Novo BC assume a ortodoxia por necessidade, não por convicção, até que desponte outro cenário

Nem vem que não tem

Três cenários se avistam depois da forte pancada, exagerada até, do Banco Central, ao elevar de 11,25% ao ano para 12,25% a taxa de juro básica, a Selic, mostrando-se o “adulto na sala” em meio à algazarra tanto do governo, encantado com o crescimento movido a gasto público, quanto do mercado financeiro, ensandecido com os riscos potenciais de descontrole das contas nacionais.

Sem mudanças capazes de repor a trajetória da inflação na meta de 3% ao ano, hoje dilatada pela maxidesvalorização do real frente ao dólar e pelo universo de mais de 100 milhões de pessoas recebendo algum tipo de renda mensal paga com dinheiro público, o BC indicou mais duas altas equivalentes da Selic, elevando-a a 14,25% até a reunião do Copom de março. Ou mais: o Itaú, por exemplo, prevê que a taxa do overnight chegará a 15% e ficará assim o ano inteiro.

Juro alto é o caroço de abacate entalado na garganta da economia.

“A magnitude total do ciclo de aperto monetário será ditada pelo firme compromisso de convergência da inflação à meta e dependerá da evolução da dinâmica da inflação”, alertou o BC. Alertou quem?

Os que supõem que a nova diretoria, liderada pelo atual diretor Gabriel Galípolo, será leniente com sua missão, dada pelo mandato de autonomia operacional e baseada no que lhe impõe como diretriz o Conselho Monetário Nacional, subordinado ao presidente Lula.

Não se espere acanhamento, se o PT tentar intimidar o BC, como fez com o presidente de saída, Roberto Campos Netto. Ou seja: com Galípolo e os novos diretores o BC assumiu o assento do motorista.

Tem também um alerta aos traders de títulos da dívida do Tesouro Nacional, os tais farialimers, acostumados a especular com o caos. Gestores de fundos, não os bancos, formam os preços de mercado dos juros e do câmbio, cabendo à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) fiscalizá-los e regulá-los. Se houver leniência nessa função, algo será feito.

A ortodoxia não é por convicção, é por necessidade.

Esta é a realidade daqui para frente, lembrando que, ao contrário das cadeiras ministeriais, as do BC têm mandato e missões legais.

Três cenários disponíveis

Um BC reconhecido como técnico e profissional, além de conhecedor das mumunhas do tal “mercado” disfarçadas de rigor acadêmico com a ajuda de comentaristas de olhar compungido, fará bem à economia e ao governo, ao menos enquanto carecer formuladores no ministério.

Como o presidente se espreme entre um Congresso de larga maioria conservadora, incompreensão sobre a insatisfação popular depois de mais de 20 anos de políticas de transferência de renda sem grande impacto na transformação social, e empresariado boca de siri, com temor de ser ativo no debate político, restam-lhe poucas opções.

No primeiro cenário, o governo Lula emula a transição da gestão de Dilma Rousseff. Ela escancarou o Tesouro Nacional na campanha pela reeleição, assumiu o segundo mandato tentando frear o que já estava emprenhado na gestão pública, e fracassou. Dado o que veio em seguida para ela, dificilmente o presidente fará o mesmo.

No segundo cenário, haveria uma ligeira mudança no jogo ensaiado entre ele e o ministro Fernando Haddad, de modo a que o pacotinho de contenção de despesas obrigatórias, que crescem há anos acima do ritmo do PIB, fique um pouco mais salgado. Essa via se inviabilizou com as idas e vindas da dupla, dando tempo a que o Congresso se articulasse para não aparecer como algoz de políticas sociais meritórias, porém, sem aderência com a realidade fiscal.

No terceiro, mais provável, o governo estica até onde o Congresso permita, e sua permissão tem correlação com os fundos das emendas com os quais os parlamentares irrigam suas bases eleitorais e as mesas da Câmara e do Senado pilotam as votações de projetos de lei e emendas constitucionais. É o conhecido arroz com feijão.

As verdades incômodas

Algumas verdades incômodas precisam ser ditas. A primeira é que o crescimento tem sido puxado há anos mais por estímulos fiscais ao consumo, não por ações diretas para empinar a oferta, conforme os modelos bem-sucedidos na Ásia e, logo no pós-Guerra, nos EUA e na Europa (e aqui também dos anos 1950 a 1970).

Outra verdade é que governos endividados e bancados por dívida de prazo curto e juros altos enriquecem quem tem renda e caixa livres para aplicar em papéis. Não há como diminuir esse desequilíbrio só com transferências e isenções tributárias, a proposta do governo para tentar atrair a classe média, onde tem menos apelo eleitoral.

Uma terceira verdade: dívida contraída para bancar bons projetos de expansão da base produtiva e novas tecnologias não só se paga, como é ela, na modalidade privada, que tem deslanchado o programa de concessões e de obras do PAC. Hoje, papéis como debêntures têm maior importância ao investimento que o crédito em banco estatal.

A combinação dessas verdades à visão de que larga parte da população tem renda garantida pelo Estado permitiria implantar um mercado de consumo de massa e, aos poucos, tirar tais estímulos ao longo de, digamos, uma década, com empregos e crédito acessível e barato. Esta é a grande diferença entre países bem-sucedidos no mundo e a América Latina: ênfase mais no crédito que em gasto público, sobretudo direto, além de educação de nível elevado e indução competitiva para exportar. Ou é isso ou é a inação.

Último muro de contenção

Uma mudança para valer não virá de governante iluminado nem de um plano econômico matador. Virá de construção coletiva.

Da política, que tem que se impor em vez de caçar prebendas do governante de turno, afrontando a vontade de quem o elegeu. Ou seja: o centro não ser centrão e a esquerda voltar a suas raízes desenvolvimentistas, abandonando o populismo eleitoral. E virá do empresariado se vendo como parte da solução, que está na tecnologia e não no passado.

E como tem dois anos adiante antes de outra campanha o presidente precisaria dispor de acesso organizado a ideias e opções tal como teve nos dois primeiros mandatos. Sem isso, terá um Congresso pouco disposto a validar o que o fortaleça para 2026, um mercado financeiro descabelando a racionalidade e o BC como último muro de contenção entre o caos e o equilíbrio ao custo de minar a saúde financeira pela falta de ajuste fiscal merecedor de crédito.

Essas são as possibilidades, diminutas para um país promissor.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

Deixe uma resposta