Político tem patrão

Cultura de eficiência e indicadores de resultados são armas contra a mediocridade e a corrupção

Sob os desígnios da liderança disfuncional dos EUA num ano em que cá e lá haverá eleições, a partitura da ópera desafinada de Trump dá o álibi para um país potencialmente rico pelo que é e pobre por opção de suas elites governantes buscar o progresso sem truques.

Por progresso entenda-se não só o avanço da economia e o aumento do bem-estar, mas a remoção dos obstáculos que os atravancam desde uma a duas gerações passadas. O maior é o desenho da Constituição de 1988, farta em direitos e omissa na cobrança de resultados. Sem indicadores de desempenho compulsórios, florescem o descaso e os péssimos resultados confrontados aos de países emergentes que há 40 anos estavam atrás de nós, como China, Coreia do Sul e Índia, além da corrupção endêmica à esquerda e à direita.

Esse é o princípio da montagem de um plano de desenvolvimento sem risco de descambar em inflação, em ruína das finanças públicas, ou presa de governantes populistas e de jogos de interesse espúrios das potências neoimperialistas – EUA e China. Não adianta defender o multilateralismo regrado por organizações globais, tipo a ONU e a OMC, quando a geopolítica é ditada por potências hegemônicas.

Não se trata de alinhar-se a nenhuma delas, mas de sentar à mesa do poder mundial como parceiro, não como convidado, condição em que o Brasil esteve esta semana na cúpula do G7, na França. Para tal, o gigantismo territorial e a riqueza natural não importam. É a importância econômica para além da exploração extrativista, o que implica domínio tecnológico e uma mistura inteligente de dissuasão militar e o soft power cultural (música, filmes etc.).

Para sairmos do pântano dos sonhos frustrados, há antecedentes ao que propõem entidades empresariais e economistas do tal “mercado”, para os quais bastariam ajuste fiscal e tirar o governo da frente, se não houver crise à vista, para que a riqueza se fizesse por ato de graça. Tudo isso importa, mas só se forem sólidos os pilares da boa gestão, política com visão nacional e eleitor consciente.

Fim do alvará à libertinagem

Neste ano de eleições, o governo bagunçado de Trump pode ser uma oportunidade, se nossa elite dirigente em 2027 atentar para o que é relevante. Primeiro, sufocar a corrupção, que começa com o fim da ilusão de maioria parlamentar formada pelo presidente graças ao aliciamento por emendas e à entrega de feudos do Estado. Segundo, assumir sem disfarce a gestão profissional, o foco em metas e seus indicadores de desempenho e a cultura de eficiência.

Não é tudo, longe de ser um plano tanto de estabilidade quanto de crescimento inclusivo e transformador, mas sem linha programática dirigida por metas, dados e indicadores de resultados, o que vier funcionará como alvará à libertinagem. A mudança requer servidor público como um verdadeiro gestor de impactos sociais.

O caso Master, tomado aqui só como sinal de doença maior, ajuda a separar moralismo farsesco de reforma. Indignação é saudável, mas insuficiente. Escândalos aparecem quando a administração pública vira condomínio mafioso de influência: cada grupo ocupa uma sala, controla nomeações e distribui exceções. Dão a isso o nome de governabilidade, um sofisma para disfarçar o mau cheiro.

A corrupção precisa de opacidade, de metas frouxas, fiscalização sem autonomia, regulador sem contrapeso, orçamento sem vínculo com entrega e político indiferente a maus resultados.

A régua para 2027 a 2030

A limpeza institucional tem de ser profunda. Não basta trocar os nomes, abrir CPI, prender o fulano da vez e esperar os vazamentos.

É preciso desarmar o alvará permanente dado ao improviso. Sem indicador de cada uma das ações públicas, sobram desculpas. Sem meta, o fracasso é anônimo. Sem avaliação contínua de desempenho, não há o que cobrar. Estamos assim, apesar de TCU, CGU etc.

Sem rastreabilidade do dinheiro, a fronteira entre lobby, captura regulatória e crime organizado fica borrada. É aí que a cultura de resultados reforça a democracia, já que o cidadão não fiscaliza abstrações, ele fiscaliza números, prazos, custos e impactos.

O Brasil que precisa nascer em 2027 para chegar transformado em 2030 não começa por lista de promessas. Bastam poucas prioridades, com metas claras, cobrança e orçamento amarrado ao resultado.

Três a cinco objetivos por área. Uma unidade de entrega ligada ao chefe do Executivo, sem substituir ministérios ou secretarias, mas com força para cobrar prazos, destravar gargalos e expor o que vai mal. Contratos de gestão para ministros e secretários. Painéis de ações abertas para a sociedade acompanhar a execução. Não é muito.

Como disciplinar a política

O caminho é direto. O modelo se inspira na cultura da eficiência, metas e meritocracia, a base do ecossistema de formação de quadros públicos e privados e formulação de ideias apoiado pelo empresário Jorge Paulo Lemann. Suas virtudes são claras, ao profissionalizar a gestão, substituir o favor pela competência, forçar o governo a medir o que entrega e proteger o orçamento de desperdícios.

A meritocracia combina prêmio, formação, autonomia, transparência e responsabilidade, sem maquiagem de dados. Fez-se isso em Sobral, no Ceará, na educação, mostrando que é possível trocar a política miúda por foco, avaliação, apoio pedagógico e seleção técnica.

Experiências de metas na segurança, na saúde e em obras públicas indicam o mesmo caminho e seus riscos. Métrica mal desenhada induz fraude. Bônus sem auditoria vira teatro. Insulamento técnico sem participação democrática vira tecnocracia arrogante. A gestão por resultados precisa andar com controle externo forte, transparência radical e participação social.

Os dados disciplinam a política.

Esse é o cerne de um plano para 2027-2030: reconstruir capacidade estatal sem recriar o velho estatismo esbanjador; atrair talento privado sem privatizar o interesse público, tudo com autonomia ao gestor visando dificultar a ocultação de incompetências.

O orçamento deve financiar entregas, não corporação nem lobbies. Estabilidade funcional existe para proteger a função pública, não para blindar a mediocridade. Regulação visa impedir que o sistema público vire balcão de negócios de lobistas. Sem tais princípios, a mediocridade e os escândalos serão cada vez mais recorrentes.

Duas metas esperam as novas elites políticas: deixarmos de gerir a impotência e passarmos a construir o poder geopolítico cada vez mais essencial. Será factível? Não sabemos, mas, como político tem patrão, é hora de o patrão voltar ao comando e cobrar os eleitos.

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