Certezas e dúvidas

A necessidade vai moldar os eleitos e não o contrário. A dúvida é se eles serão bem-sucedidos

O país se aproxima de 4 de outubro com algumas certezas e muitas dúvidas, independentemente do presidente eleito e da configuração da Câmara e do Senado. Chegou-se a um cenário em que a necessidade vai moldar os eleitos, não o contrário, como costumava ser.

O dado determinante está na avaliação dos eleitores sobre os dois principais candidatos, Lula e Flávio Bolsonaro: ambos são os mais rejeitados com taxas acima de 40%. Isto significa que as urnas vão refletir uma competição para escolher o menos ruim, salvo se o tal imponderável der as caras e despontar alguma surpresa.

A avaliação dos outros dois poderes constitucionais, o Congresso e o Judiciário representado pelo STF, é ainda mais baixa que a do Executivo, e assim vem há anos. É um quadro complicado pela falta de maioria orgânica do presidente na Câmara e Senado, controlados pela direita e pelo centro desde o fim do regime militar.

O presidente escolhido em 1º turno ou no tira-teima não vai ter o tempo que teve em outros mandatos para formar o seu ministério, aliciar a sua base de apoio parlamentar, e começar a propor ao Congresso as principais medidas. Se demorar, cairá no buraco que já é fundo do Congresso hostil, pela consolidação da direita que não compõe com adversário ideológico e pelo centro e centrão cada vez mais à vontade para pilotar o orçamento a despeito do governo.

O espaço de manobra criado pelo STF com um inquérito sigiloso e sem prazo a pretexto de investigar fake news dificilmente vai ser expandido para a nova legislatura, deixando de servir como “poder moderador” com viés a favor do Executivo. O tempo das lideranças políticas sujeitas a achaques e à sedução da caneta do dirigente de ocasião também é terminal, o que não implica que as práticas daninhas à ordem e à moralidade pública venham a sair de cena.

Essa configuração do poder político reforça as certezas. Entre elas, a mais premente será uma repactuação da governança dos três poderes conforme impõe a Constituição. Quanto às incertezas, elas tratam mais da visão, do método, do apoio que terá e da capacidade do próximo governante do que de sua convicção sobre a necessidade de mudanças.

Vai mudar, seja com o incumbente ou com o desafiante. A dúvida é se elas serão desastrosas ou bem-sucedidas.

Calma aparente é pró-forma

A calma aparente mostrada pelas lideranças políticas de todos os quadrantes do arco ideológico é pró-forma, sem correspondência com a realidade do sistema econômico exaurido em suas possibilidades.

Está sufocado, de um lado, pelo elevado endividamento carregado a um custo superior à geração de caixa, e, de outro, pela demanda sustentada por aditivos de crédito e de transferências de renda, não por crescimento estrutural. Governo sem plano para desatar esses nós tanto dos juros quanto de seus gastos correntes, em meio à fraqueza dos investimentos produtivos, estará batido na largada.

Não basta um bom plano econômico. A pactuação política o antecede até como demonstração de afinco para sustentar a confiança roída.

Sem certeza na capacidade de influenciar o Congresso sem a muleta do Supremo já abalado diante da sociedade, 2027 vai ser terrível.

Presidente eleito a contragosto da maioria, com base parlamentar mais frágil que a atual, com corporações fortes como Receita, PF e Banco Central mais autônomas nem digo por lei mas pela governança fraca do Executivo e a dependência ainda maior do STF para dar alguma racionalidade à gestão do Estado, tudo isso deve dificultar sobremaneira a retomada da normalidade abalada desde a Lava Jato.

Mais preocupante é que sem crescimento econômico robusto movido a investimentos, acompanhado de queda de juros compatível com taxa de inflação estável e contas públicas saneadas, o custo já recorde do endividamento das pessoas, empresas e dos governos regionais tenderá a colapsar. A esta altura, já era para estar em curso um programa de reconstrução, que existe e é viável. Falta adotá-lo.

Sem vez para desafinados

Os candidatos presidenciáveis mais viáveis, o que inclui Lula e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, que fraqueja nas pesquisas pelo seu baixo conhecimento popular, já têm ciência das urgências.

Em linhas gerais, no caso de Lula, há preocupação entre os poucos que restaram em seu entorno com influência e o seu respeito quanto à necessidade de um plano capaz de enfrentar tanto as urgências político-institucionais do curto prazo quanto as transformações de grande fôlego guiadas pela tecnologia e pela nova geopolítica que não deriva apenas de Trump. Ele as incendeia, mas o rearranjo das cadeiras entre as potências globais é maior do que seus chiliques.

Dinamizar um país potencialmente vencedor, com indústria e viés inovador decadentes desde a redemocratização, é missão para os visionários e pragmáticos. Tais atributos não são obrigatórios aos governantes. Basta saber fazer as escolhas certas para tocar a governança nos anos cruciais até 2030, evitar os vetos políticos e ter os argumentos para atrair empreendedores, especialmente mais jovens, já que boa parte da geração anterior perdeu a fé no país.

Neste palco, atores que compreendam que o bolsonarismo não é uma ideologia, assim como o lulismo é maior que o petismo e agregados, devem se sair melhor que os figurinos engessados pelo despreparo.

Soberania é da iniciativa

O governante que ignorar o velho vício da política de pensar suas ações em benefício apenas da própria fração, e não do conjunto da sociedade, já começará mancando. O ritmo rápido das transformações exige antecipar o que já não há como evitar.

Os exemplos são claros na economia. Ignorá-los implica sequelas de ordem social e política, como se constata nos EUA, na Europa, na Ásia e em toda a América Latina. O eleitor vota ressentido e em geral contra o incumbente que não o atendeu. No fim, a política em pauta é social, mas não bem da forma como a interpreta a esquerda que torce o nariz para o desenvolvimento, desconfia do capital privado e se dobrou ao identitarismo. Nem a China lhe serve de inspiração.

É mais fácil encontrar opositores à construção de data centers no chamado progressismo que noutros campos, não obstante a capacidade de computação esteja para a economia atual, toda ela digital, como a geração elétrica esteve no início do século passado.

Tais movimentos já estão tão consolidados no mundo que aqui, com o que a economia digital mais demanda – energia farta e barata, água, reservas inexploradas de minerais críticos e escala de mercado ainda praticamente virgem -, ou fazemos nós ou outros virão fazer. A soberania em causa é a da iniciativa, não retórica.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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