Com formulação e vontade, país pode reaver a confiança nos poderes e crescer acelerado
Quem deixa dinheiro sobre a mesa, sente raiva do que não gosta e não sabe o que fazer ou perde tempo com elucubrações fantasiosas encontra o prato feito nas chicanas do STF e na disputa eleitoral desprovida de ideias e propostas. Vai colher frustrações, muitas, e depois vai culpar a má sorte, o tempo ruim, nunca a sua escolha.
As transformações que ignoramos fervilham no mundo. Ignorá-las é o caminho mais curto para a irrelevância do país na arena global e, o que é mais grave, a eclosão de conflitos políticos e sociais que estão em ebulição. É questão de tempo, mantido o status quo.
As causas da transformação tecnológica e as razões de estarmos em meio a uma eleição em que os candidatos na dianteira são também os mais rejeitados deveriam ocupar o centro das atenções, distraídas pelas histórias sórdidas do tal Vorcaro, dos carecas do INSS e do STF, e outros tantos – todos cevados pela desordem institucional e pela má administração do setor público nacional de modo geral.
Nossos problemas não têm causa única nem se devem a um governo em particular. É um processo que vem de longe, legando a exaustão do crescimento econômico movido a transferências de renda, subsídios e endividamento massivo, sem ampliar o suficiente a produtividade e a capacidade produtiva, e a erosão da confiança nas instituições – sobretudo no Supremo Tribunal Federal, cujo abalo é profundo.
A sugestão é que nosso patrimônio coletivo tangível e intangível foi consumido por escolhas ruins e desperdícios, implicando o que se apresenta como deterioração institucional. É importante saber o que estamos perdendo, por quais mecanismos e, especialmente, como interromper a perda. Essa é a discussão que assombra a política.
Na nova geopolítica, cada país procura seu lugar sob a influência de três macrotendências: a relocalização das cadeias de produção, a transição energética e a inteligência artificial (IA). Das três, IA é a que pede passagem no Brasil como eixo de um grande programa nacional. Já temos o básico para articulá-la. Não temos é coordenação executiva para planejar e converter uma visão de desenvolvimento em decisões de investimento e implementá-las.
O significado da rejeição
O que o país demanda, explicitando de modo difuso a insatisfação com a falta de respostas nas altas taxas de rejeição de Lula e de Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas de intenção de voto? Essa insatisfação também aparece na baixa confiança nas instituições, apontada esta semana em pesquisa da AtlasIntel. No Congresso, é de apenas 8% a confiança, contra 81% que desconfiam dos deputados e senadores. No STF, só 34% dizem confiar; no governo federal, 48%.
Parece óbvio que a modernização do Estado e das instituições é a prioridade máxima, visando restabelecer a confiança na Justiça e o equilíbrio entre os poderes (Governo, Congresso e Judiciário, em que sobressai o papel alargado e desestabilizador do STF).
E, em paralelo, o país precisa recuperar a capacidade de crescer, ampliar oportunidades e transformar as vantagens naturais, humanas e tecnológicas em prosperidade compartilhada. Décadas de baixo dinamismo, de investimentos insuficientes e perda de produtividade limitaram a renda das famílias e enfraqueceram as empresas, além de comprometer o financiamento dos serviços públicos.
Assim foi, e tem sido, disfarçado pelo crescimento tocado à base de endividamento, de transferências de renda e de desonerações a setores econômicos mais fortes politicamente. É o que confunde as percepções populares: se a economia cresce, ainda que pouco, menos que a média mundial, e o desemprego tem recorde de baixa, o que estaria errado? A inadimplência, os déficits em série, os juros no espaço, os gastos redundantes etc. fornecem a contraprova. Esse modelo se esgarçou; insistir nele significa aprofundar a crise.
Um maestro para um programa
Mas não tem que esperar um desfecho traumático para encontrar as soluções. O país dispõe de recursos, instituições, conhecimento e empresas capazes de sustentar um ciclo de desenvolvimento. Falta organizar essas capacidades em torno de objetivos comuns, com responsáveis pela formulação e execução, financiamento, prazos e resultados verificáveis. Só que isso não está na agenda.
Um roteiro transformador deveria começar com a reforma do Estado e das instituições que o sustentam. E, com tudo junto e misturado, superar os obstáculos macroeconômicos. Começa pela coordenação das políticas monetária, fiscal e de desenvolvimento, mirando alcançar três objetivos simultâneos. Primeiro, fechar o déficit primário com reorganização de todas as rubricas da Lei Orçamentária Anual.
Em paralelo, o segundo objetivo é reduzir os juros e o custo do capital de forma organizada. Combinados com o crescimento, os dois movimentos devem permitir o terceiro: estabilizar a dívida pública em relação ao PIB.
Se houver capacidade executiva e política do novo governante para empinar tal roteiro, criam-se as condições para elevar a taxa de investimento dos atuais 16% a 17% do PIB para 23% a 25% até 2030, com aumento da produtividade e, enfim, do crescimento acelerado. O programa existe. E o maestro?
A oportunidade tem endereço
A nova “economia do elétron” dá a direção a esse esforço. É a convergência entre eletrificação e inteligência digital: a energia move máquinas, veículos e equipamentos; os dados e a IA orientam o seu funcionamento.
Redes, armazenamento, computação e automação formam o conjunto capaz de elevar a produtividade e transformar as indústrias e os serviços. Ter energia abundante é um diferencial relevante. Mas convertê-la em produção competitiva exige muita organização.
Podemos reunir essas peças e ampliar a influência econômica na geoeconomia em formação no mundo. Mas precisamos integrar decisões hoje dispersas entre ministérios, agências e empresas. Uma pequena equipe de formulação ligada ao presidente deveria preparar ações, articular os responsáveis e encaminhar a solução dos impasses. Seu primeiro produto: uma carteira de projetos em áreas estratégicas, modelados com tecnologia, funding e prazo para sair do papel.
Consórcios de empreendedores e investidores reuniriam quem sabe fazer, produzir e operar. Ao menos dois grandes fundos de capital paciente, com participação minoritária do Estado e gestão privada, poderiam mobilizar recursos nacionais e estrangeiros, da ordem de US$ 100 bilhões cada. O apoio público teria contrapartidas. Médios e pequenos negócios participariam dessa transformação com acesso à IA, formação técnica e serviços digitais compartilhados.
É a oportunidade para renovar a indústria, ampliar exportações e gerar empregos qualificados. E evitar o risco de fornecer energia e minerais aos que dominam tecnologia, decisões e lucros. Por isso a iniciativa tem de ser nossa, e estamos muito atrasados. O país continuará deixando dinheiro sobre a mesa se tratar a coordenação do desenvolvimento como assunto para depois. É para ontem!
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
