Tese contra a mesmice
Um movimento tênue, mas crescente, envolvendo aportes de capital, ou compromissos de participação, em projetos de investimentos com maturação no médio prazo toma corpo em alguns setores da economia. É um indicativo de um princípio de descolamento da dominância dos embates políticos entre governo e Congresso e de riscos fiscais.
Trata-se, na economia real e em segmentos do mercado de capitais, de uma variante do mesmo cansaço identificado na sociedade com as mesmices de análises econômicas, especialmente a dominância fiscal nos textos e entrevistas dos ministros do governo e de economistas mais ouvidos pela imprensa, e, também, com a polarização política.
Notícias como o acordo negociado pela CSN do empresário Benjamin Steinbruch para avaliar a compra do grupo cimenteiro InterCement, ex-Camargo Corrêa e segundo maior produtor do país, se inserem em tal movimento. Se for concluído, envolverá valores da ordem de R$ 6 bilhões, cifra que implica confiança numa retomada mais célere do crescimento econômico para frente. É o caso também da captação de R$ 1,8 bilhão do fundo de investimento imobiliário da XP, com pessoas físicas subscrevendo 65% das cotas ofertadas.
Em situação de normalidade política, notícias como estas teriam mais visibilidade midiática que a pauta convencional sobre dados de inflação, déficit primário e reuniões do Copom. São números incômodos não pelo tamanho nem pelo seu viés, mas por reforçar uma rotina de expansão do gasto público corrente desde sempre.
A novidade que se vai insinuando embute algum pragmatismo de quem administra carteiras de investimentos em participações acionárias. Eles enxergam o quê? Duas constantes se apresentam nesta tese.
A primeira é que o Brasil se tornou o último biscoito do pacote de oportunidades globais. Tem uma economia grande entre os países emergentes, um mercado potencial de massa mal explorado e não faz mais e melhor pelo voo baixo de lideranças políticas antiquadas e a mistura de ceticismo com acomodação de parte do empresariado.
A segunda deriva da primeira: com o mundo conturbado, os males do Brasil se apequenam diante do potencial. Essa tese para de pé.
O momento de atenção
As transformações quanto ao futuro imediato do país são visíveis entre gestores mais ativos do segmento de fundos de investimentos em participações (FIP), ou fundos de private equity. Eles assumem premissas validadas pelos seus investidores de referência: uma combinação de famílias ricas, gestores bem-sucedidos que se tornam investidores de longo prazo e outros fundos, em geral de fora, em busca de diversificação de seus portfólios e experiências.
A certeza que os move é que só um cataclismo político de grandes proporções impedirá a continuidade da prioridade dos projetos de infraestrutura, entre novas fontes de energia, logística de todos os tipos, obras de saneamento, tecnologia digital etc.
Boa parte da certeza é que o funding para tais projetos dependerá menos de dinheiro público como no passado. A outra ainda é mais uma aposta: que grandes reformas serão feitas a partir de 2026.
Aos que confiam neste cenário, entre os quais me incluo, a data de corte para reavaliação dos ativos nacionais será mais para fim do ano, influenciada também pelo resultado das eleições municipais – indicador político antecedente para a sucessão presidencial e o tamanho das bancadas da nova legislatura federal.
Nestes termos, o momento de atenção nas oportunidades é agora. Os valores são portentosos. Só para universalizar o acesso a água e esgoto até 2033, meta aprovada pelo Congresso, o investimento será da ordem de R$ 525 bilhões, dos quais, segundo projeção da Abdib, quase R$ 200 bilhões estão abertos, e R$ 44,5 bilhões concedidos.
Quem sabe faz a hora
Enquanto o noticiário exibe uma série de confusões na política e desgraças ambientais, policiais, de saúde (alô, dengue!) etc., no silêncio, empresas que acreditam na tese do progresso à revelia da letargia estatal estão crescendo, ocupando espaço e lucrando.
No bairro do Brás, em São Paulo – um cluster de 5 mil lojas tanto de comércio popular quanto de atacado, ocupando 55 quarteirões -, os gigantes de e-commerce Shein e Mercado Livre se digladiam para afiliar lojistas numa área pouco digitalizada. Ambas disputam um mercado de US$ 3 bilhões anuais e que atrai, em dias de pico, 300 mil compradores por dia.
Não esperaram Sebrae e outras agências de apoio ao pequeno empresário. Elas organizam eventos de treinamento de técnicas de venda online. Shein montou um estúdio de comerciais com modelos próprios para exibir os produtos dos lojistas da área.
Movimentos assim explicam o dinamismo econômico do novo mundo dos negócios digitais, algo muito mal compreendido por economistas e a liderança política no país. O governo se espantou com a repulsa de motoristas de aplicativos à regulamentação desse tipo de trabalho da chamada economia “gig”, apegado a práticas do mundo analógico.
A verdade é que por trás não há apenas big techs, mas “inovações criadoras de mercado”, como as definiu o professor de gestão de Harvard Clayton Christensen (morto em 2020), autor da teoria da inovação disruptiva em seu livro O Dilema da Inovação. É preciso atentar para isso. Os investimentos para aumentar a produtividade da economia tendem a dispensar empregos e não em ampliá-los.
A solução vem de inovações que atendem o consumidor excluído e criam empregos. “Elas constroem empresas e países”, diz a tese.
Sem amigos importantes
O avanço digital é o abre-alas do desenvolvimento reinventado – e também das tensões geopolíticas que sacodem o mundo. Ignorá-lo é o caminho mais curto para a irrelevância. Mas há tempo para mudar.
Na vizinhança, Colômbia se projeta como um ninhal de fintechs, e lá como cá sem ter a devida atenção dos governantes. Na Argentina, sempre em tumulto político, Mercado Livre se expandiu dando banana a programas estatais e subsídios. Chile, idem. E aqui o movimento de inovações nem sequer é noticiado. Melhor para quem acredita e faz, já que gasta menos e cresce sem quase nenhuma concorrência.
É o que talvez justifique pesquisas recorrentes do Ipsos sobre o ambiente político e social na América do Sul destacarem a empresa privada no ranking das instituições mais confiáveis. Nosso setor privado parece desconhecer seu conceito. Sem problema: a turma da nova geração está chegando. E não se importa em não ter amigos importantes em Brasília.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
