“Pedagogia da produtividade” para gerar prosperidade, promover o PIB e superar a mediocridade

Brasil de US$ 3,5 tri

A derrota acachapante infligida pelo Senado ao presidente Lula à véspera de sua última jornada eleitoral, ao vetar a indicação de seu escolhido para o STF, tem diversas camadas de interpretação.

A principal delas é a menos reconhecida e a mais importante: o fim do ciclo da organização política criada pela Constituição de 1988 e, sobretudo, do modelo econômico alicerçado no consumo, a causa do endividamento e inadimplência recorrentes, e quase nada no investimento produtivo e na inovação criadora de mercados.

Ambos os movimentos estão interligados. Maioria parlamentar sem acordo programático entre partidos diversos, como houve durante os governos Itamar e FHC, significa base “aliada” formada por meio de aliciamento monetário e feudos de partes do Estado. É a origem da corrupção endêmica, sequela do descontrole derivada desse arranjo.

Por ora, as análises mais repetidas falam de traição da tal base aliada, especialmente do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o que tem mais a ver com as desculpas dos articuladores de Lula, que lhe omitiram o risco da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, sem acordo prévio com a maioria que ele não tem.

Se ainda houver espaço para interlocutores pragmáticos no entorno do presidente, a intelligentsia que não lhe faltou nos primeiro e segundo governos, ele poderá ter uma visão mais qualificada sobre o cenário eleitoral. Na economia, então, o nível é de ‘5ª serie’.

As mesmas considerações se aplicam aos três principais candidatos da oposição ainda carentes de formulações e propostas que superem o crescente atraso entre as taxas de crescimento econômico (o PIB, Produto Interno Bruto) do Brasil versus do PIB global e dos países emergentes, como China, Índia, Vietnã e Indonésia.

Isso é o que importa para frente. Ao fim da década, o mundo como conhecemos estará irreconhecível, e nem começamos a segui-lo.

De puxador de fila à rabeira

Essa discussão é obrigatória fazer. Ela foi tema de seminário da FIPE/USP, em março. Os cenários do Brasil são desanimadores.

Da II Guerra até 1980, o crescimento do nosso PIB foi o 2º maior do mundo, atrás apenas do Japão. Saltamos de um país paupérrimo em 1945 para um país de classe média em 1980. Desde então, passamos a comer poeira: nosso crescimento só superou o do Egito.

A verdade mal disfarçada: as oportunidades de progresso material para os jovens se tornaram escassas e a emigração para países ricos e até para vizinhos como o Paraguai se acentuou marcadamente.

De 1980 a 2024, enquanto o PIB do Brasil aumentou 142,3% (1,84% ao ano), o PIB mundial avançou 346,1% (3,2% a.a.) e o dos países em desenvolvimento cresceu 477,9% (3,9% a.a.). No recorte de 2003 a 2025, nosso PIB teve crescimento total de 53,1%, com média de 1,96% ao ano. Um desempenho pífio comparado ao do PIB global, que avançou 107,3% no período, média anual de 3,38%. E o dos países em desenvolvimento foi show146,5% no total (4,18% ao ano).

O que os candidatos têm a dizer para reverter tamanha involução? Essa resposta tem valor. As tretas entre STF e Congresso, Lula e Alcolumbre, por tal ótica, são desperdício de tempo e dinheiro.

Falha geológica deliberada

A falha geológica do crescimento brasileiro a partir de 1980 não foi acidente, mas uma escolha institucional pelo baixo nível.

Enquanto o líder chinês Deng Xiaoping, no fim da década de 1970, inspirou-se no modelo brasileiro de crescimento acelerado dos anos 1950 a 1970 para iniciar a modernização da China, nós abandonamos a nossa própria estratégia. A China refinou o investimento estatal e privado voltado à exportação. E nós? Perdemo-nos no labirinto do rentismo, burocracia e o modelo de consumo que ignora a oferta.

O resultado é dramático: a produtividade brasileira cresceu meros 12% em duas décadas, contra mais de 300% dos países asiáticos.

Para romper a inércia daqui para frente, propomos uma “pedagogia da produtividade” que fale a língua do lucro com inovação. O custo de oportunidade de ser “temeroso” é a irrelevância global.

Se o Brasil recuperar a participação de 3% no PIB global, nível que já tivemos em 1980, seremos uma economia de US$ 3,5 trilhões até 2030, contra atuais US$ 2,2 trilhões. Isso significa que a elite empresarial e política está deixando, anualmente, cerca de US$ 800 bilhões na mesa por apego a privilégios paroquiais.

Sinalização da riqueza

A saída exige um plano forte de investimento (FBCF) que eleve a taxa atual de 17% para 21% a 25% do PIB em quatro anos. O motor desse salto será o direcionamento de 5% do PIB para o investimento estatal estratégico, blindado contra o seu sequestro por emendas parlamentares e gastos públicos correntes.

Uma Autoridade Nacional de Projetos (ANP), de caráter técnico e independente, seria o filtro do orçamento de capital gerido sob a lógica da eficiência logística e tecnológica, não da conveniência dos lobbies. Neste cenário, os parlamentares só destinariam verbas para projetos validados no Plano Decenal de Infraestrutura da ANP.

Este movimento deve ser acompanhado pela redução gradual do juro real. É inadmissível que o Brasil opere com taxas reais próximas a 10%, enquanto competidores diretos operam abaixo de 3%.

Juro alto tornou-se um mecanismo de transferência de renda que inibe o risco produtivo e nutre o rentismo dos traders da dívida. Convergindo a Selic real para cerca de 4% ao ano, sinalizamos que a riqueza será gerada na produção, e não na arbitragem financeira.

Entre a glória e o fracasso

No campo fiscal, a modernização da gestão é o lastro necessário para a redução gradual da carga tributária a partir de 2027. A reforma do IVA Dual foi o começo.

O passo seguinte é a reforma da governança pública, com digitalização total de processos, controle de supersalários da elite do funcionalismo e uma nova abordagem demográfica. Sugerimos a fusão dos pisos constitucionais de saúde e educação, com a queda da demanda escolar financiando o aumento do gasto com o envelhecimento da população, sem elevar impostos.

A previdência também demanda uma nova abordagem que vá além das regras de idade. Propomos a criação de um Fundo de Renda Soberano, formado pelo aporte de ativos da União – dividendos de estatais, imóveis subutilizados e terrenos retomados em dação de dívidas. Esse fundo criará um lastro patrimonial para aliviar o Tesouro e garantir o usufruto da riqueza nacional pelo trabalhador.

E mais: revitalizar o FGTS como uma poupança real focada em infra social, com governança de mercado e participação das centrais sindicais.

O cenário 2027-2030 é ambicioso: um PIB per capita acima de US$ 16.000, um terço maior que o corrente, e dívida bruta recuando para menos dos 83% neste ano estão ao nosso alcance. O pedágio será o fim do autoatendimento da burocracia, do rentismo sem risco, de políticos sem propósitos e do populismo eleitoreiro.

O ciclo de 2027 será nosso encontro com a relevância ou com a mediocridade. Isso é certo, incerto é a quem caberá a glória ou o fracasso.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

Deixe uma resposta