Centro e direita tiveram 77% dos votos. Eleger o sucessor de Lula é a meta. Faltam nome e projeto

2026 tende à direita

Com 77,6% dos votos na maioria das cidades brasileiras, elegendo prefeitos e vereadores numa proporção quase 3,5 vezes maior que os partidos de esquerda, escolhidos por apenas 22,4% do eleitorado, a direita tradicional do arco político foi a vencedora indiscutível das eleições municipais, e poderá crescer mais com o que virá dos municípios onde haverá 2º turno, especialmente em São Paulo.

Tal resultado deverá ter consequências para as eleições gerais em 2026, já que, por vários fatores, a vontade dos partidos de centro e de direita é deixar de ser coadjuvante de outros menos votados. É o que tem sido desde o fim da coligação entre PSDB e PFL (base do Dem, hoje União Brasil, do PSD e vários outros), além do MDB, para formar a sustentação no Congresso dos dois governos de FHC.

Apesar do dinheiro do orçamento federal enviado aos municípios pelas emendas parlamentares favorecer candidatos mais conectados, o fato é que todos os partidos, do PSD e PL ao PT e PSB, foram contemplados. Mas os de centro, como PSD e MDB, e de direita, do PL de Bolsonaro ao Republicanos do governador Tarcísio de Freitas e PP de Arthur Lira, se saíram melhor. E não somente por isso nem graças a Bolsonaro. Venceram porque o eleitor quis assim.

A dominância conservadora nas eleições sempre foi a regra, embora mais no Congresso e nas assembleias regionais que nos governos dos estados, municípios e federal. Assim foi desde a redemocratização.

A bagunça partidária se deve à decisão do STF em 2006 de declarar inconstitucional lei aprovada em 1995 instituindo a tal “cláusula de barreira”. Ela reduzia a atuação parlamentar de partidos sem um percentual mínimo de votos. A decisão esdrúxula do STF (mais uma) facilitou a proliferação de partidos, a maioria sem nenhuma linha programática, criados para tirar proveito dos dinheiros públicos que custeiam a atividade partidária e as campanhas eleitorais.

Como o que excede o bom senso preocupa até os mais libertinos, o Congresso aprovou outra restrição, mais branda, sem o STF meter o bedelho, e ela já produz efeitos. A expectativa é que em 2027 haja apenas sete a onze partidos na Câmara. Os demais ou se fundem ou formam uma federação como a que une PSDB e Cidadania ou acabam. Isto será salutar para a democracia, além de afastar arrivistas.

A deformação institucional

Boa parte da deformação institucional que trava o desenvolvimento e envelhece as bases produtivas do país vem do Congresso capturado por partidos sem projeto nacional além de influenciado por lobbies da burocracia federal e de grupos empresariais que fazem do poder de inserir emendas em leis, vulgo jabutis, a razão de seu sucesso.

Isso tem a ver com a baixa ou falta de convergência programática entre o governante eleito e os partidos majoritários. Começou com governante achando que poderia tirar proveito do fisiologismo dos partidos do tal centrão, sem ter de partilhar com eles as decisões de governo. Deu em escândalos. Bolsonaro fez o mesmo. Acabou tendo que entregar a execução orçamentária para o Congresso para não ser impichado devido à sua atuação medonha na pandemia.

Congresso para um lado e presidente da República para outro, com promessas feitas em sua campanha eleitoral sabendo não ter votos parlamentares para cumpri-las, esparramam-se no populismo fiscal e em prebendas tributárias, cujas sequelas são os déficits crônicos orçamentários, o endividamento crescente e os juros obscenos.

É neste sentido que a sinalização das eleições municipais se une ao que começa a ser planejado para 2026. Se os partidos de centro foram bem votados, os de direita performaram sem ter que depender da liderança tóxica de Bolsonaro, o PT repetiu o resultado pífio de 2020 e a cláusula de barreira vai expurgar os menos votados, por que não ter candidato próprio para ser protagonista em 2026?

Sarrafo democrático subiu

Na aritmética do voto, os partidos de centro e de direita foram escolhidos por 73,1 milhões de eleitores, representando mais de dois terços do total de 94,2 milhões de votos válidos. E são os seis primeiros na lista dos 10 partidos que conquistaram o maior número de prefeituras, pela ordem: PSD (888), MDB (865), PP (752), União Brasil (589), PL (523) e Republicanos (441).

Os partidos de esquerda tiveram 21,1 milhões de votos ou 22,4% do total entre os 10 mais votados no 1º turno. Em número de cidades, o PSB vem em 7º lugar (312 municípios), seguido do PSDB (276), PT (253) e PDT (151). Tirando-se o PSDB, que nem de centro-esquerda ainda é, o desempenho do bloco da esquerda foi constrangedor, em especial para o PT e a liderança de Lula. A equação de 26 é esta.

Lembro que a cláusula de barreira para acesso ao fundo eleitoral e espaço em rádio e TV está em vigor, sendo a presença municipal o alicerce para a eleição de deputados federais. Eles são a métrica da partilha desses dinheiros. Em 2026, para se habilitarem a essa dinheirama, os partidos terão de eleger, no mínimo, 13 deputados federais ou receber 2,5% dos votos para a Câmara. O sarrafo subiu.

O caminho da superação

Em suma, como diz o sociólogo José de Souza Martins: “A revelação sociologicamente relevante da eleição [municipal] é a de que a esquerda tem dificuldade para atualizar sua compreensão dialética do que é o processo político no Brasil e do que é a relação entre práxis e realidade social, isto é, entre mudanças e transformações sociais e a consciência política que delas é necessário ter. Seu desafio é sair da mentalidade de 1960”.

É entre as demandas por ascensão social que as classes de renda baixa já não vislumbram nos programas oficiais ou de percepção de insegurança pública que vai trafegar a política daqui em diante.

Dois vencedores das atuais eleições deverão estar atentos a tais sentimentos: Gilberto Kassab, presidente do PSD, que se tornou o maior partido municipalista, e o governador Tarcísio de Freitas, sobretudo se o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, se reeleger contra Guilherme Boulos, do PSOL, com apoio de Lula e do PT.

Falta a eles, tal como a Lula, um programa arrebatador, capaz de superar a discussão insossa sobre as contas fiscais, ainda mais se puxadas por aumentos de impostos com carga tributária já recorde.

O empresariado consciente pode romper essa letargia. A prática os ensinou o caminho da superação. Mas só a política pode resolver.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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