Será preciso mais que a delação de Vorcaro para eliminar as causas de nosso atraso

Ouro dos otários

A delação do trambiqueiro dublê de banqueiro Daniel Vorcaro pode implicar dezenas de parlamentares de todos os partidos, do centrão aos de esquerda, juízes de cortes superiores, dirigentes de órgãos públicos, e vir a impactar a campanha eleitoral, mas, apesar de um enredo atraente para virar seriado de streaming, não se deve ter grandes expectativas sobre mudanças na ética institucional.

Depois que a midiática Lava Jato terminou num rotundo fracasso, a despeito das confissões de tramoias de acionistas e executivos de grandes empresas, acompanhadas da devolução de dinheiros desviados da estatal Petrobras e o pagamento de multas bilionárias, cautela e ceticismo nunca são demais. Os corruptos incrustados na política e nas empresas nada aprenderam – e vários saíram de vítimas.

Como o cipoal de interesses entre a política, a alta burocracia e os viciados em enriquecer às custas do erário não foi desmontado, os atrevidos perderam a cerimônia. E foram além, comprando a alma dos supostos guardiões da moralidade em altares supremos.

Vorcaro é filho deste tempo de devassidão já não mais discreta, mas instagramável com o falso glamour de uma Gilded Era nacional – Era Dourada sem finesse, com muitos falsos brilhantes para ocultar a podridão de negócios. Ele exibiu talento para isso.

O seu caso é um exemplo clássico de Gilded Era à brasileira: uma camada superficial de ouro (festa de R$ 15 milhões para comemorar os 15 anos da filha, de R$ 200 milhões para noivar, jatos e status de “gênio das finanças”) cobrindo a base de metal barato (fraudes bilionárias, empresas de fachada, lavagem de ‘tigrinhos’ etc.).

Em seu contexto, o “folheado a ouro” era ferramenta de validação social. Ao ostentar uma riqueza supostamente estratosférica, ele comprou a confiança de investidores e reguladores, que hesitaram em questionar a origem da dinheirama.

Quando o ouro falso começou a descascar pelo Banco Central e a PF, só sobrou o que Mark Twain descreveu há 150 anos nos EUA: corrupção e prejuízo sistêmico – mais de R$ 50 bilhões e contando, o grosso desaparecido.

Padaria do “pão bolorento”

Uma sociedade brilhante por fora e puída por dentro, normalmente, antecipa fim de ciclos, como o tempo dos “barões ladrões” nos EUA no início do século passado, o desregramento social dos anos 1930 na Europa, e hoje, outra vez mais, a contestação das famílias, as rupturas tecnológicas, guerras, queda de natalidade e…as farras de Vorcaro e seus protetores nas instituições obsoletas do poder.

Adaptada ao Brasil, a metáfora do “folheado a ouro” tem a ver com o antigo dito popular do “por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”. O “bolor” do pão assado por Vorcaro era tão forte que corrompeu tribunais e instituições sólidas, estabelecendo-se como uma rede de fraudes em massa e de lavanderia de dinheiros sujos.

As traficâncias foram flagradas não bem pelo poder policial, mas porque seus excessos chocaram até os mais antigos no ofício. Esse é um mal tipicamente nacional: a condescendência com as vilanias.

Ela funciona como salvo-conduto: se o sujeito frequenta os mesmos clubes, promove festas suntuosas, “faz o dinheiro girar”, como se diz, elites e reguladores tendem a fechar os olhos para o bolor.

No caso de Vorcaro, a validação social lhe permitiu saltar de um condenado pela Justiça de Rondônia para dono de banco, o antigo Máxima, do Rio, em 2019, que operava bilhões com o setor público. É o “atrevimento” alimentado pela certeza da impunidade.

A profanação dos poderes

A Gilded Era brasileira se mantém por um pacto de aparências: se a “bela viola” estiver tocando e gerando lucro, ninguém quer ser o primeiro a apontar o dedo. Existe toda uma lógica por detrás.

Vorcaro prosperou servindo-se de instituições representativas dos três poderes profanadas pelo trade off entre governantes querendo aprovar projetos de lei, de um lado, e, de outro, Congresso com maioria parlamentar oposta a tal agenda. Faz-se a conciliação por aliciamento – antes, com pagamento de emendas ao orçamento apenas aos domesticáveis; depois, na fase terminal da relação imprópria, com emendas tornadas obrigatórias e “orçamento secreto”.

Esta relação é o nervo exposto do “presidencialismo de coalizão” degradado. Na Gilded Era nacional, a estrutura do Estado vira meio de negócios para a riqueza individual. E é onde entra a figura do facilitador: doleiros, nos tempos antigos, e dublês de banqueiros, hoje em dia, para ocultar origem e simular operações legítimas.

Essa simbiose entre o “roleiro” de luxo e o político pragmático cria o ambiente onde a ética é custo operacional e a lei, um contratempo a ser superado via negociação. A condescendência das elites fecha o roteiro: elas veem o “facilitador” como prestador de serviços, um mal necessário para manter o sistema rodando.

Foram facilitadores os alvos da operação Compliance Zero, da PF e do MP de São Paulo, que atingiu o topo da pirâmide da Faria Lima, incluindo fundos operados pelo entorno do Banco Master. O que está em causa é se o sistema chegou ao ponto de ruptura ou foi limpeza de fachada para outro ocupante assumir o lugar.

Uma janela de oportunidade

Quando emendas ao orçamento eram de cerca de R$ 10 bilhões/ano, o relato de desvios era raro. Ao nível de R$ 50 bilhões dos últimos anos, R$ 84 milhões para cada deputado e senador, as ambições se tornaram exponenciais tanto para quem as endereça quanto para os destinatários nos municípios. Como uma coisa leva a outra, nascem daí os golpes nos fundos de servidores, licitações viciadas etc.

Restrinja-se ao princípio original da Constituição, só emendas individuais como fração da receita federal, e três metas tornam-se possíveis: ajuste fiscal que já tarda, transparência dos destinos do dinheiro público e ociosidade dos facilitadores. Mas devagar!

A potencial delação de Vorcaro, embora esperada como “bomba” para as eleições de 2026, enfrenta o filtro de um sistema que aprendeu a autonulidade, como incompetência do foro ou a prescrição. O “pão bolorento” costuma ser reciclado com outra camada de manteiga.

Vorcaro, nesta trama, é subproduto de um Estado tornado balcão de negócios, em que as ideologias de esquerda e direita são despistes para manter aberto o acesso ao erário e enganar os incautos.

Na disputa polarizada dos últimos dez anos, abundam acusações que servem mais para distrair e gerar indignação que para moralizar as distorções do sistema político. Uma política mais administrativa e menos passional seria, em princípio, o caminho. Mas há o risco nem um pouco desprezível de que busque acomodar interesses de figuras como Vorcaro sob o manto da “estabilidade institucional”.

Dado o cansaço da sociedade com os mesmos nomes desempenhando o mesmo enredo, o momento eleitoral abre uma janela de oportunidade para outro grupo político como o de Gilberto Kassab, do PSD. Mas desde que rompa o loteamento da gestão pública e tenha programa para lançar no 1º dia visando mudar a lógica econômica que favorece a valorização de ativos ocos e a blindagem patrimonial excessiva.

Se o modelo econômico seguir privilegiando o chamado “capitalismo de laços”, o terreno continuará fértil para os Vorcaros da vida.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

Deixe uma resposta