Porcarias masters
O Brasil voltou a gastar energia demais com o que menos importa. O escândalo do Banco Master, com seus desdobramentos grotescos, personagens previsíveis e sua sucessão de fatos constrangedores, tornou-se o centro de um debate ruidoso, mas raso. Há indignação, há histeria, há tentativas oportunistas de capitalização política. O que não há é reflexão estratégica.
O episódio é grave. Expõe fragilidade regulatória, promiscuidade institucional e cultura de irresponsabilidade que se repete com assustadora regularidade. Mas o problema maior não está no banco em si, nem nos seus operadores. Está no fato de que, mais uma vez, o país se deixa capturar por um escândalo episódico, ignorando as transformações estruturais que redesenham a economia global, a geopolítica e o próprio sentido de desenvolvimento nacional.
Enquanto nos entretemos com o tamborete da vez, o mundo discute trilhões de dólares.
Trilhões de dólares em eventos reais, mensuráveis, já alocados ou comprometidos. Um trilhão de dólares em pagamentos anuais de juros da dívida dos EUA, algo inédito. Um trilhão de dólares em gastos militares só nos EUA. Um trilhão em investimentos globais em inteligência artificial e data centers, concentrados sobretudo nos EUA e na China.
Um trilhão em pesquisa e desenvolvimento (P&D), com a China prestes a igualar, ou superar, os EUA nesse esforço. Um trilhão de dólares em superávit comercial chinês, fruto de uma estratégia deliberada de avanço industrial e tecnológico.
Não se trata de retórica. Trata-se de poder econômico, capacidade produtiva, alcance geopolítico e definição de futuro. Os grandes movimentos do nosso tempo não são sutis. A economia global deixou de ser guiada só por eficiência marginal e voltou a ser organizada por poder, escala e controle de capacidades estratégicas.
Energia barata e farta são fatores decisivos de competitividade. Capacidade industrial voltou ao centro econômico. Goste-se ou não, o Estado reassumiu papel central como indutor, financiador e organizador de grandes projetos nacionais. No novo mundo, países que não pensam grande serão pensados pelos outros. Pense nisso…
Política do perde-tempo
É aqui que o escândalo do Banco Master deixa de ser apenas caso policial ou financeiro e passa a ser sintoma político. Ele revela um país cuja elite dirigente – política, econômica e institucional – está mais preocupada em governar crises que em formular rumos. Mais ocupada em apagar incêndios do que em construir futuro. Mais confortável no improviso do que no planejamento.
Essa dispersão se torna ainda mais perigosa quando observamos o cenário pré-eleitoral. Entramos no ano decisivo de uma eleição que definirá não apenas um governo, mas a orientação do país diante da mudança histórica do sistema global. Mas o debate público segue empobrecido. De um lado, uma candidatura à reeleição que governa no curto prazo, reagindo aos fatos, sem oferecer uma visão clara de transformação produtiva. De outro, uma oposição fragmentada, hesitante entre nostalgias, personalismos e disputas internas, incapaz de apresentar um projeto de país coerente e mobilizador.
Nesse vácuo, as narrativas de crise institucional se sobrepõem à necessidade de debates estratégicos sobre o progresso. Discute-se quem errou, quem se omitiu, quem se beneficiou. Raro é discutir o essencial: como o Brasil vai crescer, com que base produtiva, com que inserção global e com que horizonte tecnológico. É a política do perde-tempo.
Mediocridade confortável
O mundo não vai esperar que resolvamos os nossos escândalos. As grandes economias estão investindo pesado em reindustrialização, em infraestrutura energética, em tecnologia de fronteira, em novos arranjos financeiros. Organizam consórcios, fundos, políticas de longo prazo. Disputam mercados, cadeias de valor e influência.
E nós? Nós discutimos migalhas.
Nada disso implica minimizar o combate às irregularidades, punir culpados e fortalecer instituições. Muito ao contrário. Um país que ambiciona valorizar-se no mundo precisa de instituições sólidas, previsíveis e respeitadas. Instituições, porém, não são um fim em si mesmas. Elas existem para permitir que a sociedade funcione, produza e prospere. Quando o debate se reduz à gestão permanente de escândalos, algo está profundamente fora de lugar.
Nós precisamos urgentemente passar do modo reativo para o modo estratégico. Isso exige mudança de atitude das elites políticas, empresariais e intelectuais. Exige abandonar a confortável mediocridade do debate curto e assumir o risco de pensar grande.
Exige reconhecer que o atraso acumulado não será superado com slogans, com ajustes marginais nem com disputas morais seletivas. Será superado com um programa claro, mensurável e executável de desenvolvimento, capaz de articular o investimento produtivo como vantagem competitiva, a reconstrução industrial e uma inserção internacional menos passiva e mais assertiva.
Tempo histórico sem perdão
O Master vai passar. Outros virão. Porcarias sempre vêm. A diferença estará em saber se o país seguirá refém da próxima distração ou se usará o tempo político para organizar um projeto consistente de futuro.
A história é impaciente com países distraídos.
Certo é que nada avançará se o debate ficar restrito ao Estado, aos partidos e às disputas palacianas. O ciclo de desenvolvimento que precisamos inaugurar não nascerá apenas de governos – nascerá, sobretudo, da mobilização coordenada de empreendedores, investidores e gestores públicos, com objetivos, prazos definidos e métricas verificáveis.
Os países que investem trilhões não esperaram consensos abstratos nem unanimidades políticas. Criaram plataformas de investimento, consórcios empresariais, fundos de longo prazo, parcerias público-privadas robustas e regulações que reduzem risco, ampliam escala e aceleram decisões. O capital é protagonista, não figurante.
Dispomos de ativos raros: energia farta e limpa, mercado interno relevante, base empresarial diversificada e capacidade tecnológica maior do que a caricatura do atraso sugere. Falta-nos organização estratégica, coordenação entre os atores e horizonte compartilhado de futuro que vá além do ciclo eleitoral.
É nesse ponto que a discussão precisa mudar de patamar. Menos escândalo como entretenimento. Menos política do perde-tempo. Mais projeto, mais investimento real, mais compromisso com resultados. Não precisamos de salvadores nem de retórica rebuscada. Precisamos de um pacto pragmático de prosperidade, que alinhe Estado, capital e sociedade em torno do que realmente importa.
O tempo histórico não perdoa países distraídos. Mas recompensa, e com generosidade, aqueles que decidem agir. Então, como vai ser?
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
