Motivos dos ataques de Lula aos juros altos não foram resolvidos, mas a febre do dólar diminuiu

Dias de fúria

Dos ataques do presidente Lula aos juros altos, que julga ser maquinação do Banco Central independente em conluio com especuladores do mercado financeiro, sobraram o espanto da taxa de câmbio chegando a irreais R$ 5,70 e a certeza de que cabeça quente e impulsividade são uma combinação com consequências desastrosas.

Aparentemente convencido por economistas reunidos pelo ministro Fernando Haddad a maneirar os seus ataques contínuos ao BC e permitir o anúncio de algumas promessas para desacelerar o ritmo dos gastos públicos, Lula se aquietou, e o dólar refluiu.

Atribuiu-se a insatisfação presidencial a pesquisas indicando que a opinião média do cidadão segue desfavorável ao governo, apesar de indicadores razoáveis sobre o nível de emprego e de renda, com implicações para os candidatos petistas nas eleições municipais, em outubro.  Isto pode ter sido o fato detonador, não a causa.

Intuitivo, o presidente sabe que há muitas esquisitices. O custo do crédito, formado em parte pela taxa Selic definida pelo BC a partir da meta de inflação definida pelo seu próprio governo, é uma das fontes do mal-estar que carcome as entranhas econômicas e sociais, mas não explica tudo e talvez seja a menos relevante.

Importante foi a demora para entender que a orientação de seus assessores políticos a voltar a pautar o noticiário, até então sob controle da oposição e dos chefes do legislativo, depende muito da pauta. Questões de juros e contas fiscais, ligadas umbilicalmente ao mercado de divisas, não se prestam a proselitismos políticos.

Tais temas são postos em baila quando há propostas para comunicar ou ideias a debater. Não é bem a autonomia do BC uma dessas pautas críticas para a melhoria dos instrumentos da macroeconomia até por ser dependente de orientação superior do CMN, o Conselho Monetário Nacional, liderado pelo ministro da Fazenda. Quantos sabem disso?

Poucos. A omissão do CMN é um indicativo da incompreensão sobre o seu papel na governança da macroeconomia. Tanto quanto do presidente do BC falar sobre política fiscal, um tema fora de sua alçada. Ou a timidez de seus pares na autarquia, todos com iguais direitos e mandato, não submetidos a regras de hierarquia durante, por exemplo, as votações do Comitê de Política Monetária (Copom).

Nem tão feia nem fulgurante

A realidade não é tão feia quanto os movimentos mambembes da taxa cambial nos últimos dias quiseram sugerir, supondo que os voleios dos traders do mercado financeiro a cada bronca de Lula esvaneçam, nem fulgurante quanto ele quer fazer crer. O problema para valer é sério, mas o juro de dois dígitos é mais consequência que causa.

O juro à vontade do carregador do estoque dos papéis de dívida do Tesouro Nacional mudará de mãos quando seu total deixar de crescer no piloto automático. Como proporção do PIB, a dívida bruta hoje é de 76,8%, 4,6 pontos percentuais acima do nível de um ano atrás.

Que Lula fosse um presidente mãos de tesoura e pouco poderia ter feito para segurar esse ritmo. Contra a vontade de Bolsonaro, foi o que o ministro Paulo Guedes fez por um tempo. Mas o fez em cima da coxa, trancando aumentos salariais do funcionalismo, retendo concursos públicos e atrasando administrativamente os pedidos de aposentadoria e pensões. Não houve nada estrutural, tal como também não houve no governo Temer, já que o teto de gastos era o que diz o nome, um teto, não uma reforma do sistema público.

O estilo fiscal de Lula, portanto, não difere muito das gestões anteriores, o que inclui seus dois primeiros governos e de Dilma. O que o atrapalha é a boca, ao querer renomear categorias de gasto com saúde e educação como investimento, cujo conceito significa aumento da entrega de bens e serviços públicos e privados, e dizer que não fará ajuste do orçamento cortando despesa social. Não deve cortar mesmo, o que não significa que não haja o que aprimorar.

Copom e Tesouro em sintonia

Se dividirmos o tempo até a próxima eleição geral em 2026 em três blocos, sendo o curtíssimo prazo este ano, curto prazo ano que vem e médio prazo até a virada para 2027, as coisas ficam mais claras.

O mandato do presidente do BC, Roberto Campos Neto – que Lula pôs na categoria de desafeto depois que foi votar vestindo camiseta da Seleção, um símbolo nacional apropriado por Bolsonaro -, acaba no fim do ano. O quanto antes indicar seu substituto ao escrutínio do Senado e ele se impuser aos críticos, mais autonomia em relação ao mercado ambos terão. É o que há para fazer no curtíssimo prazo.

Mais que isso apenas se Haddad for autorizado a contingenciar um volume gordo de despesas da lei orçamentária atual, algo da ordem de R$ 40 bilhões. Não vai, mas vale a intenção, até para não se desperdiçar a imagem de bom moço cultivada por parte da imprensa.

Em paralelo, o CMN poderia ser ampliado para Conselho Monetário e Fiscal Nacional, CMFN, pondo o secretário do Tesouro ao lado dos ministros da Fazenda e do Planejamento e do presidente do BC. As duas políticas são complementares uma da outra e não adversárias.

Para inovar com substância, poderia também ser criado um conselho consultivo de economistas notáveis em ambas as áreas, dois a três, para não virar plenária de partido, e uma primeira missão: passar a limpo os modelos analíticos e prospectivos usados pelo Copom.

Só se queixar não resolve

Ah! Vale também a área de controle dos projetos de infraestrutura atentar para a exaustão de balanço dos candidatos a participar dos leilões agendados de concessões de rodovias, saneamento e outros.

Os últimos 30 anos de juros colossais exauriram as finanças dos investidores potenciais para algo mais do que exige o Tesouro para emitir e refinanciar seus títulos, um sugadouro da tesouraria de bancos e empresas. É duro, além disso, disputar o funding de quem recebe IPCA+6% praticamente sem riscos. Depois da crise da Lava Jato, as grandes da construção se foram e os bancos se fecharam.

Restaram empresas boas, sem dívida nem passivo reputacional e com bom acervo técnico, mas pequenas para o que se impõe. Há soluções para além da discussão sobre juros, cuja saída é mais estrutural e possível a médio prazo. O governo precisa aconselhar-se com quem lhe possa suprir a carência de estratégias financeiras. Com jeito e pragmatismo, muito mais pode ser feito. O que não dá é fazer da queixa um meio de vida sem nem ao menos tentar ser diferente.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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