O Brasil tem lado

País carece do Nacionalismo Civilizatório como missão unificadora de propósitos acima de ideologias

Numa das campanhas eleitorais mais rasas em propostas visando o desenvolvimento econômico, tecnológico e social, em que parte da imprensa prefere destacar questões identitárias em vez de assuntos que dialoguem com as urgências do país ao sabatinar os candidatos, o chamado interesse nacional foi deletado do palco principal.

Entende-se por que cada vez mais as discussões de fôlego se dão no ambiente caótico das redes sociais, enquanto a imprensa perde relevância e muitos se travestem de animadores em busca de “likes” para monetizar audiências instagramáveis. Só não se trata de caso perdido porque alguns presidenciáveis não estão tão perdidos quanto os que deveriam ajudar o eleitor a entender suas propostas.

Em círculos menos sujeitos a debates estéreis, organizam ideias e buscam entender o que os espera depois das eleições. Já sabem que nada será fácil e que o artifício das tais narrativas criadas por marketeiros pouca utilidade terá para distrair eleitores cansados de demagogias e das promessas grandiosas que nunca se cumprem.

O mundo entrou numa disputa que definirá quem terá, nas próximas décadas, poder, prosperidade e liberdade de decisão. Deixou-se de competir apenas por mercados. A nova ordem batalha pelo domínio das tecnologias, da energia, das finanças, cadeias produtivas, alimentos, minerais e da infraestrutura digital que organizarão a vida das sociedades neste século. O que os candidatos têm a dizer?

A China avançou porque investiu persistentemente, transformando escala produtiva em conhecimento e depois em aptidão para pleitear a liderança mundial. A prioridade não era consumir, mas produzir.

Os EUA perceberam a tempo que sofriam uma perda grave: não só de indústrias, mas de fornecedores estratégicos, competências intelectuais e segurança econômica. Governos com vieses políticos distintos unificaram-se desde 2016 pela mobilização de subsídios agressivos, crédito facilitado, garantias estatais, proteção de mercados, compras públicas direcionadas e fundos para pesquisa.

Resgataram, com nova roupagem, os mesmos instrumentos utilizados no pós-guerra para construir sua hegemonia e prosperidade. A China adaptou este mesmo mapa. E nós, que começamos antes dela, já nos idos de 1950, perdemo-nos pelo caminho e nunca mais o encontramos.

Escolhas cruciais à frente

A Europa também começou a reagir à expansão dos manufaturados da China, que ameaça a sobrevivência de seu outrora opulento parque automotivo, e à contrarreação dos EUA. O bloco busca conciliar os pilares da democracia, da proteção social, da transição ecológica e da competitividade global. Mas esbarra no custo alto da energia, na fragmentação política e na crônica dificuldade de converter sua imensa poupança interna em investimento puramente produtivo.

O fato é que as grandes potências globais se esforçam para manter um naco da fabricação do amanhã. Isso exige escolhas cruciais dos países de economia emergente, como o nosso, antes que o choque entre as potências nos faça regredir ao subdesenvolvimento.

Ou continuamos como exportadores de commodities, permitindo que nações estrangeiras abasteçam suas indústrias, desenvolvam suas tecnologias e nos revendam bens acabados de alto valor agregado, ou mobilizamos nossa riqueza (recursos naturais abundantes, moeda soberana, energia limpa, mercado interno pujante) para construir a nossa autonomia nacional. O que os candidatos têm a dizer?

Ajudemos com a resposta. Poderiam começar dizendo: “O Brasil tem lado. É o lado do nosso próprio futuro”.

Nem cartórios nem favores

O que significa o país ter lado? Começa por se recusar a escolher entre ser apêndice geopolítico de Washington ou mercado cativo de Pequim. Ou seja: dialogar e firmar parcerias com ambos, estendendo laços à Europa, Japão, Coreia do Sul, Índia, a todos que tratem os nossos interesses com reciprocidade.

Mas com uma diretriz.

Tratados, aportes financeiros e alianças econômicas passarão pelo crivo da capacidade produtiva e tecnológica que forem capazes de adicionar valor ao produto nacional. O critério de avaliação: parcerias que aportem engenharia de ponta, centros de pesquisa, abertura ou ampliação de cadeias locais de suprimento, que gerem presença internacional e empregos qualificados.

Almejamos integrar as cadeias globais de valor, sem abdicar do controle estratégico sobre o que for vital para a segurança nacional e o nosso desenvolvimento sustentável.

Esta é a essência do Nacionalismo Civilizatório, expressão de uma síntese dos propósitos que movem um país. Há tempos não temos uma missão unificadora acima de ideologias, se é que chegamos a ter.

A ideia não se confunde com o nacionalismo insular e anacrônico, que fecha fronteiras por temor à concorrência global. Tampouco se assemelha ao nacionalismo cartorial, focado em blindar privilégios corporativistas, distribuir favores políticos e perpetuar negócios ineficientes. Trata-se de nacionalismo soberano, aberto ao mundo, democrático, produtivo e radicalmente inclusivo.

Compromissos que importam

Falamos em civilizatório porque esse conceito avalia o progresso não pelo volume do PIB, mas pela qualidade da tessitura social que erguemos: excelência na educação, saúde universal, segurança pública, moradia digna, liberdade individual, equidade de oportunidades e obediência às instituições democráticas.

Nacional porque compreende que não desfruta de liberdade plena quem depende do exterior para o suprimento de energia, alimentos, medicamentos essenciais, redes digitais e insumos tecnológicos.

Inclusivo porque o crescimento econômico só adquire legitimidade quando eleva as condições de vida da população e faz com que os ganhos reais de produtividade cheguem indistintamente a todos.

Produtivo porque rejeita a ilusão da riqueza apenas financeira em detrimento da riqueza real, fruto de atividades que constroem.

Temos um arranjo financeiro sofisticado e expressiva capacidade de poupança potencial, ancorada em bancos robustos, gestoras de recursos, fundos de pensão, seguradoras e um mercado de capitais estruturado. Mas parcela desproporcional desses ativos permanece ancorada em operações de curtíssimo prazo, na mera aquisição de patrimônios preexistentes e em estratégias de proteção rentista.

Está aí o conjunto que lapida uma candidatura em torno de anseios reais, expressos pelo Nacionalismo Civilizatório, ou seja lá que nome se queira dar, desde que o capital volte a edificar o país.

Ah! E se comprometa a exterminar o mundo de custos supérfluos que oneram o empreendedor, como IOF no crédito, taxas com o único fim de bancar estruturas estatais (vistoria predial etc.), ônus de cartórios (aliás, para que ainda existem? Para prover o orçamento dos tribunais estaduais?) e tantos outros.

Mais pé no chão e menos abstração, em suma. O que os candidatos têm a dizer?

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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