Se não há propósito nem direção, o que estamos fazendo? Pergunta aos partidos e candidatos
Para um país com a 10ª maior economia do mundo, e que seria a 5ª maior se tivesse mantido a mesma participação no produto global de 1980, é irritante assistir o noticiário sobre os dois candidatos à frente das pesquisas – ambos também no topo da lista de rejeição.
Um anuncia programas para beneficiar os mais pobres, como o vale gás e contas de luz subsidiadas, isso depois de governar por quase 17 dos últimos 23 anos, da universalização do Bolsa Família (maior programa de transferência de renda do mundo) e o baixo desemprego. Duas décadas sem encerrar a pobreza extrema exige reflexão.
Outro faz campanha em Washington, como se dependesse do humor de Donald Trump para se eleger, enquanto se distrai com as confusões em seu próprio grupo político e busca explicação satisfatória para a revelação de que foi outro político (eles são muitos, da direita à esquerda) a receber apoio dadivoso do picareta do Banco Master.
Nada disso tem a ver com as razões às quais o eleitor deve ater-se ao estudar os candidatos a presidente, mais deputado, senador e governador – todos também na moita, como se não estivéssemos à mercê da mais profunda transformação tecnológica, econômica e até existencial, pela ameaça climática e os tambores de guerra. Não se assistiu a nada igual desde o fim da II Guerra, em 1945.
Delas derivam, pela resistência à mudança de grupos de interesse, em geral econômicos e políticos, a decadência na Europa e EUA dos partidos tradicionais, a ascensão da direita radical, a sensação de insegurança, tudo como expressão de um sistema terminal.
A periferia global, na qual se inserem os países emergentes como o nosso, tem margem de manobra limitada, especialmente se ficou para trás na corrida tecnológica, especializou-se como exportador de commodities para as potências hegemônicas (leia-se: EUA e China), e está presa à armadilha da busca de estabilidade fiscal.
Se há algo que deveria provocar discussões acaloradas, o fim do mundo como o conhecemos está no topo das prioridades. Para o Brasil, não se trata de se alinhar aos EUA, aproximar-se da China, acusar adversários de fascistas ou comunistas, brigar por banheiro sem distinção de sexo, achar normal uma corte suprema impor regras aos órgãos públicos como se fosse uma teocracia de sábios. Menos!
Movimentos de disruptura
A agenda que importa está no que fazer com os dois movimentos que impactaram a ordem estabelecida no Ocidente: a ascensão da China e o seu capitalismo de Estado avantajado e sem limites como fábrica do mundo e o vício da financeirização das empresas, levando-as a obter cada vez mais seus lucros atuando como agentes financeiros.
Isso não é discussão apenas para EUA, Alemanha, França, Espanha, mas para potências médias que até os anos 1980 estavam à frente de China e Coreia do Sul em produção industrial, além da Índia, cuja expansão começou depois e tende ao 3º lugar em tamanho de PIB. A esta altura, candidato sem proposta sobre o que podemos fazer para reaver o tempo perdido é apenas mais um em meio às irrelevâncias.
Estão saindo estudos e livros tratando exatamente disso. Focam os EUA uns, a Europa, outros, mas todos trazem roteiros para países não alinhados às potências dominantes. Lê-los já é um começo.
Um texto interessante trata do “Novo Capitalismo de Estado” nos EUA, mostrando em tom de denúncia a participação do governo em empresas de tecnologia ou de interesse à “segurança nacional” nos moldes do que faz a China. E fizemos quando o desenvolvimento não era conceito maldito e o orçamento público se prestava mais para o investimento em segmentos de retorno lento e não para a farra da nobreza do funcionalismo, a política eleitoral e grupos privados.
Referência: A New State Capitalism. Why the U.S. government’s increasing involvement in business deals is undermining our democracy. Publicado no substack Persuasion, por Dalibor Rohac, pesquisador sênior do American Enterprise Institute.
A economia do bem comum
Mais instigante é o novo livro da economista italiana radicada na Inglaterra Mariana Mazzucato, fundadora do Instituto de Inovação e Propósito Público da University College London. Ela já esteve no Brasil algumas vezes, e assessora vários governos ricos e pobres.
The Common Good Economy: A New Compass (A Economia do Bem Comum: Uma nova bússola) traz um roteiro para um contrato social renovado entre empresas, trabalhadores e Estado. “Devemos ir além da mera correção das falhas de mercado e passar a redefinir o objetivo”, ela diz. “O ‘quê’ e o ‘como’ importam”, baseado no télos da pólis de Aristóteles. “Se não há propósito nem direção, então que diabos estamos fazendo?” Boa pergunta. O que os políticos têm a dizer?
O livro disseca pesquisa dos balanços de 300 maiores empresas não financeiras de capital aberto da Europa de 2000 a 2024. O capital foi abundante e barato, e os lucros, elevados. Mas o investimento, a produtividade e os salários estagnaram. “O principal obstáculo ao crescimento não foi o preço da mão de obra, mas a alocação de capital”, ela explica. Nos EUA, a leitura é a mesma e é isso que Trump tenta reverter, num raro consenso bipartidário.
O que Mazzucato diz já foi ouvido de expoentes da academia nos EUA, e de políticos republicanos e democratas. “Quando os lucros das maiores empresas são cada vez mais direcionados para recompra de ações, dividendos e ativos financeiros em vez de para produzir e inovar, o resultado é um crescente custo social do capital mal direcionado.” Essa é a diferença mais visível com a China.
A prova dos candidatos
Para o Brasil, a lição é direta. Não há progresso se o capital escapa para rentismo, nem Estado forte quando o orçamento serve a corporações, emendas e privilégios. O que falta é direção: missões nacionais capazes de amarrar crédito, compras públicas, pesquisa, energia, defesa, infra, IA, indústria e formação de quadros técnicos, e tudo com metas verificáveis e monitoramento externo.
O candidato que ignorar este roteiro está pedindo voto para gerir decadência. Queremos saber como fará o investimento voltar para atividades produtivas; quais setores terão prioridade; o que será exigido de contrapartidas de quem receber incentivo público; como reformará o Estado para entregar resultados; como vai obrigar os interesses acomodados a participar da reconstrução do país.
O resto é ruído de marqueteiro. Não há soberania frente a Pequim e Washington se não tivermos capacidade produtiva, tecnológica, financeira e estatal. Um Plano 2027-2030 precisa nascer daí: não de promessas, mas de escolhas.
Quem quiser governar o Brasil deve saber responder: qual é o projeto? Quem paga? Quem entrega? Quem fiscaliza? Que país teremos em 2030, ao fim do mandato?
Sem isso, não há proposta. Há só político procurando emprego.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
