No fundão global
A 13 meses das eleições gerais, ainda não se sabe, para valer, o que os eventuais candidatos propõem contra o tumulto político dos EUA, que não se resume às tarifas de Donald Trump, e as mudanças igualmente de alto risco na China de Xi Jinping para reduzir seus níveis absurdamente altos de produção. Sabe-se é que nos faltam estratégias para afastar o país desse choque entre titãs.
País acanhado vis-à-vis seu potencial econômico mal desenvolvido, tamanho e população não tem lugar nem no tal “Sul Global”, apesar de adulado pelos czares desse pedaço desafiador. Somos um gigante com pés 44 espremidos em sapato 36, enfiado no “fundão global” das economias emergentes tanto pela displicência dos governantes, quanto pela complacência, desinformação e ilusão dos governados.
O tarifaço desarrozoado de 50%, com sentido de sanção imposto a cerca de 40% das exportações do Brasil para os EUA, neste sentido, foi didático, a despeito de ser indefensável. A balança bilateral há 15 anos é superavitária aos americanos. Serviu para nos alertar de que somos um país que vive de colher o que planta, da engorda de bois, frangos e porcos e da escavação de minérios e exploração de óleo e gás. Não são por tais recursos que EUA e China estão no ringue, arrastando o mundo para um embate que não provocou.
A disputa de vida ou morte é pelo desenvolvimento de tecnologias que estão moldando um novo mundo – inteligência artificial que se reproduz autonomamente, comunicações hiper-rápidas, medicações que melhoram a qualidade de vida e a expandem, inovações de meios de pagamentos, energias limpas e infinitas. Tudo associado a eventos irrefreáveis, da desaceleração demográfica à mudança climática.
É por tais transformações, seja para refreá-la ou acelerá-la, que as potências competem, reinventando missões de Estado, como os EUA voltarem ao esplendor – sonho do MAGA, que é mais que Trump – e a marcha pela supremacia econômica, tecnológica e militar – o passo chinês, que começa a enfrentar seus primeiros tropeços.
A retórica exaltada de Lula e o entreguismo dos Bolsonaro não têm valor nesta hora, pois dissociadas de uma estratégia criadora de riquezas perenes. Só que não há vazios, como revelou a ação contra a ousada infiltração do PCC em atividades econômicas legítimas.
O que faltou e ainda falta
A síntese de nossa pouca história não lembrada no Bicentenário da Independência é que poderíamos ter sido mais – uma nação próspera, desenvolvida e civilizada. Fomos pouco severos com as avaliações políticas, condescendentes com os resultados econômicos e sociais e faltou-nos disciplina para concretizar ao menos o básico.
Desde a Independência, saímos de 4,7 milhões de habitantes para 121 milhões em 1980 e 213 milhões atualmente. Nossa fatia sobre o PIB mundial escalou de 0,43% em 1822 para 3,2% em 1980, conforme resgate de dados históricos pelo economista Cláudio Haddad e compilação recente pelo demógrafo José Eustáquio Diniz Alves. A população cresceu 2,8% ao ano de 1950 a 1980, a economia avançou 7% ao ano e a renda per capita, 4,2% ao ano. Tal desempenho nunca mais foi registrado nem mesmo por períodos curtos.
A economia brasileira, que já representou 3,2% do PIB mundial, chegou ao fim de 2024 com algo em torno de 2%. Se mantivéssemos a participação de 1980, nosso PIB seria hoje de US$ 3,5 trilhões, o equivalente ao da Índia, economia de maior crescimento na última década e meia, e não de US$ 2,2 trilhões. A renda per capita seria próxima à de Portugal, US$ 22.500, em vez de US$ 10.600 atuais.
Excesso de cautela em assuntos públicos, mas, sobretudo, a falta de estratégias, é sempre um convite para projetos inconfessáveis se imporem sobre as missões nacionais. É o que a hoje pouco usual expressão “maioria silenciosa” descobriu nos EUA e gritou elegendo Trump em 2016 e devolveu o mandato em 2024. Biden tentou, mas foi fraco na implementação e gastou capital político com o wokismo, a ideologia que divorciou o progressismo das maiorias conservadoras.
No Brasil, à falta de projetos políticos que dialoguem com a nova maioria especialmente da classe média baixa, o dinheiro público, que não é pouco, é esbanjado com elites estatais mal contidas pelo arremedo de ajustes, tipo “teto de gasto” e “arcabouço fiscal”.
EUA e China estão no limite
Se fizermos ao menos o básico, combinando vontade com atitudes, o caminho do progresso, que parece impossível, pode ser recuperado e transformado. Diz o senso comum: Todo mundo adora uma história de recomeço. Mas ela não passa pelo alinhamento aos EUA ou à China.
Ambos os países estão no limite de suas vontades. Os EUA, com uma economia que pouco produz, embora continue a maior do mundo e mais criativa, além do mercado de capitais sem rival. Já a China vive a ressaca de um modelo de crescimento movido a investimento sem dar bola para a eficiência do capital empregado, desde que ele produza e empregue muito.
A confluência destas duas situações é a crise.
Para a China, assim continuará enquanto encontrar país disposto a sacrificar suas próprias indústrias e engenharias nacionais. Para os EUA, até que sua dívida em rota exponencial, nutrida por rombos fiscais devidos a cortes de impostos aprovados por Trump e a muita leniência com o desvio de renda tributável de suas multinacionais para paraísos fiscais, encontre tomador para o ervanário do dólar.
O que esperar, por exemplo, do setor automotivo chinês e suas 129 montadoras fabricando veículos elétricos? Estudos não oficiais dos planejadores do governo sugerem que não mais que seis sobrevivam em cinco anos. O mercado interno seria uma via de escape, mas não é simples. A meta principal de Pequim é o crescimento econômico e submetas orientam, ou obrigam, governos provinciais a cumpri-las. Além disso, o grosso do financiamento a fundo perdido ou a credito barato é bancado por repressão salarial e pouca política social.
Excesso de capacidade produtiva é geral, de produtos siderúrgicos e petroquímicos a placas de silício e turbinas eólicas. No falido setor imobiliário, o estoque de moradias novas atende a demanda do país por cinco anos. O fato: China e EUA precisam um do outro.
Que esperar dos candidatos?
A análise comparada das múltiplas crises da ordem mundial deveria ser o parâmetro para formulação dos novos programas de governo dos candidatos presidenciais: Lula de um lado e provavelmente Tarcísio de Freitas ou Ratinho Jr. pelo outro. É o que queremos conhecer.
Na geopolítica, como lidar com a política de zonas de influência de Trump, que divide o mundo a la “1984”, de George Orwell: EUA, China, Rússia e o resto. Na política econômica interna, consensar as áreas que mereçam estimular. Bom começo seria parar de destacar o potencial das atividades de baixo carbono e agendas ESG e DEI, a mistura de equidade com ambientalismo, e trabalhar o que é prático e pode ser feito aliando tais valores. Mais ação e menos tese.
À vontade de empreender, oferecer os meios de e-commerce que são disponíveis, ligando o PIX à logística e às redes digitais a custo acessível. Dar fim ao excedente de energia solar, eólica e gás, o que demanda novas indústrias. Desatar o nó do crédito caro, que não é função apenas de orçamento equilibrado, embora não se possa ignorá-lo. Enxugar o Estado administrativo em prol do Estado que planeja e opera em harmonia com o setor privado. Quem se habilita?
Temerário é achar que podemos ficar tranquilos porque temos China como principal parceiro comercial. Ou EUA como investidor. É mais prudente trabalhar com a ideia de que só temos nós mesmos.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
