O tamanho do buraco
Na semana em que pesquisa do instituto Quaest diz que a taxa de desaprovação do governo Lula chegou a 57%, crescendo 1 ponto de percentagem sobre a sondagem anterior, que 65% e 66% dos ouvidos, respectivamente, manifestam que Bolsonaro e Lula deveriam pendurar a chuteira, uma notícia policial publicada sem alarde nos jornais ajuda a entender o buraco em que estamos enfiados.
“Piloto preso com 400 kg de cocaína é absolvido após Justiça considerar abordagem ilegal”, diz matéria da Folha de S.Paulo da última quinta-feira, seguida do subtítulo: “Juiz Luciano Silva, da 2ª Vara Federal de Araçatuba, entendeu que não havia fundada suspeita para a abordagem da aeronave”. Não foi notícia isolada.
Dias antes também surpreendeu a decisão de um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio liberando um cantor ligado ao tráfico preso pela polícia sob o argumento de que não foram observados os preceitos corretos no mandado do juiz de primeira instância. Mas também não foi uma exceção. De tão recorrentes, tais notícias já começam a nem ser publicadas. Ou saem como notinha de rodapé.
Exemplo: mulher delatou traficantes que mataram o seu marido e a expulsaram de uma favela em São Paulo. A polícia e o Ministério Público pediram a prisão dos criminosos e o Judiciário indeferiu o pedido, segundo texto do Cidade Alerta, noticiário da Band, única a registrar a bizarra decisão. E o que aconteceu? A mulher, até agora outra vítima anônima, foi morta logo depois.
Nada dessa fieira de eventos tenebrosos foi fruto do acaso, nem decorre de a pessoa estar na hora e local errados. Trata-se de um viés que vem de longe e foi aos poucos sendo normalizado, como se não houvesse o que fazer a não ser redobrar a violência policial.
Já se vão quinze anos, até mais, quando um promotor e um delegado da polícia civil de São Paulo vieram a público alertar que o PCC estava recrutando jovens nas periferias urbanas com a promessa de pagar colégio, cursinho e vestibular, se se dispusessem a cursar Direito e participar de concurso para juiz e procurador do MP. Ou eram orientados a entrar em partidos e disputar eleições.
Havia precedentes: o crime organizado se infiltrou na política, no Judiciário, na economia e nas forças policiais do México assim.
“Protetores” de traficâncias
Esse foi o alerta feito lá atrás, precedido de estudo acadêmico por um pesquisador da Universidade de Boston, e ninguém quis dar atenção. Vê-se o tráfico como um bando de jovens malnutridos, de chinelo de dedo, peito nu, portanto metralhadora. Não veem, nem investigam, os chamados “protetores”, a face invisível do crime organizado. Estão em toda parte, inclusive no mercado financeiro.
Não se combate tal infiltração, cada vez mais sofisticada – como a ostentação de riqueza por influencers em redes sociais indica o propósito de seduzir e aliciar a juventude mais pobre para o crime -, apenas com polícia e justiça. Nem com leis nominalmente duras, mas apenas para os apenados desprovidos de “protetores” poderosos.
A verdade, teimosamente ignorada, é que o crime em massa prospera onde a administração do Estado há algumas décadas virou manguezal. Em suma, o Estado paralelo toma forma e finca raízes onde o Estado oficial perdeu sua capacidade de prover as funções básicas para o qual existe e é bancado pela população. Não se cumpre a sua função de prover segurança apenas com leis e o poder de polícia.
Dar título de propriedade a moradores de ocupações irregulares, retificar ruas de favelas, trazer água encanada e eletricidade sem necessidade dos gatos na fiação regular, construir UPAs e escolas técnicas nessas áreas também fazem parte de um estratégia de segurança pública. Hoje, milícias suprem tais serviços e cobram por eles em troca de uma segurança que caberia ao Estado garantir.
Iniciativas bem-sucedidas
Assim como no México, Colômbia, mesmo em países desenvolvidos – no Japão, a Yakuza se organiza como sociedade beneficente, com uma mescla de assistência social, crimes variados e uma área empresarial, que investe em ações de conglomerados japoneses -, a traficância aprende a se disfarçar e a se socializar sem assustar. Como os bicheiros de antes, e a turma das bets de hoje.
A experiência demonstra que onde a gestão pública se insere com o que mais reclama a população marginalizada o crime pode não acabar mas diminui ou fica menos letal. É o caso do programa conhecido no Rio como “favela-bairro”, lançado em 1994 pelo prefeito Cesar Maia e retomado pelo atual, Eduardo Paes (PSD-RJ). Ele visa urbanizar e integrar favelas à cidade, oferecendo infraestrutura, serviços sociais e reconhecê-las como bairros normais.
Mais bem-sucedido é o programa lançado vinte e poucos anos atrás na Cidade do México pela cimenteira Cemex. Começou mapeando as favelas, as casas, a formação de grupos de jovens advogados para cadastrar o morador e pedir na prefeitura a titulação do imóvel e, ao fim, a venda de sacos de cimento e outros insumos para reforma das moradias. Tudo foi pensado para funcionar. A venda é feita por mulheres da comunidade por meio de cadernetas e duas semanas para pagar. Pagando uma nota, libera a compra seguinte, com retirada em lojas de materiais de construção da própria comunidade.
O programa projetou a imagem da ex-prefeita da capital Claudia Sheinbaum. Ela não o formulou mas o ampliou, tornando-se conhecida no México e vindo a se eleger presidente no ano passado.
Nem Paris nem Tiririca
Um contraponto à pesquisa da Quaest, e para as outras que virão, seria pesquisar a proposta dos eventuais candidatos para os temas relevantes à sociedade e levar as suas respostas ao escrutínio do eleitor, em vez de listar nomes e inquirir a sua preferência.
Se a política não vai ao eleitor, vamos levar o eleitor até ela, que é o que ele faz quando vota em outsider ao se sentir tratado como massa de manobra. Esse sentimento explica a vitória de Trump nos EUA, mesmo a de Bolsonaro. Explica também por que os programas eleitoreiros estão perdendo eficácia para aliciar votos. O Brasil dos currais eleitorais ainda existe, mas está em retração.
A questão de impacto para um campo bem dividido entre dois polos, com um nome numa ponta do arco ideológico e vários na outra ponta, é saber com clareza o que propõem para atender a insatisfação com o desempenho do país nas últimas duas décadas e ainda falarmos de pobreza e de insegurança só na véspera de cada eleição.
Essa é a resposta necessária, já que para poucos “sempre haverá Paris”, conforme a frase icônica do clássico Casablanca, e para a maioria haverá os “Tiririca” e os “Cacareco” da política.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
