Tal como a covid pegou o mundo de surpresa, a era da inteligência já sentou praça e não percebemos

Algo grande aconteceu

Um grupo pequeno de líderes empresariais, economistas, juristas e intelectuais, incomodados com a modorra da cena política e a falta de interesse dos partidos em pensar o Brasil para todos e não para seus interesses eleitorais imediatos, começa a discutir caminhos a construir para superar o domínio da mediocridade que nos consome.

É muito bom que isso aconteça porque, enquanto o noticiário fala de escândalos seriados, disputas no STF, de cálculos eleitorais de curtíssimo prazo que não dizem respeito à totalidade da sociedade, uma transformação estrutural já alterou o eixo da economia global.

Não é previsão de cenários nem tertúlias acadêmicas. É fato. A inteligência deixou de ser apenas atributo humano e tornou-se infraestrutura produtiva. Essa é a mudança central do nosso tempo.

Modelos avançados de inteligência artificial (IA) já se envolvem com a programação de sistemas complexos, a descoberta de novas moléculas, da gestão de cadeias logísticas globais, da avaliação de risco financeiro e da formulação de estratégias empresariais. 

Trilhões de dólares estão sendo direcionados à construção de data centers, semicondutores e infraestrutura energética para sustentar a nova camada cognitiva da economia. Cadeias globais de produção são reconfiguradas sob essa lógica. Inteligência, agora, é fator de produção escalável. E a nova vantagem comparativa das nações não será apenas energia, capital ou mão de obra.

Ela será a capacidade de orquestrar a inteligência agêntica – ou seja, a execução de tarefas multi-etapas com autonomia -, sobre a infraestrutura produtiva.

Os países que integrarem computação avançada, energia abundante e cadeias industriais ganharão produtividade, autonomia estratégica e poder de negociação. Os demais fornecerão insumos. Serão cavalo para os cavaleiros da nova era: as bigtechs, a China, EUA.

Essa mudança é comparável às grandes revoluções industriais. A 1ª ampliou a força física. A 2ª expandiu a energia. A 3ª digitalizou os processos. A atual amplia a capacidade de raciocínio aplicada à produção. Trata-se de uma transição de regime. E nós com isso?

A mediocridade dos poderes

Temos uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta. Dispomos de água abundante, território, minerais críticos e base industrial que, apesar de incompleta, ainda existe. Temos sistema financeiro sofisticado, centros de pesquisa relevantes e um setor empresarial que sabe operar em ambientes adversos. Só não temos projeto claro para integrar esses ativos à nova infraestrutura da inteligência.

Enquanto isso, a política nacional permanece entretida com a sua própria espuma. Escândalos envolvendo espertalhões, as suspeitas sobre relações opacas entre agentes públicos e privados, disputas personalistas na corte suprema, o populismo descarado e cálculos eleitorais táticos ocupam o centro do debate.

A cada novo ato discutível, a confiança nos poderes se desgasta e a percepção de que as instituições servem ao interesse público e não a arranjos circunstanciais se enfraquece.

Essa combinação é perigosa.

De um lado, a economia global se reorganiza em torno da IA como infraestrutura. De outro, o nosso sistema político opera como se estivéssemos na lógica da década passada, disputando orçamento, cargos, emendas e narrativas. O descompasso parece óbvio. A transformação tecnológica não espera a maturação institucional.

Orquestração da inteligência

As classes profissionais que sempre se viram como cognitivamente dominantes, como advogados, analistas, programadores, economistas, jornalistas, suspeitam que sistemas automatizados já superam seu desempenho em tarefas centrais. Isso não significa fim do trabalho humano, mas o fim da escassez de certas competências intelectuais.

Quando a inteligência se torna farta e escalável, o diferencial deixa de ser saber fazer e passa a ser organizar a construção. De energia, dados, produção e capital sob uma arquitetura estratégica coerente. Organizar o Estado para ser catalisador e não obstáculo. Organizar a sociedade para a transição gerar inclusão produtiva e não apenas concentração de renda e poder.

A nova disputa geopolítica não é por território ou por reservas energéticas. É por quem controla a orquestração da inteligência aplicada à infraestrutura produtiva. Sem essa camada, a soberania torna-se parcial. Com ela, mesmo economias médias podem ampliar sua relevância e proteger seus interesses.

Estratégia versus inércia

Se optarmos pela inércia, seremos fornecedor de energia para data centers estrangeiros e de minerais para as cadeias produtivas que agregam valor fora. Continuaremos dependentes de decisões tomadas por Pequim e Washington.

Se optarmos por estratégia, podemos nos tornar relevantes na economia da inteligência, combinando energia limpa, indústria e tecnologia aplicada à produtividade. Mas como?

Estratégia exige liderança. Exige reconhecer que o país enfrenta uma transição estrutural e que o debate público atual é insuficiente para respondê-la. Exige dizer basta à mediocridade, que se limita à espuma do dia e ao alheamento diante de relações espúrias que corroem a confiança popular nos poderes.

Exige restaurar a ideia de que instituições existem para preparar o futuro, não apenas para administrar crises.

Linguagem da transformação

O custo do atraso institucional é invisível no curto prazo, mas devastador no longo. E longo, a esta altura, se conta em anos.

Manifesta-se em crescimento medíocre, em produtividade estagnada, em fuga de talentos, em investimentos cancelados. Manifesta-se na sensação difusa de que estamos sempre reagindo e nunca liderando.

O mundo já atravessou a fronteira da inteligência agêntica. Não se trata de entusiasmo tecnológico nem de alarmismo. Trata-se de reorganização concreta do capital, da indústria e do poder. Não se pergunta se essa transformação ocorrerá. Indaga-se é sobre quem a liderará e quem ficará à margem. Sem respostas, vamos encolher.

Podemos continuar entretidos com escândalos e disputas episódicas – e sobre quem é fascista, quem é populista – enquanto a estrutura da economia global se redefine. Ou podemos formular a linguagem da transformação disruptiva, a estratégia e arquitetura institucional necessárias para atuarmos como protagonista. É roteiro que orienta o pensamento dos brasileiros preocupados com o país.

Na agenda de quem pensa o Brasil estão temas como a criação de infra computacional nacional, política industrial orientada à IA aplicada e a modernização do Estado com sistemas inteligentes.

A história raramente abre janelas longas de oportunidades. Esta já está aberta, mas não permanecerá assim indefinidamente.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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