dos últimos 20 anos é a causa mais aguda do paradoxo. Se o PIB cresce, o desemprego é o mais baixo na medição do IBGE, a renda salarial sobe à frente da inflação, por que o eleitor está ressabiado com o governo?

O economista Fernando Montero se propôs a esclarecer esse enigma, e a resposta aponta para o modelo populista em que o consumo é o eixo que move a política econômica, e o desenvolvimento, que desde a ascensão do neoliberalismo em meados dos anos 1970 nos EUA caiu em desgraça entre os letrados, virou só retórica de esquerda.

Tome-se o custo da cesta básica em São Paulo. Nos quatro anos do governo Bolsonaro, ela subiu 67,8%, enquanto nos três anos e dois meses do Lula-3 cresceu apenas 7,8%. O indicador da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias, calculado pelo Banco Central, subiu 18% no último triênio, quase tanto quanto nos dez anos anteriores.

Trata-se, diz Montero, de um agregado de renda superior à metade do PIB. À primeira vista, só há fatos bons para o eleitor. O PIB do agro avançou 25% nos três primeiros anos de Lula-3, mais que em qualquer outro triênio móvel das últimas três décadas.

Montero também destrinchou os 23 anos da série do IBC-BR, medida do PIB que indica tendências da economia antes dos resultados das contas nacionais do IBGE. Nos 12 anos de governos Lula (1,2 e 3), a economia, por tal métrica, cresceu 51,4%. Nos 11 anos de Dilma, Temer e Bolsonaro, cresceu 3%.

Então, do que reclama o eleitor?

O Leão ataca os fracos

A resposta é fundamental para o futuro imediato da economia, de 2027 a 2030. Este será o quadriênio de transformações aceleradas da produção, das relações sociais e da geopolítica, puxadas pela inteligência artificial. Nada na próxima década será como é hoje.

O candidato e seu partido sem tais respostas nem deveriam tentar a cadeira presidencial ou a liderança das casas legislativas. Para tentarem habilitar-se, precisarão ter outro caminho para o PIB, hoje movido por asteroides de transferências e crédito, e antes de tudo endereçar o grave problema das dívidas tornadas impagáveis.

O presidente reuniu para tratar do endividamento toda a equipe da Fazenda e até o presidente do BC, Gabriel Galípolo, mas ao não ter na sala também o titular da Receita Federal expôs inadvertidamente a pouca familiaridade com o tema. Pelos dados da Serasa, havia no fim de dezembro 8,9 milhões de empresas inadimplentes, acumulando cerca de R$ 213 bilhões em dívidas, boa parte de impostos, muitas afundadas pela derrocada de grandes grupos nos últimos meses.

O grosso desses CNPJs é de micro e pequena empresa, para as quais as entidades empresariais dão pouca atenção. Afundaram na pandemia e não mais se recuperaram plenamente. Suas dívidas fiscais pesam mais que as bancárias e estão sendo cobradas em ações na Justiça pela procuradoria da Fazenda Nacional, com correção pela Selic de agiota, multas, e ameaça de confisco de bens. Como assim?

Sem amigos importantes nem dinheiro no banco, como seus pares do agro que sempre arrumam um “refis” no Congresso, esse segmento do empresariado é dos mais radicalizados. As razões falam por si.

São milhões, empregam outros tanto, e não acham graça alguma nas tretas da esquerda cirandeira. Espantoso é a oposição ignorá-los.

Cada macaco no seu galho

Alguns sinais sobre o que virá depois das eleições já começam a aparecer. Na cúpula do PT, alguns se convencem de que não dá mais para empurrar o déficit orçamentário sem fim nem fazer de medidas sociais os meios únicos de alavancar seus votos. Querem ideias.

Na direita, falta visão, além de indultar Jair Bolsonaro. Confiam nos programas a la Milei, como se Brasil tivesse semelhança com a Argentina insolvente e moeda podre. E o centro? Falta-lhe coragem de se assumir como real representante da maioria da sociedade. E falar para além da esquerda, que é menos importante do que parece, e ignorar os bolsonaros, tão rejeitados quanto o outro lado.

Pelo que se escuta dos líderes dessas correntes, porém, vão todos dar ouvidos a fiscalistas e prometer corte de gastos, uns, e mais impostos e menos desonerações (vulgo gastos tributários), outros.

Isso quando, segundo Fernando Montero, a carga total de impostos e contribuições previdenciárias atingiu até fevereiro 22,81% do PIB, mais que o pico de 22,01% de 2022, mas com um detalhe nada sutil: antes, havia superávit; hoje, há déficit recorrente.

“Nos últimos seis anos, a arrecadação tributária federal real avançou 34,8% ou R$ 769,8 bilhões (a preços de fevereiro)”, diz Montero. Nem assim o governo zerou as contas como havia prometido.

Num país em que o estamento do judiciário vem tomando espaço que foi dos militares, mandando às favas a opinião pública e os outros dois poderes constitucionais, dificilmente os eleitos terão legitimidade para se impor aos ‘novos subversivos’ se lhes faltar o que empolgue o eleitorado para governar com cada ‘macaco no seu galho’. E isso serve a todo o arco ideológico, aos incumbentes e desafiantes, aos caciques de partidos e seus eleitos. Esperamos…

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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