Defender a soberania é fortalecer a economia doméstica e remover o que trava o investimento privado

Essa luta é nossa

Das poucas certezas derivadas da ansiedade de Donald Trump em ter de volta o esplendor do poderio dos EUA a maior de todas não está nas sequelas do tarifaço. Dele é possível contornar e sobreviver.

Mais certo é o fim do sistema de regras do comércio global devido ao mercantilismo protecionista da China, a despeito de sua suposta defesa do multilateralismo, e ao uso das tarifas como instrumento dissuasório por Trump. Está clara a preferência das duas potências pelo sistema baseado no poder, e poder econômico e militar ninguém mais tem. Muito menos o Brasil, e essa é a realidade a considerar.

É de pouca serventia, neste contexto, entrar no jogo de Trump, em especial ao usar as tarifas como contrapartida para questões não comerciais, como a migração, a entrada de fentanil nos EUA, guerra na Ucrânia e o processo no STF contra o golpismo de Jair Bolsonaro (personalizando como algoz o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso e, por isso, vítima de sanções que começam a se estender a figuras do governo pelos mais improváveis e fúteis motivos).

É uma intromissão na política doméstica, um atentado à soberania nacional, como afirma de forma cada vez mais incisiva o presidente Lula? Sim, é. “O Brasil não vai ficar de joelho para o governo dos EUA”, declarou esta semana, respondendo a um comentário de Trump segundo o qual o Brasil é “um mau parceiro comercial”. Mas altivez no mais das vezes é ignorar o agressor verbal, como fez a maioria dos governantes agredidos pelas tarifas e humilhações pontuais. A indiferença toca mais o valentão que respondê-lo.

Há fundamentos para ser mais soberbo que a arrogância calculada de Trump e seus secretários. Lembra, segundo um dos analistas da Bloomberg, a estratégia de Muhammad Ali de se apoiar nas cordas do ringue de boxe enquanto seu oponente gastava energia socando-o. Ao vê-lo cansado, Ali reaparecia no ringue para nocauteá-lo com um uppercut indefensável.

Tome-se a exigência nos acordos com a União Europeia e Indonésia, tributadas com 15% e 19%, respectivamente, para que abrissem seus mercados às exportações dos EUA. Mas, tirando produtos agrícolas e armas, o que podem vender à custa dos produtores domesticos desses países? O mesmo se aplica à exigência de investirem nos EUA, US$ 500 bilhões no caso do Japão. Mas tais negócioss já são comuns. A novidade é ele cantar vitória para o público interno. Que cante!

Globalização não esmoreceu

O relevante a considerar é que a globalização ainda não deu sinal de que vai ruir. Até pode. Mas há forças respeitáveis a mantê-la.

Um relatório da Moller-Maersk, gigante dinamarquesa de transporte marítimo, diz que há uma demanda “surpreendentemente resiliente” a despeito dos EUA, e estimou que os volumes globais de contêineres poderiam aumentar em até 4% este ano.

Medida pelas importações, a maioria não envolve EUA, responsáveis por apenas 14% do total. China responde por 9% das importações, 6% a Alemanha, Inglaterra, 4%, França, 3%, e o resto, por 64%, Brasil incluído. Chris Bryant, da Bloomberg, reflete que os EUA podem ter ajudado a impulsionar a globalização depois da 2ª Guerra, mas “não podem, por si só, reverter a interdependência econômica global”.

Por quê? Porque, diz, “os ganhos de prosperidade com a vantagem comparativa e transporte de contêineres de baixo custo são grandes demais para o resto do mundo ignorar”. Além disso, os EUA podem ainda ser o mercado para o qual todos querem vender, mas há outro motor econômico no mundo de hoje: a China, que foi o foco original da guerra comercial até que Trump decidiu brigar com todo mundo.

Tais considerações têm chegado à mesa de Lula ou sua verborragia em defesa da soberania vem das razões eleitorais, reforçadas pela convicção de seus apoiadores de que a reeleição corre menos riscos enquanto estiver no ar o fantasma de Bolsonaro e do golpismo? Por razões apenas econômicas, nada justifica lamentar a indiferença de Trump com os pedidos ignorados de Lula para abrir negociação.

País está sem estratégia

No fundo, mais que o tarifaço e as ingerências da Casa Branca em nossos assuntos internos o que constitui, verdadeiramente, ameaça é a ausência de uma estratégia ativa e não reativa como tem sido desde o desmanche dos investimentos nos anos 1980 – razão da estagnação do desenvolvimento vis-à-vis as economias emergentes e dos desenvolvidos, disfarçada, parcialmente, com as transferências de renda e subsídios estatais. Nosso mercado de consumo de massa, por tais razões, continua potencial, inibindo economias de escala.

Segundo o economista Jorge Arbache, “no novo contexto global, o Brasil deixou de ser um ator discreto. Suas posições passaram a ser não apenas notadas, mas, também, questionadas e, por vezes, combatidas. Isso porque a lógica dominante hoje é de jogo de soma zero: ganhos de um lado são percebidos como perdas do outro. Nesse ambiente, qualquer movimento estratégico do Brasil pode ser interpretado como ameaça ou reposicionamento de poder.” E segue:

“O problema é que o país ainda parece pouco preparado para essa dinâmica. Falta no governo, no setor privado e mesmo na academia uma infraestrutura robusta de conhecimento estratégico para embasar decisões e antecipar movimentos no tabuleiro global. Um exemplo recente foi o choque das tarifas comerciais impostas pelos EUA. A reação oficial foi de surpresa, mas, na realidade, esse era um risco previsível.” E isso por quê? Por nos faltar projeto.

Em 1980 estávamos no 48º lugar no ranking global do Banco Mundial do PIB per capita medido pela paridade de poder de compra. Hoje, estamos no 87º. A Coreia do Sul em 1980 representava 45% do nosso PIB per capita, até 2030 representará o triplo. O da China, 138%.

Se não tem tu vai tu mesmo

Paramos de evoluir há 45 anos. Essa é a noção que nos interessa em meio à volatilidade geopolítica. E só o empresariado, atual e futuro, não o governo sozinho, qualquer governo, tem condições de nos recolocar enquanto país no processo de criação de riquezas.

Governos passam e o mercado fica. Cabe-nos ‘iluminar’ a política.

Sem reformas de fundo do gasto público, mal direcionado quase ao nível do desperdício, além de olhar atento ao investimento que adicione valor ao que temos vantagens (energia e água abundantes, redes de dados integradas ao PIX e à logística de distribuição até para tirar os Correios da miséria, pobres com renda garantida e ao mesmo tempo trabalhando à margem do emprego formal e da tributação exasperante). Tudo isso é insumo para o dinamismo econômico.

Isso é concreto e tem direção. Não tem quem o pilote. Os partidos não têm propostas neste sentido nem dialogam com tais demandas que são fortes no país, embora políticos como Ratinho Jr., Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab assimilaram tais conceitos. O governo é que ainda flana, desatento a que a China tem razões tão imperiais quanto os EUA. Estamos na base do “se não tem tu vai tu mesmo”.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

Deixe uma resposta