Outro mundo à vista
De uma conferência do clima com um petroestado como anfitrião não se esperava mais que retórica inflamada e eventos midiáticos sobre a emergência climática por ambientalistas performáticos. O roteiro da COP28 em Dubai, Emirados Árabes, grande produtor de petróleo e gás, tendia para outro malogro, mas a força da mudança – que ganha tração no mundo – pela primeira vez se impôs.
O documento final de 21 páginas do encontro inovou, contrariando o dono da casa, os governos saudita, iraniano, indiano (um grande produtor de carvão), russo, a OPEP e seus agregados, como Brasil, se a intenção de Lula prevalecer, reforçados por mais de dois mil lobistas de petroleiras. Essa gente fez muita guerra pelo que um dia foi chamado de ouro negro e hoje tende ao desuso irrevogável.
Bastaram dois trechos curtos no documento para se falar em acordo histórico: “a transição” para “reduzir o consumo e a produção de combustíveis fósseis de uma forma justa, ordenada e equitativa, de modo a atingir o zero líquido até, ou antes, por volta de 2050, de acordo com a ciência”. É muito pouco, e nem se falou em ajudar as nações pobres a suportar o custo da adaptação climática. Mas foi muito: o poder dos petroestados e das petroleiras está desafiado.
O resultado da COP28 endereça a duas dimensões. Uma é óbvia: há disposição crescente no mundo para enfrentar a ameaça climática. A outra é que o capital privado já apreciou os negócios das energias limpas e gostou dos resultados. Eles têm sido promissores.
Isso importa ao Brasil, potência em energia renovável, mas sem a visão sobre como envolver neste processo a necessária modernização da indústria, que já tendia à obsolescência por estar defasada e cada vez mais limitada a montar componentes importados que deixou de fabricar há muitos anos. De exportadora virou maquiladora.
Garantido, e os dados abaixo vão constatar, é que sem estratégia para tirar proveito do diferencial da geração de energias limpas – fincadas nas hidrelétricas e cada vez mais nas usinas eólicas e solar -, a economia vai minguar. A nova economia já despontou nos EUA, na Ásia e na Europa, pautada pelo risco do colapso climático e orientada por tecnologias disruptivas. A direção é de mão única.
Os vilões estão condenados
Tome-se três dos maiores vilões da crise existencial que permeia as discussões de todas as COPS, desde a primeira, em 1995, quando carro elétrico só existia na cabeça de visionários e energia solar era astronicamente cara. Falo de gasolina, diesel e carvão.
A substituição de veículos com motor a combustão por baterias ou híbridos (tecnologia de transição) já evita a queima de 1,8 milhão de barris dia, segundo estudo contínuo do BloombergNEF, ou 2% da oferta global de petróleo este ano. Trata-se de uma tendência com crescimento exponencial: avançou seis vezes desde 2015. Até 2035 a projeção é que economize 12,4 milhões de barris/dia, ou até antes.
O carvão na geração de eletricidade também está na expulsória das matrizes energéticas. Depois de aumentar 33% entre 2004 e 2014, o consumo mundial de carvão ficou estagnado até 2022, conforme dados do Our World in Data, da Universida de Oxford. No mesmo período, 2014 a 2022, a produção de energia eólica (onshore e offshore) e solar (fotovoltaica e termal) triplicou (289%). O importante é que o grosso dos investimentos tem sido de origem privada.
No ano passado, mais de 80% dos investimentos em nova capacidade de geração elétrica foram dirigidos a usinas solar e eólica, diz o think tank de pesquisas RMI, dos EUA, o que engloba o Brasil. Aqui eólicas em operação e projetadas geram o equivalente ao dobro da usina de Itaipu, segunda maior do mundo, e o ritmo vem subindo.
A transição é insofismável
Os dados da transição energética gerada por fontes renováveis são insofismáveis e vão se impondo sobre os céticos, ainda muitos, apesar das evidências a olho nu da mudança climática, e de lobbies que tentam ganhar tempo com ações de propaganda ou regulatórias.
Incluem-se nesse caso os enxertos suspeitos inseridos no projeto de lei votado na Câmara para regulamentar as eólicas em alto mar, na expectativa de que o distinto consumidor seja idiota.
Estendeu-se garantia de subsídios a usinas de carvão, com compra compulsória da energia até 2050. Pequenas hidrelétricas, termos a gás e até uma usina de hidrogênio a etanol foram enxertadas no PL (esta a um custo de R$ 28 bilhões para gerar 250 MW, quase seis vezes a mais que a contratação de 300 MW de diversas eólicas).
Quem pagará por isso? Você, eu, nós, algo como R$ 25 bilhões ano de subsídios a tecnologias obsoletas e poluentes rateados na conta de eletricidade de cada consumidor. Este é um flagrante do atraso.
A falta de estratégia para a nova economia sustentável vem da omissão do governo e do baixo conhecimento no Congresso sobre a gravidade da emergência climática e de suas possibilidades.
Omissão na raiz do atraso
O fato é que a pauta das COPs não cuida apenas de meio ambiente e da mudança da ordem produtiva para um modelo sustentável. Seu pano de fundo é sutil: cumprir as metas climáticas força a mobilização de capitais estacionados em papéis ou aplicados em gasto público ocioso. Trata-se, com pragmatismo, de pôr para rodar o hot money.
É para isso o que chama atenção estudo do Goldman Sachs divulgado na sexta-feira com o título “descarbonização está num ponto de inflexão”. Em sua retaguarda está, segundo o estudo, o início de “forças deflacionárias” no mundo, o que não apenas vão acelerá-la (a descarbonização), mas torná-la mais atraente ao consumidor”.
Para o Brasil, com a economia dependente de exportações de grãos e minérios para a China, um dos focos da geopolítica estilhaçada, com a industria manufatureira em fase terminal e enorme vantagem competitiva na geração limpa de energia, tal inflexão é decisiva.
Mais que riscos monetários e fiscais, dando a impressão de que no país está tudo resolvido, o que preocupa é saber que o consumo per capita de aço, de 106 quilos por habitante, é o mesmo de 1980, com o agravante de a importação do brutal excedente chinês ameaçar a viabilidade das siderurgicas nacionais. Não é só.
O consumo per capita de cimento, cerca de 267 kg por habitante, é menor que o da Espanha (681 kg), Japão (626 kg), EUA (359 kg), China (404 kg/hab), países onde sem-tetos são raros e quase tudo é asfaltado. Consumo per capita de eletricidade também é baixo.
Isso significa subdesenvolvimento, omissão de planejamento. No limite, é a razão de tanto pobreza e de pouca mobilidade social.
Enxergar a dimensão ambiental pela ótica do desenvolvimento não é devaneio, é a ultima chance de superarmos a mediocridade geral.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
