Spin-offs de populismo desfalcam o investimento transformador e apequenam o país
Com mais da metade das famílias perto da insolvência, empresas no limite do que é razoável suportar de juros, impostos e burocracia, o país imprensado pelo neoimperialismo dos EUA e China, o racional num ano de eleições gerais seria uma disputa por ideias e projetos que impulsionem a abundância material e viabilizem a ascensão social ansiada pela imensa maioria pobre da população. Mas não.
Para fazer frente ao que são ameaças, algumas existenciais, como os sonhos da classe média ascendente sempre frustrados, outras de poder global, sob pena de virarmos apêndice da geopolítica dos EUA na América Latina ou mercado cativo de manufaturas chinesas, só há o caminho da expansão da oferta via investimentos maciços naquilo que demanda uma sociedade de consumo de massa e requer um país com expressão não realizada de potência econômica e política regional.
O autoengano é a nossa distração recorrente, como se viu com o anúncio pelo IBGE do desempenho do produto interno bruto (PIB) do 1º trimestre. O noticiário, repercutindo os tecnocratas oficiais e os economistas de mercado, destacou o crescimento de 1,11% sobre o trimestre anterior ou de 2% em quatro trimestres. Nada fulgurante.
A verdadeira notícia do PIB trimestral mereceu notas de rodapés: a taxa de investimentos como proporção do PIB foi de apenas 16,5%, muito abaixo da taxa de reposição dos ativos e uma dezena inferior à medida equivalente em países emergentes bem-sucedidos como China e Índia, que investem acima de 30% há mais de 20 a 30 anos.
Países que investem grande parcela do PIB por décadas a fio, sem vetos de ordem política independentemente da orientação ideológica do grupo dominante, transformam crescimento em produtividade, não tem atrasos tecnológicos que enfraqueçam a sua projeção global, o déficit orçamentário se deve aos gastos de capital, não ao custeio de estruturas públicas inchadas, e políticas sociais suplementam o emprego em vez de substituí-lo pela falta de dinamismo econômico.
Padecemos de todas essas dinâmicas invejadas hoje pelas outrora economias industrializadas do Ocidente, que uma a uma voltaram a adotá-las. E vamos a outra corrida eleitoral sem que os candidatos a discutam nem ao menos na retórica. É o que levou à “ressaca da ascensão social”, segundo um brilhante estudo da gestora Kinea.
O crime da desorganização
Fosse diferente e o governo e o Congresso não estariam unidos na expansão de programas que aquecem o consumo sem correspondência de oferta e de produtividade, além de complicar a já difícil situação de nossas empresas privadas e estatais. Entende-se por que o crime enquadrado pelo governo Trump como “organização terrorista” leve o nome de “organizado”. Ele floresce onde impera a desorganização.
A mudança contra tal cenário tem de ser contundente. Começa com a escolha de novas prioridades e metas de desempenho nacional.
Pomos uma meta de crescimento do PIB alavancado pela elevação da taxa de investimentos para 22% a 25% do PIB como maior prioridade, visando US$ 3,5 trilhões de produto nacional até 2030 – cerca de 60% maior que o atual.
E como o crescimento econômico movido pela expansão produtiva é cumulativo, até exponencial se o investimento for bem dirigido, a produtividade e a renda vêm junto, resolvendo a também demandada tranquilidade fiscal e com maior coesão social.
O oposto é o menu servido pela política em ano eleitoral: mais crédito consignado para capturar renda futura, mais bondade fiscal sem lastro produtivo, mais transferências calibradas para a urna, mais indulgência com o gasto e menos investimento transformador.
Sem coelho na cartola
Chamam a isso de “proteção social”, “inclusão”, “estímulo”. Mas, quando a produtividade e a capacidade de oferta da base material do país encolhem, tais spin-offs de populismo viram adiantamento de um dinheiro que a sociedade ainda não produziu.
Não por acaso, três de cada quatro lares se dizem desconfortáveis com a própria situação financeira e mais da metade está no limite da insolvência, segundo pesquisa da NielsenIQ. O consumidor mantém o desejo de consumo e patrimônio, mas perdeu o chão estrutural que o sustentava. A casa própria se afasta, o aluguel dispara, a renda disponível some nos descontos em folha, no cartão, no rotativo, na prestação do carro, na mensalidade do streaming, no supermercado.
O país de mercado de consumo de massa virou uma massa endividada.
A perversidade maior está em que esse aperto não é episódico, mas sistêmico. Numa economia de baixa produtividade, o crédito deixa de antecipar renda futura robusta e vira complemento de salário.
É o que indica a expansão do consignado: reduz o risco do banco e corrói a renda líquida do trabalhador já pressionada por gastos obrigatórios além dos medidos pelo IPCA. Festejar esse truque como prosperidade significa trocar o futuro por um alívio passageiro.
É aí que o ilusionismo eleitoral revela seu truque mais velho. Em vez de enfrentar o desarranjo estrutural (o investimento medíocre, a infraestrutura cara e insuficiente, custo de capital proibitivo, burocracia e suas taxas, surtos de lobbies), tenta-se comprar o eleitor com créditos e subsídios que só redistribuem a escassez.
A hora do “Brasil Potência”
A prestidigitação é também macroeconômica. Celebra-se o PIB sem olhar a anemia do investimento, tolera-se um mercado de ações cuja capitalização das empresas cotadas representa menos de 1% do total no mundo, convive-se com a perda relativa de densidade produtiva e ainda se insiste que expedientes redistributivos possam substituir um projeto nacional de expansão da oferta.
Não podem.
Sem investimento alto por décadas a fio seguiremos sendo um país em que o consumo aparece antes da riqueza e a frustração, causa do radicalismo de parte do eleitorado, chega antes da maturidade.
A verdade, embora poucos se apliquem a explicá-la, é simples: não há ascensão social sustentável sem crescimento puxado por mudança estrutural, investimento e produtividade. Todo o resto é teatro.
Exemplo: transformar o país em superpotência de infraestrutura e insumos para a era da IA física, com cooperação público-privada – um “neodesenvolvimentismo de fronteira”. Não se trata de subsidiar a fabricação local de hardware do zero, mas de criar assimetrias competitivas que obriguem potências como EUA e China a investir e integrar o Brasil como sócio estratégico em suas cadeias de valor.
Uma linha de ação neste sentido certamente interessa mais a Trump que atender “políticos que fazem arminha com a mão” incluindo PCC e CV como organizações terroristas, estes cancros que corroem os fundamentos sociais e institucionais do país. Um “Brasil Potência” que somente a economia forte e dinâmica pode viabilizar impactará mais a estima nacional e refreará os PCCs que falar de soberania e bater boca com farsantes.
Merecemos mais que truques baratos.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
