Brasil e EUA têm mais a ganhar negociando acordos não contaminados pelo clima eleitoral
Uma discussão mal-informada levará a estresse ocioso e resultados lamentáveis aos envolvidos. É questão de tempo. É isso que está em cena com o novo tarifaço do governo de Donald Trump onerando cerca de 18% das exportações brasileiras em valor, aos EUA, com alíquota de 25%. O que não for sobretaxado entrará numa lista de exceções – em geral, bens cuja tributação impacta a inflação dos americanos.
É um ato essencialmente político tomado por razões pífias, com os irmãos Flávio Bolsonaro e o ex-deputado Eduardo (que vive nos EUA alegando ser perseguido pelo STF) entrando como os bobos da corte.
Eles defenderam a penalidade junto à Casa Branca, supondo que ela abalará a reeleição do presidente Lula, o que, para acontecer, precisaria prejudicar milhares de seus próprios eleitores, entre trabalhadores e produtores do agronegócio e da indústria. Coisa de gente desarvorada, o que inclui Trump e parte de sua entourage.
Da grande lista de produtos e serviços incluídos na palmatória em Lula, visto pela direita radical representada por Trump como muito próximo da China e dos BRICS e distante dos interesses econômicos e estratégicos dos EUA, o Pix seria uma espécie de prenda maior a entregar, uma prova de alinhamento respeitoso aos EUA.
Para Trump, e para Marco Rubio, secretário de Estado, conselheiro de Segurança Nacional e líder da facção da direita nacionalista no Partido Republicano, Brasil é país-chave no mundo bipolar, com EUA de um lado e China e aliados, como Rússia e Irã, de outro.
Coube a Rubio, que renunciou ao Senado pela Flórida para aderir ao governo Trump – de quem foi (e discretamente ainda é) rival no Partido Republicano -, politizar as medidas, sendo grosseiro com Lula. “Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”, ele postou na rede X.
Não se trata de contencioso comercial ou diplomático, como se vê, mas de ameaças com propósitos visando alinhar o país aos EUA, com ou sem Lula no governo, e com a China como sujeito oculto.
Visões de Trump e de Rubio
Houvesse sofisticação e malícia nesse entrevero, nossa diplomacia poderia ter constrangido Rubio e o próprio Trump apegando-se aos resultados excepcionais do Pix para informar a ambos como pôr de pé o que defendem nos EUA: reduzir o poder dos bancos e de suas operações com cartões para ampliar o acesso ao crédito e baixar o custo de transações financeiras às pessoas comuns e às empresas.
Em 2020, Rubio patrocinou com a senadora Elizabeth Warren, da ala mais à esquerda do Partido Democrata, projeto de lei que impediria empresas de fundos de private equity de receber apoio financeiro não-reembolsável durante as restrições da pandemia da covid. Ele, enquanto senador, também defendeu medidas contra a publicação de resultados trimestrais pelas empresas abertas de modo a diminuir o viés negativo, no mercado, dos investimentos produtivos.
A bronca de Trump com o Fed também não se limita ao nível da taxa de juros, que ele quer diminuir. Trump quer outra racionalidade do sistema bancário pilotado pelo Fed e do mercado de capitais sob a supervisão da SEC (Securities and Exchange Commission), mais como era até os anos 1970 e a China ampliou: focada em resultados de prazo longo, não nos balanços trimestrais, para estender o alcance dos investimentos, sobretudo em tecnologias de fronteira.
A facção de Rubio, representada pelo think tank American Compass, se opõe ao que chama de “fundamentalismo de mercado”, responsável, segundo seus intelectuais, por permitir que o refino dos insumos industriais críticos fosse controlado pela China, como de resto de toda a manufatura de bens de consumo. O modelo que defendem não é o isolacionismo, mas o friend-shoring, que consiste em remontar as cadeias industriais nos EUA e em aliados geopolíticos confiáveis.
Brasil como parceiro ideal
É esta a discussão sobre o controle de jazidas de terras-raras, a família de minerais essenciais para a tecnologia digital. Cerca de 20% dessas reservas estão no Brasil, e praticamente inexploradas.
A China controla seu refino em mais de 90%, e exerce tal poder de mercado impondo cotas de exportação. Chegou a vedar exportações ao Japão e as usou para suspender as tarifas draconianas impostas por Trump à China. Desde então não param de negociar, com o governo de Xi Jinping sabendo que a bola pode estar com Trump, mas o mando de campo é chinês. Como país geograficamente seguro e neutro, Brasil desponta como parceiro ideal para quem precisa diversificar.
Portanto, não é a concorrência do Pix aos resultados das gestoras de cartões de crédito e débito no Brasil um problema a resolver. É o que os EUA não completaram desde que lançaram o Fedwire nos anos 1970, para transferências interbancárias em tempo real.
O que faltava, e que os bancos se recusaram a estender ao varejo, era a camada de conectividade ao cidadão e às pequenas empresas. Enquanto aqui surgiu o Sistema de Pagamentos Brasileiro em 2002, abrindo caminho para a liquidação instantânea, os bancos dos EUA mantiveram a população refém do modelo Automated Clearing House, que demora até 3 dias úteis para compensar um pagamento, levando-os a lucrar, sem razão, bilhões de dólares a cada ano.
Essa nem é bem uma defesa do Brasil, é o que tem levado o eleitor dos EUA a exigir mudanças profundas na economia.
Soberania se faz com plano
Como escreveu na American Compass o economista Michael McNair, o Ocidente sacrificou sua segurança em nome de “eficiências de curto prazo”, deixando a produção industrial migrar para onde a energia e a regulação ambiental eram frouxas. Brasil também se sacrificou.
Em nome de equilíbrio fiscal nunca alcançado e de estabilidade da inflação, que desde a reforma monetária em 1994 não está ameaçada, apesar de não alcançar por 1 a 2 pontos percentuais a meta anual de 3%, praticamos juros nominais e reais recordes no mundo há três décadas, acompanhados de carga tributária sem igual entre países que hoje tiram o sono dos EUA, como China, Índia e muitos outros.
O resultado, não por acaso, é similar: perdemos indústrias, o PIB é movido pelo crédito gravoso, implicando rodadas de renegociação que só amenizam a inadimplência, e por transferências de renda com o orçamento federal deficitário desde 2014, dívida pública subindo a cada ano, e investimentos anuais (cerca de 17% do PIB) que mal cobrem a taxa de depreciação.
E continuamos sem plano para mudar. É isso que importa cobrar dos candidatos nestas eleições, e para responder ao governo Trump sem vergar a coluna.
Não há soberania a defender sem mapa do caminho. No fim, se a petulância de Trump acordar o eleitor, todos podem sair no lucro. Mas não do jeito que os reacionários, os entreguistas e os populistas imaginam. É saber transformar Pix, energia, minerais, indústria e neutralidade geopolítica em poder de negociação e desenvolvimento.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
