Quando a governança falseia, o vírus do oportunismo se entranha em tudo e se torna epidêmico

Evidências terminais

O Brasil não capenga por faltar plano, capital ou mercado. O que embaça a visão é a insistência em operar com o Estado e o sistema econômico desenhados para um mundo que já acabou. Se fizéssemos a autópsia da economia das últimas quatro décadas, constataríamos o impulso do crescimento nutrido a transferências de renda, crédito e subsídios, uma tríade que se exauriu e nos afasta do progresso.

Os fatos desabonadores da ética e da moral que voltam a aparecer, das relações espúrias dos condutores das instituições ao escândalo sem fim do tamborete Master, são sintomas desse quadro de ocaso da governança do Estado, sobretudo do manuseio dos dinheiros públicos e da rede de supervisão criada para monitorar o seu uso e destino.

Quando a gestão falseia, o ambiente se torna tóxico, os meios não mais justificam os fins, o vírus do oportunismo se entranha pelo organismo social e se torna epidêmico. Tudo vira custo insanável.

O episódio recente envolvendo a plataforma chinesa de comércio online Shein é um bom teste de estresse dessa realidade. A Shein anunciou, com pompa, a intenção de transformar o Brasil em um polo regional de produção, mobilizando milhares de fornecedores locais e dezenas de milhares de empregos. Pouco tempo depois, recuou. Não por faltar demanda ou capital, mas porque as confecções nacionais não conseguiram entregar preço, prazo e qualidade, como apurou uma ampla pesquisa de campo da agência de notícias Reuters.

O chamado Custo Brasil, reunindo crédito caro, tributos abusivos, burocracia espessa e logística deficiente – sequelas de carência de governança pública e de visão de longo prazo – falou mais alto.

As tais ‘blusinhas’ importadas da China voltaram a sê-las mas com mais imposto a pretexto de proteger a produção local. Deu errado.

E não funcionou não porque haja diferenças culturais entre fazer na China e fazer no Brasil. O problema não é cultural, empresarial ou moral. É sistêmico. Uma empresa global, acostumada a operar no limite extremo da eficiência, esbarrou num ambiente que transforma tentativas de produção local em apostas de alto risco.

Argentina também é aqui

O travamento estrutural ajuda a explicar um dado desconfortável lembrado recentemente pelo economista Fabio Giambiagi: nos últimos 35 anos, o crescimento do PIB per capita foi tão medíocre quanto o da Argentina, 1,3% ao ano. Avançamos em frentes importantes, como a da inflação e da vulnerabilidade externa. Mas, quando se olha o bem-estar material médio da população, a sensação é de estagnação.

Aqui entra um ponto decisivo e politicamente sensível. O Brasil cresceu conforme os ciclos globais, mas o desenho do crescimento foi regressivo. O topo da pirâmide se beneficiou de juros altos, renda financeira e ativos indexados. A base mais pobre encontrou proteção em programas de transferência de renda e subsídios. Quem ficou espremida foi a classe média – essa enjeitada recorrente da política.

Ela foi e continua sendo pressionada simultaneamente pelo custo do crédito, pela inflação de serviços e uma cascata de despesas obrigatórias e, especialmente, as semiobrigatórias invisíveis.

Essa dinâmica não é apenas nossa. No artigo The Boomcession, uma fusão de expansão com recessão, o economista Matt Stoller conta como os EUA convivem hoje com crescimento estatístico e frustração social profunda. “Os modelos usados pelos formuladores de política para entender salários, crescimento e consumo são enganosos”, diz.

“Por isso a América corporativa faz uma festa com seus lucros em alta, enquanto a população está furiosa.” Tal análise se encaixa, com impressionante precisão, na realidade brasileira.

Meses cada vez mais curtos

O dado politicamente relevante não é o PIB agregado nem a renda média. É a renda disponível real, mas não a calculada pelas contas nacionais, que desconta apenas impostos diretos e sim a que sobra depois dos gastos obrigatórios.

Tal como no orçamento público as despesas discricionárias são comprimidas pela despesa obrigatória, o consumo discricionário das famílias é esmagado pelo avanço de custos inescapáveis, embora tratados como se fossem dispensáveis.

Mesmo quando a renda sobe, a margem de manobra diminui. É o plano de saúde reajustado acima da inflação, condomínio inflado pelo que não se pode abrir mão, as tarifas financeiras, o IOF em qualquer tipo de crédito, serviços oligopolizados que aumentam os preços à revelia do bom senso. São gastos que não podemos evitar, embora as análises oficiais os desprezem, e depois os analistas que tentam interpretar o sentimento social não sabem decifrá-lo.

Funcionam, na prática, como “imposto privado”, cobrado não pelo Estado, mas pelo poder de mercado. Stoller chama isso de economic termites – ‘cupins econômicos’ que corroem silenciosamente a renda disponível. Eles aparecem como “consumo” e “crescimento” nos dados oficiais, mas não geram bem-estar proporcional. Nos EUA. Aqui…

O resultado é a sensação difusa de aperto permanente: a economia cresce no papel, enquanto a qualidade de vida real encolhe.

O descompasso ajuda a entender o mau humor social persistente e o cansaço com a política. O eleitor não reage a discursos sobre PIB, mas ao que sobra no mês. E os meses estão cada vez mais curtos.

A classe média desidratada

Como o mundo está mudando de forma acelerada, o problema vem se agravando e a violência vem num crescente. Como diz o visionário inglês Azeem Azhar, estamos diante de uma atualização do “sistema operacional da civilização”. A energia, a inteligência, a biologia migraram de um regime de escassez para curvas de aprendizado, nas quais os custos caem e as capacidades se expandem em escala.

Países formados por instituições desenhadas para um mundo lento, analógico e extrativo tornam-se gargalos. Para si próprios e para quem tenta investir neles. Corremos esse risco. Não estamos sendo explorados pelo “mundo novo”. Estamos sendo ignorados por ele.

Conclusão: sem reduzir estruturalmente o custo do crédito, sem aliviar o peso efetivo dos impostos por meio de maior eficiência do gasto público, sem desburocratizar os três níveis federativos, sem orientar a gestão pública a maximizar a renda disponível das famílias e a taxa de retorno das empresas, não haverá indústria revigorada, nem crescimento sustentado, nem aumento do bem-estar.

E, agora, o ponto incômodo. Nosso modelo atual não é bem contra ricos, nem abandona completamente os mais pobres. Ele desidrata, silenciosamente, a classe média, e celebra números que não dizem nada sobre a vida real. Quando o crescimento vira estatística e o custo de vida vira destino, o problema não é comunicação política.

Persistir nele, esperando resultados diferentes, é mais do que ingenuidade. É recusar-se a admitir que a governança política que nos trouxe até aqui já não serve para nos levar adiante – e que outra precisa ser construída. Pense nisso quando for votar…

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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